Categoria: Poesia

A Minha História com Lady Spirro



Meus olhos cintilantes cor-de-telha estão vidrados no monitor, ao mesmo tempo em que os meus dedos destripam furiosamente o teclado.

São 22 horas e o sol azul se põe no horizonte vertical da Net-Heart, enquanto Lady Spirro engole mais uma de minhas orelhas.

Preciso fazer com que ela pare com isso, já é a terceira orelha minha que ela come só nessa semana e eu acho que ela está ficando viciada. Estou preocupado.

Lady Spirro é uma coisa estranha. Há alguns anos atrás eu me arriscaria a chamá-la de mulher, mas hoje eu não sei mais de nada. Ainda mais com essa gosma verde que escorre incessantemente dos seus lábios.

Tudo começou com o grande maremoto de algas químicas. Todos sabem do maremoto, seria redundância contar toda aquela história nauseante novamente... Pois bem, Lady Spirro, assim que ficou sabendo do maremoto que se aproximava, pegou a sua prancha de Net-Surf e correu para a praia. Quando conseguiu ultrapassar a vasta barreira mortal de carcaças de peixes mortos, a enorme onda cor-de-rosa já se avistava no horizonte.

Lady Spirro é maluca! Lançou-se à essa gelatina que antigamente chamávamos Mar, e surfou radicalmente naquela onda imensa.

Ela nunca mais foi a mesma. Sua pele que antes era sedosa e macia, devido aos ácidos sulfurocarbonatados especiais que usava, ficou estranhamente verde e fosfórea. Dos seus olhos ficou, durante meses, escorrendo um líquido preto e viscoso de um mau cheiro horripilante.

Lady Spirro acabou com o meu estoque de lencinhos de papel limpando aquela gosmeira toda, sem falar nessa estranha mania que ela desenvolveu após o ocorrido, que é a de comer orelhas. Quando ela comia as orelhas apenas dos cachorros e dos gatos dos vizinhos eu não me preocupava, mas com o tempo ela passou a comer as orelhas dos vizinhos também.

Estranhamente todos eles desapareceram sem deixar vestígios. Desconfio que Lady Spirro os tenha comido. A minha sorte é que eu apliquei-me aquela injeção para surdos crônicos, que faz crescer orelhas por todo o corpo. Se eu não tivesse um número suficiente de orelhas sobressalentes, não sei o que seria de mim.

Lady Spirro é um perigo!

Das formas de amar (e de expressar esse sentimento)



Olegario Schmitt - A Cor do Som de Uma Onda - Acrílica sobre vidro


Meu amor, amar é mais simples do que se poderia supor, sabias? Amar é mais fácil do que a gente imagina e há muitas maneiras, muitas intensidades de se sentir essa coisa.

Eu, por exemplo, quando digo "eu te amo" não quero com isso dizer que tu és o grande amor da minha vida, tampouco é uma promessa de que o que sinto será eterno.

Por isso, quando digo "eu te amo" não sintas medo e não entres em pânico de forma alguma, pois não imponho a esse sentimento qualquer tipo de responsabilidade recíproca. Não espero por esse sentimento qualquer tipo de resposta ou atitude, pois amar é sentir sem cobrar, sem querer nada em troca. Amar é simplesmente sentir.

E gostar também é amar, gostar muito é amar, sentir carinho é amar. É sentir vontade de abraço e de colo, mas não qualquer abraço, não qualquer colo. Amar é sentir um certo tipo de carência específica. Amar é vontade de emprestar o peito para deitares a tua cabeça. Amar é abrir a porta do carro para ti sem demagogia, amar é roubar uma flor e te dar, na impulsão do momento, sem me importar muito se gostas de flores ou não e sem ligar a mínima se o gesto parecer ridículo.

Amar é instável, pois amar é constante transformação. Amar é diferente hoje de amanhã. Por isso te amo a cada dia de uma forma, te amo até mesmo quando não amo, pois penso que essa seria apenas mais uma das inúmeras formas desse sentimento se manifestar. Não te amo hoje menos do que amanhã, tampouco amo mais, apenas amo diferente.

Te amo quando sinto tua falta e te amo até mesmo quando, por enquanto, não quero mais estar contigo. Te amo quando quero ficar em silêncio comigo mesmo e a tua presença não atrapalha o meu desatino.

Te amo quando estás longe e me sinto sozinho, mesmo estando junto aos meus melhores amigos. Te amo quando, em meio à conversa mais interessante, me desligo e me ponho a pensar no que tu estarias fazendo agora e como seria melhor se estivesses aqui participando disso que sequer consigo fazer parte direito. E não faço parte porque não estou aqui, e não estou aqui porque tu não estás aqui.

Também sei que te amo, quando estás comigo e sinto vontade de te abraçar além do teu corpo, de te abraçar além do que meus braços poderiam e de te beijar mais do que o tamanho da minha boca.

E sei, finalmente, que te amo, quando me ponho a escrever essas coisas, nessa forma silenciosa de gritar tudo o que sinto.

Pourquoi, Seigneur, les hirondelles



Pourquoi, Seigneur, les hirondelles


Pourquoi, Seigneur, les hirondelles,
Si bas, puis si haut volent-elles :
Qu'en savent-elles,
Qu'en sais-je? rien.

Et moi, pourquoi gai, puis morose,
Pourquoi mes vers, pourquoi ma prose,
Pourquoi sous mes doigts cette rose,
Qu'en sais-je? rien.


Fagus (1872-1933)
Du pont des arts, balcon de Paris



Por que, Senhor, as andorinhas


Por que, Senhor, as andorinhas
Tão baixo, depois tão alto voam:
Que sabem elas,
Que sei eu? nada.

E eu, por que alegre, depois sombrio,
Por que meus versos, por que minha prosa,
Por que cunham meus dedos essa rosa,
Que sei eu? nada.


Fagus (1872-1933)
Traduttore, Traditore: Olegario Schmitt

Acrósticos




Beijo doce
Alma clara
Lambo os lábios
Amo a bala!


Olegario Schmitt
 





 


Pus meu sonho
Inacessível
Preso a um fio.
Alto voava...


Olegario Schmitt


In: Caderno de Assessoria Pedagógica, vol 3, Paratodos- História. São Paulo: Scipione, 2004, p. 40.


Obrigadão, Frô! (mariafro.blogspot.com)

Quando



Série Little Planets - X. Salto do Toropi/RS


Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza ...
Tu mudaste a Natureza ...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.

Alberto Caeiro
In: O Pastor Amoroso

Pincel



As coisas não têm sentido,
porque único sentido que existe nas coisas
é o sentido que lhes atribuímos.

Assim sendo posso atribuir
qualquer sentido à qualquer coisa
que não fará diferença nenhuma.

Atribuo, por exemplo, o sentido
de candelabro a meus dedos.

E o céu é verde-claro nos dias de sol
e verde-musgo durante
as noites e dias de chuva.

E as armas são pirulitos
e as balas são borboletas
e o sangue é o caramelo da vida.

Sei que meus dedos continuam apagados
e que o céu ainda é dessa cor
que a gente pensa que é azul,
mas gosto de imaginá-los assim
porque o mundo é do jeito que eu vejo
ou do jeito que eu quero ver.

Dia Internacional do Beijo



Antonio Canova - Psyché ranimée par le baiser de l'Amour (1777)



No Escuro




no escuro
do teu ninho
te adivinho

num afago
sinto que apago
o que não vejo

num gesto
de desejo
— beijo



Olegario Schmitt

In: O Amor & Outras Coisas Que Coçam

Estrangeiro



Filigranas Pauliáceas - Díptico



estrangeiro nos gestos
e nos ecos da fala
— corações vazios.

estrangeiro em toda parte,
— exceto onde soa a voz
dos pensamentos,
sem sotaque ou nacionalidade.

apenas mais um estrangeiro
nessa terra de estrangeiros,
sobretudo de si mesmos.

mais um ninguém nessa terra
de ninguém que é de todos.

Tags, Metatags e Indexes de Sentimentos




Nós, bloggers, temos mais ou menos alguma intimidade com tags, essas palavras-chave que servem para identificar o conteúdo de determinado post — e por conseqüência categorizá-lo, colocando cada coisa em sua devida caixinha.

Acho interessante analisar como vamos atribuindo tags ao longo da vida, não somente para aquilo que escrevemos, mas também para tudo o que vivemos — utilizamos tags para separar "amigos" de "não-amigos", "chato" de "interessante", etc..

Dessa forma, também acabamos por indexar determinadas sensações e sentimentos, inclusive aqueles indizíveis, não exprimíveis com qualquer palavra em idioma humano.

Como, a citar alguns exemplos, se conseguiria nomear a sensação expressa pelo poema O Elefante do Drummond? A do 4º Motivo da Rosa de Cecília? As do Auto-Retrato, A Rua dos Cataventos, Poeminho do Contra de Quintana?

Há algumas semanas senti falta desse poema do Lau: como a maioria de vocês, tenho em mim uma sensação, de certa forma indefinida e intangível, indexada a ele.

Esse poema é a minha tag para algo que tem um quê de tranquilidade do cansaço da luta. Não aquele cansaço covarde, fraco, mas o sentimento de quem, finalmente, percebe que toda a luta é vã e é tolo tentar reter o curso de um rio com as próprias mãos — afinal, eles foram feitos unicamente para fluir.

De vez em quando eu preciso dele. É o meu índex para a sensação de quem vive à margem dessa luta insensata observando borboletas ou buscando desenhos nas nuvens, enquanto os outros, os "simples mortais" — essa é minha tag para pessoas que não tem nenhuma sensação indexada a esse poema — morrem afogados, uns agarrados nos pescoços dos outros.

Pois se me perguntassem nesse dia o que havia comigo, certamente teria respondido:

— É que hoje estou me sentindo "aos predadores da utopia"...

Dore Mi Fasol




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