Categoria: Poesia

O Jedi Cubista



Look, Mama, I went blue and cubist at the same time

Uma vez eu conheci um poeta que escrevia tudo de trás pra frente. Em vez de dizer "o céu é azul e bonito" ele dizia algo como "céu, bonito e azul, é". Aí você perdia horas montando o verso na seqüência correta só pra descobrir enfim que ele queria dizer apenas e simplesmente "o céu é azul e bonito".

Como sempre gostei muito do Mario Quintana e quando este queria dizer que o céu era bonito e azul simplesmente pegava e dizia, perguntei pro poeta esse qual era o sentido de escrever tudo de trás pra frente.

Ele não gostou — dissque ele era um douto que tinha estudado muitos anos pra aprender a escrever de trás pra frente e dissque isso era muito chique, sobretudo pra quem tinha estudado muitos anos.

Quintana e eu não havíamos estudado muitos anos, a gente não tinha vindo de escola nenhuma. Acabamos perdendo o amigo e mais uns outros que gostavam de coisas de trás pra frente assim como ele.

Ainda agora, tantos anos passados, essa história toda ainda me consome, porque até hoje ainda não sei se ele era um poeta cubista ou algum tipo de Mestre Yoda da metalinguística.

Nalú Nogueira III



o ipê
    Nalú Nogueira e Olegario Schmitt

Eu tenho um ipê tão alto
que uso seu caule-telégrafo
para conversar com os anjos
em pancadinhas em morse.

Nas folhas verdes-pulsantes
                em meu morsear poético e
                tantas vezes patético
peço urgências providências
para acalmar a dor que sinto.

Noutros dias vou subindo,
tardes indo me esconder no
ipê florido, lá do alto mar azuis
e céu lilases, outros, sangues
                e a minha tristeza exangüe
                e o meu cantar colorido.

Tardes indo, anjos vindo.
E o vento gordo ventando.
E as folhas do ipê balançando.
E a luz da vida sorrindo.



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Nalú Nogueira II



terminal
    Nalú Nogueira

quero rasgar a dor das coisas terminadas
não pousar os olhos sobre as fotografias
não torturar-me com a leitura das palavras
                doces — agora eternamente frias.

quero espicaçar minh'alma descaradamente inútil
com o velho picador de gelo prateado
furar também a carne sem servência
                refazer-me — em desvelo e prudência

e afogar em fogo alcoólico o terror
das noites em que foge o perdão
(vai bem distante)
em gelo tilintante sufocar soluços
de autopiedade
apelar para a santíssima trindade
em gritos hereges de embriaguez desvairada.

sair na calçada gritando:
                — alguém me possua!
e esperar que venha qualquer miserável
que me coma e me livre, enfim,
                de ser tua.


o piano
    Nalú Nogueira

Decifra-me.
Se me queres,
tenta-me.
Há portas que estão
apenas aparentemente
fechadas. Abre-as.
Uma delas dá acesso a
uma sala e dentro dela
há um piano. Entra.
E toca-me.
Se teus dedos produzirem
música, terás
me aprendido.



sobre as dores
    Nalú Nogueira

Falta-me o ar.
A noite desceu com
o peso de mil toneladas
sobre os meus ombros
esquálidos:

        — que posso eu contra
        o peso de mil sonhos destruídos?



Soneto para cantar a dor
    Nalú Nogueira

quero fazer os versos mais sentidos
para cantar ao mundo a dor que sinto
com minha voz de vidro estilhaçado
e o meu olhar de sombras revestido.

quero escrever os versos mais bonitos
dizer: ó noite, bruma aveludada!
ó querubins valsando em plena lua!
ó lumiar de estrelas do infinito!

mas vou dizer os versos mais doídos
jogar a dor que sinto em cada face
entrar em dor e alma em cada ouvido

e assim tocar, talvez, o mais descrente
e exorcizar, quem sabe, o que me mata
e crer, por fim, num deus que não me bata.

Nalú Nogueira I



Serendipidade é a aptidão, faculdade ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes ou úteis, ou de descobri-las por acaso. Em derivação por metonímia, é cada uma dessas coisas felizes ou úteis. (Houaiss)

Serendipidade I

Há diversos anos — ninguém sabe exatamente quantos, mas talvez seja uns 10 — Nalú Nogueira e eu nos encontramos em algum recanto virtual de poetas. Foi uma coisa esquisita: nos gostamos de pronto, para todo o sempre amém. Escrevíamos juntos, díade: cada um fazendo um verso como uma valsa. Por vezes terminávamos os escritos um do outro. Virávamos dias e noites em frenesis literários infindáveis.

Nunca nos vimos pessoalmente. Porém, ao contrário do que pode pensar os incautos — ou não iniciados —, os bits, bytes e Kbytes eram apenas o meio de materialização de algo deveras real.

Dicotomia: os tempos foram passando conforme abandonávamos lentamente esse único meio de convívio. Perdemos o contato, cada um foi para um canto, isso acontece com todo mundo.

Serendipidade II

Muitos anos depois, nos reencontramos no Twitter, através de uma amiga em comum. Foi meio por acaso, óbvio!

Estamos deveras diferentes, praticamente não escrevemos mais poesia. Mas ainda somos felizes — nem mais nem menos, apenas diferente.

Serendipidade III

Revirando minhas velhas caixas à procura de um manual, encontrei um impresso encadernado com a capa azul transparente. Claro, tinha de ser azul. Claro, tinha de ser transparente. Claro, tinha de ser uma vez mais através da serendipidade.

Na capa, em letras garrafais: Nalú Nogueira — trata-se de uma seleção de poemas dessa poetamiga a quem admiro tanto.

Fui atropelado por um jorro de emoções esquecidas e a saudade bateu. Como não poeto mais com tanta facilidade, resolvi fazer essa série de três artigos para Nalú Nogueira. Não cabia tudo num só, assim como às vezes aquilo que sentimos não cabe tudo num poema.

Não sei ao certo se é na tentativa de que algo não morra ou de que ressuscite, mas tenho certeza de que a Palavra deve se manter sempre viva dentro de nós.

Hã?!




A Coisa em Si Que Há Em Mim


a coisa em si
não cabia em mim
de tantas dúvidas

— pior que pensar
é sentir, dizia
ressentida.

deveria ver?

deveria vir
a ser devir?

nem númeno
nem fenômeno:

a coisa em si
que há em mim
é maiomeno.

Le Nihiliste Amoureux



Dans le Léman. Genève, 2009


Nous existons. Le reste, excessif, déline
l'essence imprégné par la forme du abîme,
car l'ombre des âmes qui aiment
est translucide: elle retient lumière
suffisante pour seulement nourir
le sentiment lui-même.

Dehors l'amour, l'unique sens
est l'absence du sens des choses.

La Nariz / O Nariz



da série Alguns de Meus Órgãos Sexuais



La Nariz

Rafael Alcides Perez

La nariz tiene condición de juez.
Al contrario del ojo izquierdo y del derecho, que han tomado partido,
la nariz, inescrutable, se mantiene en el centro
— con algo de espada o de martillo.
Imitándola, la boca.
Pero la boca es hipócrita:
sonríe a la izquierda y a la derecha.

In: Y se mueren y mueren y mueren. Venezuela, 1988




O Nariz

Rafael Alcides Perez

O nariz tem condição de juíz.
Ao contrário do olho esquerdo e do direito, que tomaram partido,
o nariz, inescrutável, se mantém ao centro
— com algo de espada ou de martelo.
Imitando-o, a boca.
Porém a boca é hipócrita:
sorri à esquerda e à direita.

Tradução: Olegario Schmitt

Eu, o Outro



Really a Self-Portrait



Aprendi a amar o Outro
dentro de mim.

Meu Mr. Hyde, meu irmãozinho
feio, meu monstrinho
de estimação.

Não mais censuro suas ações
repugnantes e rebeldes:
em vez disso, acolho-o
em meus braços cheios
de doçura maternal.

Digo-lhe mansamente
"meu pobre monstrinho,
por que tanta revolta?"

Ronroa sonolento
— não passa de um gatinho
assustado dormindo
no meio da sala.

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