Categoria: Homenagens

Nalú Nogueira III



o ipê
    Nalú Nogueira e Olegario Schmitt

Eu tenho um ipê tão alto
que uso seu caule-telégrafo
para conversar com os anjos
em pancadinhas em morse.

Nas folhas verdes-pulsantes
                em meu morsear poético e
                tantas vezes patético
peço urgências providências
para acalmar a dor que sinto.

Noutros dias vou subindo,
tardes indo me esconder no
ipê florido, lá do alto mar azuis
e céu lilases, outros, sangues
                e a minha tristeza exangüe
                e o meu cantar colorido.

Tardes indo, anjos vindo.
E o vento gordo ventando.
E as folhas do ipê balançando.
E a luz da vida sorrindo.



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Nalú Nogueira II



terminal
    Nalú Nogueira

quero rasgar a dor das coisas terminadas
não pousar os olhos sobre as fotografias
não torturar-me com a leitura das palavras
                doces — agora eternamente frias.

quero espicaçar minh'alma descaradamente inútil
com o velho picador de gelo prateado
furar também a carne sem servência
                refazer-me — em desvelo e prudência

e afogar em fogo alcoólico o terror
das noites em que foge o perdão
(vai bem distante)
em gelo tilintante sufocar soluços
de autopiedade
apelar para a santíssima trindade
em gritos hereges de embriaguez desvairada.

sair na calçada gritando:
                — alguém me possua!
e esperar que venha qualquer miserável
que me coma e me livre, enfim,
                de ser tua.


o piano
    Nalú Nogueira

Decifra-me.
Se me queres,
tenta-me.
Há portas que estão
apenas aparentemente
fechadas. Abre-as.
Uma delas dá acesso a
uma sala e dentro dela
há um piano. Entra.
E toca-me.
Se teus dedos produzirem
música, terás
me aprendido.



sobre as dores
    Nalú Nogueira

Falta-me o ar.
A noite desceu com
o peso de mil toneladas
sobre os meus ombros
esquálidos:

        — que posso eu contra
        o peso de mil sonhos destruídos?



Soneto para cantar a dor
    Nalú Nogueira

quero fazer os versos mais sentidos
para cantar ao mundo a dor que sinto
com minha voz de vidro estilhaçado
e o meu olhar de sombras revestido.

quero escrever os versos mais bonitos
dizer: ó noite, bruma aveludada!
ó querubins valsando em plena lua!
ó lumiar de estrelas do infinito!

mas vou dizer os versos mais doídos
jogar a dor que sinto em cada face
entrar em dor e alma em cada ouvido

e assim tocar, talvez, o mais descrente
e exorcizar, quem sabe, o que me mata
e crer, por fim, num deus que não me bata.

Nalú Nogueira I



Serendipidade é a aptidão, faculdade ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes ou úteis, ou de descobri-las por acaso. Em derivação por metonímia, é cada uma dessas coisas felizes ou úteis. (Houaiss)

Serendipidade I

Há diversos anos — ninguém sabe exatamente quantos, mas talvez seja uns 10 — Nalú Nogueira e eu nos encontramos em algum recanto virtual de poetas. Foi uma coisa esquisita: nos gostamos de pronto, para todo o sempre amém. Escrevíamos juntos, díade: cada um fazendo um verso como uma valsa. Por vezes terminávamos os escritos um do outro. Virávamos dias e noites em frenesis literários infindáveis.

Nunca nos vimos pessoalmente. Porém, ao contrário do que pode pensar os incautos — ou não iniciados —, os bits, bytes e Kbytes eram apenas o meio de materialização de algo deveras real.

Dicotomia: os tempos foram passando conforme abandonávamos lentamente esse único meio de convívio. Perdemos o contato, cada um foi para um canto, isso acontece com todo mundo.

Serendipidade II

Muitos anos depois, nos reencontramos no Twitter, através de uma amiga em comum. Foi meio por acaso, óbvio!

Estamos deveras diferentes, praticamente não escrevemos mais poesia. Mas ainda somos felizes — nem mais nem menos, apenas diferente.

Serendipidade III

Revirando minhas velhas caixas à procura de um manual, encontrei um impresso encadernado com a capa azul transparente. Claro, tinha de ser azul. Claro, tinha de ser transparente. Claro, tinha de ser uma vez mais através da serendipidade.

Na capa, em letras garrafais: Nalú Nogueira — trata-se de uma seleção de poemas dessa poetamiga a quem admiro tanto.

Fui atropelado por um jorro de emoções esquecidas e a saudade bateu. Como não poeto mais com tanta facilidade, resolvi fazer essa série de três artigos para Nalú Nogueira. Não cabia tudo num só, assim como às vezes aquilo que sentimos não cabe tudo num poema.

Não sei ao certo se é na tentativa de que algo não morra ou de que ressuscite, mas tenho certeza de que a Palavra deve se manter sempre viva dentro de nós.

Site Atualizado



O web-site principal OleSchmitt.com.br foi atualizado.

A navegação agora está bem mais simples e, além de diversas séries fotográficas inéditas, há novos filmes e animações.

Acesse www.oleschmitt.com.br</a> ou clique no botão "arte" na barra de navegação preta bem no topo dessa página.

Lá e Cá III



Retratos Portugueses - 50x75cm


16 imagens da série Retratos Portugueses foram selecionadas para a exposição coletiva Lá e Cá III, cujo tema esse ano é Identidades e, com curadoria de João Kulcsár, acontecerá no Instituto Camões - Embaixada de Portugal (Brasília/DF).

Essa coletiva, assim como nas demais edições, busca promover a integração Brasil/Portugal através da fotografia, contando com imagens produzidas por fotógrafos portugueses (lá) e brasileiros (cá).

Em datas a serem definidas, a exposição virá "cá" para São Paulo, depois irá para "lá", digo, Lisboa e Porto, Portugal.

Retratos Portugueses







Essa série não tem a intenção de definir o povo português — as definições definem apenas os definidores1 e qualquer percepção acerca de alguma coisa será apenas o ponto de vista daquele que observa, nada mais do que isso.

Já a experiência em si, no entanto, é fácil de definir. Vi como um danado. Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma. (...)Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras. Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento. Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais2.

Em resumo, é sincera homenagem de um falante da língua de Gonçalves Dias àqueles da língua de Camões.





1 QUINTANA, Mário. Caderno H. São Paulo: Editora Globo, 2006.
2 CAEIRO, Alberto. Poemas Inconjuntos. Lisboa: Instituto Camões.

Tags, Metatags e Indexes de Sentimentos




Nós, bloggers, temos mais ou menos alguma intimidade com tags, essas palavras-chave que servem para identificar o conteúdo de determinado post — e por conseqüência categorizá-lo, colocando cada coisa em sua devida caixinha.

Acho interessante analisar como vamos atribuindo tags ao longo da vida, não somente para aquilo que escrevemos, mas também para tudo o que vivemos — utilizamos tags para separar "amigos" de "não-amigos", "chato" de "interessante", etc..

Dessa forma, também acabamos por indexar determinadas sensações e sentimentos, inclusive aqueles indizíveis, não exprimíveis com qualquer palavra em idioma humano.

Como, a citar alguns exemplos, se conseguiria nomear a sensação expressa pelo poema O Elefante do Drummond? A do 4º Motivo da Rosa de Cecília? As do Auto-Retrato, A Rua dos Cataventos, Poeminho do Contra de Quintana?

Há algumas semanas senti falta desse poema do Lau: como a maioria de vocês, tenho em mim uma sensação, de certa forma indefinida e intangível, indexada a ele.

Esse poema é a minha tag para algo que tem um quê de tranquilidade do cansaço da luta. Não aquele cansaço covarde, fraco, mas o sentimento de quem, finalmente, percebe que toda a luta é vã e é tolo tentar reter o curso de um rio com as próprias mãos — afinal, eles foram feitos unicamente para fluir.

De vez em quando eu preciso dele. É o meu índex para a sensação de quem vive à margem dessa luta insensata observando borboletas ou buscando desenhos nas nuvens, enquanto os outros, os "simples mortais" — essa é minha tag para pessoas que não tem nenhuma sensação indexada a esse poema — morrem afogados, uns agarrados nos pescoços dos outros.

Pois se me perguntassem nesse dia o que havia comigo, certamente teria respondido:

— É que hoje estou me sentindo "aos predadores da utopia"...

Bob Dylan




Do que você precisa?



Lendo um artigo sobre as relações entre ser e discurso em Parmênides e Platão, decidi que é melhor deixar essa briga para os peixes grandes, principalmente porque tenho a tendência de concordar com Parmênides e quem sou eu para discordar de Platão?

No entanto, tal leitura levantou uma questão: do que realmente precisamos para “ser”?

Tomemos, sem ironias, a seguinte afirmação verdadeira:

Elisete é mulher bonita e inteligente.

Se Elisete não fosse inteligente, continuaria existindo? Sem dúvida! E se não fosse bonita? Idem. Seria burra e feia como uma porta, mas continuaria existindo. Da mesma forma continuaria sendo se homem, gato ou árvore.

Tirando de Elisete tudo aquilo que é acessório, que é predicado do seu ser, sobraria apenas a seguinte afirmação:

Elisete é.

Porém, e se ela tivesse sido parida na selva, imediatamente abandonada por sua mãe e criada por lobas? Não mais seria sequer Elisete, porque não seria chamada de coisa nenhuma.

E, por isso, deixaria de ser?

Jamais!

É. Esse ser “é”, mais nada. Essa é sua essência. A partir do momento em que for dito “Elisete é”, além de “ser” ela passa a “ser Elisete”, sendo agora duas coisas e não mais uma — ela pode inclusive ser dividida ao meio, pois perdeu a sua unidade.

E esse é o drama: Platão discorda de Parmênides quando diz que não é possível “ser” sem discurso (“Elisete é”), Parmênides diz que ao discursar sobre o ser, ele passa a ser outra coisa.

Agora que se sabe que, de uma forma ou de outra, Elisete é — deixemos de lado esses dois, que briguem entre si na eternidade! —, ainda resta a pergunta: o que Elisete precisa para ser feliz?

Para ser feliz, primeiro é necessário que Elisete “seja”. Nota-se que já temos aí meio caminho andado.

No entanto, “ser” e “existir” não são lá grandes coisas, porque tudo existe, até mesmo o nada*. Até mesmo as pedras “são”, apesar de que, pelo que se sabe, não são felizes nem tristes: para ser feliz é preciso ser bem mais do que uma rocha.

“Penso, logo existo”, disse Descartes. Até hoje nunca encontrei pedra com cérebro mas, afinal, quem sou eu para negar Descartes? A questão é que mesmo assim, alheias a tudo, anencéfalas e mais estúpidas do que nunca, as pedras existem, e moro dentro de uma grande pilha delas.

Para ser feliz, em segundo lugar, pressupõe-se necessário ser vivo e ter um cérebro que pense, isso não seria mal. Elisete pensa, logo é venturosa.

Como sabemos, bastam alimento e água para que algo ou alguém seja vivo. Para ser feliz além de estar vivo e ter um cérebro, tudo o mais será acessório, meros enfeites do ser.

Finalmente, do que Elisete precisa para ser feliz? Apenas de si mesma.





* Todo esse discurso é parte de uma busca em provar que o Nada existe. E mais: não apenas existe como tem utilidade prática. Não obstante, ainda irei além: qualquer dia desses, quando eu finalmente encontrar o Nada, farei uma foto dele e mostrarei para todo mundo. Para quem duvida, só digo que não tenho Nada a perder...

A mãe do cativo


Castro Alves


I

Ó mãe do cativo! que alegre balanças
A rede que ataste nos galhos da selva!
Melhor tu farias se à pobre criança
Cavasses a cova por baixo da relva.

Ó mãe do cativo! que fias à noite
As roupas do filho na choça da palha!
Melhor tu farias se ao pobre pequeno
Tecesses o pano da branca mortalha.

Misérrima! E ensinas ao triste menino
Que existem virtudes e crimes no mundo
E ensinas ao filho que seja brioso,
Que evite dos vícios o abismo profundo ...

E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,
O raio da espr'ança... Cruel ironia!
E ao pássaro mandas voar no infinito,
Enquanto que o prende cadeia sombria! ...




II

Ó Mãe! não despertes est'alma que dorme,
Com o verbo sublime do Mártir da Cruz!
O pobre que rola no abismo sem termo
Pra qu'há de sondá-lo... Que morra sem luz.

Não vês no futuro seu negro fadário,
Ó cega divina que cegas de amor?!
Ensina a teu filho - desonra, misérias,
A vida nos crimes - a morte na dor.

Que seja covarde... que marche encurvado...
Que de homem se torne sombrio reptíl.
Nem core de pejo, nem trema de raiva
Se a face lhe cortam com o látego vil.

Arranca-o do leito... seu corpo habitue-se
Ao frio das noites, aos raios do sol.
Na vida - só cabe-lhe a tanga rasgada!
Na morte - só cabe-lhe o roto lençol.

Ensina-o que morda... mas pérfido oculte-se
Bem como a serpente por baixo da chã
Que impávido veja seus pais desonrados,
Que veja sorrindo mancharem-lhe a irmã.

Ensina-lhe as dores de um fero trabalho...
Trabalho que pagam com pútrido pão.
Depois que os amigos açoite no tronco...
Depois que adormeça co'o sono de um cão.

Criança - não trema dos transes de um mártir!
Mancebo - não sonhe delírios de amor!
Marido - que a esposa conduza sorrindo
Ao leito devasso do próprio senhor! ...

São estes os cantos que deves na terra
Ao mísero escravo somente ensinar.
Ó Mãe que balanças a rede selvagem
Que ataste nos troncos do vasto palmar.




III

Ó Mãe do cativo, que fias à noite
À luz da candeia na choça de palha!
Embala teu filho com essas cantigas...
Ou tece-lhe o pano da branca mortalha.





Em homenagem a Antônio Frederico de Castro Alves, poeta maior brasileiro nascido a 14 de março de 1847 e vivo para sempre, pelo Dia Nacional da Poesia.

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