Categoria: Poesia

Dúvidas Existenciais




Agora fiquei intrigado: se sei coisas que não aprendi nessa vida, que mais eu saberia sem saber que sei?

Retorno às dúvidas existenciais da adolescência?



Dúvida Existencial
(1990)


Quem sou

      E o que sou?

Que importa,

      Posto que sou

O que não sei que sou?!

      E se eu for

Algo que não quiser ser...

      Pra que saber?


In: O Amor & Outras Coisas Que Coçam, 2003

A Poesia Não É Natural



Lugar Mágico - São Pedro do Sul/RS



Os poetas tem por hábito olhar um riacho buliçoso, por exemplo, e pensar "ó, que poético o som da água bolinando as pedras"... mas, convenhamos, o som da água sobre as pedras, em si, não contém poesia alguma!

Não há poesia nas coisas ou na natureza, pois as coisas simplesmente existem, de forma abstrata. A própria essência das coisas é neutra: o riacho simplesmente corre por força da gravidade, faz barulho nas pedras por força do atrito físico, o que, por natureza, não é belo ou poético — as coisas SIMPLESMENTE SÃO, sem definições.

Por termos esse velho hábito de sempre procurar as coisas fora de nós mesmos é que pensamos que a poesia está nas coisas, na natureza, ou que D'us está lá fora... mas isso não passa de projeção.

projeção, s. f. Ato ou efeito de projetar; (Psiq.) transferência de culpa: mecanismo psicológico compensador que consiste em atribuir a outros os próprios sentimentos, livrando-se o indivíduo de responsabilidades e de conflitos entre o desejo e o dever.

Portanto, não há tonteira maior do que dizer que "há poesia no riacho" ou que "não há poesia no concreto" (não confundir aqui "poesia no concreto" com "poesia concreta"): o correto seria dizer "VEJO poesia no riacho" ou "NÃO VEJO poesia no concreto".

A poesia não está na natureza: está no homem, ou seja, ela pode estar em todos os lugares ou em lugar nenhum, dependendo não do que se vê, mas dos olhos — e da sensibilidade — para vê-la.

Um Dia Especial




Um Dia Especial



Hoje é um dia perfeito
para fazer um carinho.

Hoje é um dia excelente
para distribuir sorrisos.

Hoje é um dia ideal
para dar um abraço.

Hoje é um dia sublime
para dizer eu te amo.

Hoje é um dia especial,
como outro qualquer.


In: O Amor & Outras Coisas Que Coçam

Beija-Flor




A maldição dos beija-flores é serem eternamente rimados com dores e amores e — ora, vejam, que originalidade! — com flores. Por isso são tão lépidos e fugidios: para que os poetas não tenham tempo de rimá-los com coisas óbvias.


Neste bosque alegre e rindo
Sou amante afortunado;
E desejo ser mudado
No mais lindo Beija-Flor.
...........................................
E num vôo feliz ave
Chego intrépido até onde
Riso e pérolas esconde
O suave e puro Amor.

Silva Alvarenga (1749-1814)
Rondó VII ? O Beija-Flor
In: Glaura ? Poemas Eróticos




Conheço a moça franzina
Que a fronte cândida inclina
Ao sopro de casto amor:
Seu rosto fica mais lindo,
Quando ela conta sorrindo
A história do beija-flor.

Tobias Barreto (1839-1889)
O Beija-Flor
In: Dias e Noites




Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador

       Oferta
Quem sabe
Se algum dia
Traria
O elevador
Até aqui
O teu amor

Oswald de Andrade (1890-1954)
Balada do Esplanada
In: Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade




Tu és divina e graciosa,
estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada,
e formada com o ardor
Da alma da mais linda flor
de mais ativo olor
Que, na vida, é preferida
pelo beija-flor.

Pixinguinha (1897-1973)
Rosa




Eu protegi teu nome por amor
Em um codinome, Beija-flor
Não responda nunca, meu amor (nunca)
Pra qualquer um na rua, Beija-flor

Cazuza (1958-1990)
Codinome Beija-Flor
In: Exagerado


E como nem tudo são flores na vida dos beija-flores, segue o poema Le Colibri, de Leconte de Lisle, com versão para o português por ninguém menos que D. Pedro II:


Le colibri
Charles-Marie Leconte de Lisle (1818-1894)


Le vert colibri, le roi des collines,
Voyant la rosée et le soleil clair
Luire dans son nid tissé d'herbes fines,
Comme un frais rayon s'échappe dans l'air.

Il se hâte et vole aux sources voisines
Où les bambous font le bruit de la mer,
Où l'açoka rouge, aux odeurs divines,
S'ouvre et porte au coeur un humide éclair.

Vers la fleur dorée il descend, se pose,
Et boit tant d'amour dans la coupe rose,
Qu'il meurt, ne sachant s'il l'a pu tarir.

Sur ta lèvre pure, ô ma bien-aimée,
Telle aussi mon âme eût voulu mourir
Du premier baiser qui l'a parfumée!


In: Poèmes barbares




O Beija-Flor
D. Pedro II (1831-1889)


O verde beija-flor, rei das colinas,
Vendo o rocio e o sol brilhante
Luzir no ninho, trança d'ervas finas,
Qual fresco raio vai-se pelo ar distante.

Rápido voa ao manancial vizinho,
Onde os bambus sussurram como o mar,
Onde o açoká rubro, em cheiros de carinho,
Abre, e eis no peito úmido a fuzilar.

Desce sobre a áurea flor a repousar,
E em rósea taça amor a inebriar,
E morre não sabendo se a pode esgotar!

Em teus lábios tão puros, minha amada,
Tal minha alma quisera terminar,
Só do primeiro beijo perfumada!


In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II

Jovens Artistas I



Henrique e Guilherme Schmitt Medina



Rescém retornado de férias, reinicio o Sinal dos Tempos com ternos sinais de esperança: dois estudos sobre obras de Van Gogh feitos por jovens artistas, meus sobrinhos Henrique e Guilherme Schmitt Medina, de 5 e 7 anos, respectivamente.



Estudo sobre Girassóis de van Gogh
Henrique Schmitt Medina




Será que foi um pote de mel
Que escorreu nesse BLOG?
Não! O amarelo, é mais belo
Nos Girassóis de Hique-Gogh!




Estudo sobre Noite Estrelada de van Gogh
Guilherme Schmitt Medina




A noite grunhindo de estrelas
Sobre o céu profundo azulado.
Quem dera estivéssemos juntos
Sob essa Noite Estrelada...

Os Pássaros




O Homem inventa
asas-delta,
aeroplanos,
jatos supersônicos,
foguetes de propulsão
de plutônio.

Os pássaros voam livres
através do infinito,
e nem sabem disso...



In: No Pé da Letra, Ed. Blocos, 1999

Piggies





Veja o outro piggie no Blog de Cécil Braga e Chaves

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Agenda



Foto: Centro de Medios Independientes - Guadalajara - Mexico*


Poeminho do tempo em que fui ativista estudantil


Hoje o dia promete
tem passeata às sete
corrida da polícia às oito
e como um bicho
me esconder afoito.

Hoje o dia promete
tem passeata às sete
pelos milhões sem nome
que passam fome,
para depois, às oito,
fugir de parte deles
que se disfarça
sob os uniformes.



(1993)




*Qualquer semelhança com polícias de outros países terá sido mera coincidência

Agora que sinto Amor




Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.



Alberto Caeiro

Metafísica de Não Pensar em Nada




O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.



Alberto Caeiro
In: O Guardador de Rebanhos



É, mestre Pessoa, às vezes há mesmo muita metafísica em não pensar em nada, o que, via de regra, dá sempre muito o que pensar...

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