Categoria: Arte

Fotografia digital não é fotografia


Elementar: foto-grafia, escrita da luz.

Aqueles que “batem” fotos utilizam muito a expressão fotografia analógica... As pessoas inventam cada coisa, não é?! Primeiro, não entendo o porquê de tanto ódio, dessa necessidade de ficar batendo na foto como se ela tivesse feito alguma coisa de ruim. Segundo... o que exatamente quer dizer “analógico”?

Analógico vem de analogia, ou seja, é algo que apresenta relação ou semelhança entre coisas ou fatos. Considerar uma fotografia como sendo analógica, portanto, é retroceder ao pensamento positivista disseminado no século XIX que considerava a fotografia como “cópia exata, reprodução fiel da realidade”. Ou seja, quem diz “fotografia analógica” está dizendo de maneira implícita que a fotografia é algo meramente científico, jamais sendo fruto de criação e/ou interpretação por parte do agente por trás da câmera.

Dessa forma, dizer “fotografia analógica” é o mesmo que chamar o fotógrafo de macaco, ou seja, de mero apertador de botões. Não que estes não existam, mas na parte que me toca, acredito (ou prefiro acreditar) que faço bastante proveito dos 3% de carga genética que me diferenciam de um chimpanzé. Portanto, se você diz “fotografia analógica” saiba que o macaco, na verdade, é você.

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Nalú Nogueira I



Serendipidade é a aptidão, faculdade ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes ou úteis, ou de descobri-las por acaso. Em derivação por metonímia, é cada uma dessas coisas felizes ou úteis. (Houaiss)

Serendipidade I

Há diversos anos — ninguém sabe exatamente quantos, mas talvez seja uns 10 — Nalú Nogueira e eu nos encontramos em algum recanto virtual de poetas. Foi uma coisa esquisita: nos gostamos de pronto, para todo o sempre amém. Escrevíamos juntos, díade: cada um fazendo um verso como uma valsa. Por vezes terminávamos os escritos um do outro. Virávamos dias e noites em frenesis literários infindáveis.

Nunca nos vimos pessoalmente. Porém, ao contrário do que pode pensar os incautos — ou não iniciados —, os bits, bytes e Kbytes eram apenas o meio de materialização de algo deveras real.

Dicotomia: os tempos foram passando conforme abandonávamos lentamente esse único meio de convívio. Perdemos o contato, cada um foi para um canto, isso acontece com todo mundo.

Serendipidade II

Muitos anos depois, nos reencontramos no Twitter, através de uma amiga em comum. Foi meio por acaso, óbvio!

Estamos deveras diferentes, praticamente não escrevemos mais poesia. Mas ainda somos felizes — nem mais nem menos, apenas diferente.

Serendipidade III

Revirando minhas velhas caixas à procura de um manual, encontrei um impresso encadernado com a capa azul transparente. Claro, tinha de ser azul. Claro, tinha de ser transparente. Claro, tinha de ser uma vez mais através da serendipidade.

Na capa, em letras garrafais: Nalú Nogueira — trata-se de uma seleção de poemas dessa poetamiga a quem admiro tanto.

Fui atropelado por um jorro de emoções esquecidas e a saudade bateu. Como não poeto mais com tanta facilidade, resolvi fazer essa série de três artigos para Nalú Nogueira. Não cabia tudo num só, assim como às vezes aquilo que sentimos não cabe tudo num poema.

Não sei ao certo se é na tentativa de que algo não morra ou de que ressuscite, mas tenho certeza de que a Palavra deve se manter sempre viva dentro de nós.

Site Atualizado



O web-site principal OleSchmitt.com.br foi atualizado.

A navegação agora está bem mais simples e, além de diversas séries fotográficas inéditas, há novos filmes e animações.

Acesse www.oleschmitt.com.br</a> ou clique no botão "arte" na barra de navegação preta bem no topo dessa página.

Lá e Cá III



Retratos Portugueses - 50x75cm


16 imagens da série Retratos Portugueses foram selecionadas para a exposição coletiva Lá e Cá III, cujo tema esse ano é Identidades e, com curadoria de João Kulcsár, acontecerá no Instituto Camões - Embaixada de Portugal (Brasília/DF).

Essa coletiva, assim como nas demais edições, busca promover a integração Brasil/Portugal através da fotografia, contando com imagens produzidas por fotógrafos portugueses (lá) e brasileiros (cá).

Em datas a serem definidas, a exposição virá "cá" para São Paulo, depois irá para "lá", digo, Lisboa e Porto, Portugal.

Esticadas



Cher


Ultimamente as pessoas têm andado mais esticadas: cirurgia plástica, botox, lipoescultura... é um tal de corta, estica e costura sem fim.

Tenho uma velha tia que já foi tão esticada, mas tão esticada, que quando você acha que ela está sorrindo está na verdade com cãibra no dedão do pé. E quando ela diz “jóia” com o dedão da mão direita o dedo do meio da mão esquerda faz um gesto obsceno. É por isso que ela só faz “jóia” com a mão esquerda no bolso e a ponta do pé esticada.

Se todas as suas operações para levantamento dos seios tivessem sido feitas de uma única vez, chegaríamos à alarmante conclusão de que eles acabariam parando nas omoplatas. A sorte da senhora — de tetas perfeitas — é ter idade suficiente para ter distribuído todas essas cirurgias ao longo dos anos.

E quando você observa o quadril escultural e a barriguinha perfeita, até esquece que ela mandou retirar quatro costelas dali. É nesse ponto que a expressão “corpo escultural” acaba sinistramente adquirindo outro sentido e pergunta-se: até que ponto?

É claro que isso tudo custa muito dinheiro, mas o constante crescimento do mercado da escultura humana, ou body sculpturing, tem aumentado a concorrência, o que deixa a realização do sonho de um corpo perfeito cada dia mais ao alcance de todos.

A clínica Shrinking & Stretching, de Oxford, nos Estados Unidos, oferece planos de consórcio pelos quais, se você encomenda um nariz Leonardo di Caprio, por exemplo, leva de brinde a barriguinha “Vin Diesel” ou o bumbunzinho “Brad Pitt”.

Para transexuais, na seção Barbie Girl do catálogo da clínica, há desde a legítima Barbie, até modelos como Britney Spears e Cristina Aguillera, de longe as preferidas do público purpurinado. Já outra seção apresenta exotismos, indo de Roberta Close a Rita Cadillac, nas versões cut e uncut (com ou sem cortes).

Nesses planos de consórcio você oferece como garantia a hipoteca do seu próprio corpo, o que não é mais nenhuma novidade nessa época em que praticamente se pode hipotecar qualquer coisa. Isso dá à seguradora no caso do não pagamento das prestações, dentre outros direitos, o de remoção e substituição do produto.

Houve o caso de uma senhora de Atlanta que teve que devolver o seu bumbum Madonna Super XL novinho e aceitar como substituição o modelo Marlon Brando 2000. Mesmo sendo um Marlon legítimo, a cliente tentou apelar na justiça dizendo que o produto era de segunda mão e estava muito usado, mas não obteve sucesso. Ela também entrou com ação por danos morais depois da divulgação do caso em rede nacional, já que após esse fato ela passou a ficar conhecida como Mrs. Buttlanta ou, em português, Srª “Bundatlanta”.

Situações como essa nos mostram que, apesar da crescente popularização da cirurgia plástica, o body sculpturing como método para alcançar o corpo perfeito mostra-se faca de dois gumes... o que no final não faz muita diferença mesmo, desde que a faca corte no lugar certo. E para quem ainda se pergunta até onde chegaremos, digo que será no máximo ao ponto de sutura. Isso ou o seu bumbum todinho de volta.

A Minha História com Lady Spirro



Meus olhos cintilantes cor-de-telha estão vidrados no monitor, ao mesmo tempo em que os meus dedos destripam furiosamente o teclado.

São 22 horas e o sol azul se põe no horizonte vertical da Net-Heart, enquanto Lady Spirro engole mais uma de minhas orelhas.

Preciso fazer com que ela pare com isso, já é a terceira orelha minha que ela come só nessa semana e eu acho que ela está ficando viciada. Estou preocupado.

Lady Spirro é uma coisa estranha. Há alguns anos atrás eu me arriscaria a chamá-la de mulher, mas hoje eu não sei mais de nada. Ainda mais com essa gosma verde que escorre incessantemente dos seus lábios.

Tudo começou com o grande maremoto de algas químicas. Todos sabem do maremoto, seria redundância contar toda aquela história nauseante novamente... Pois bem, Lady Spirro, assim que ficou sabendo do maremoto que se aproximava, pegou a sua prancha de Net-Surf e correu para a praia. Quando conseguiu ultrapassar a vasta barreira mortal de carcaças de peixes mortos, a enorme onda cor-de-rosa já se avistava no horizonte.

Lady Spirro é maluca! Lançou-se à essa gelatina que antigamente chamávamos Mar, e surfou radicalmente naquela onda imensa.

Ela nunca mais foi a mesma. Sua pele que antes era sedosa e macia, devido aos ácidos sulfurocarbonatados especiais que usava, ficou estranhamente verde e fosfórea. Dos seus olhos ficou, durante meses, escorrendo um líquido preto e viscoso de um mau cheiro horripilante.

Lady Spirro acabou com o meu estoque de lencinhos de papel limpando aquela gosmeira toda, sem falar nessa estranha mania que ela desenvolveu após o ocorrido, que é a de comer orelhas. Quando ela comia as orelhas apenas dos cachorros e dos gatos dos vizinhos eu não me preocupava, mas com o tempo ela passou a comer as orelhas dos vizinhos também.

Estranhamente todos eles desapareceram sem deixar vestígios. Desconfio que Lady Spirro os tenha comido. A minha sorte é que eu apliquei-me aquela injeção para surdos crônicos, que faz crescer orelhas por todo o corpo. Se eu não tivesse um número suficiente de orelhas sobressalentes, não sei o que seria de mim.

Lady Spirro é um perigo!

Das formas de amar (e de expressar esse sentimento)



Olegario Schmitt - A Cor do Som de Uma Onda - Acrílica sobre vidro


Meu amor, amar é mais simples do que se poderia supor, sabias? Amar é mais fácil do que a gente imagina e há muitas maneiras, muitas intensidades de se sentir essa coisa.

Eu, por exemplo, quando digo "eu te amo" não quero com isso dizer que tu és o grande amor da minha vida, tampouco é uma promessa de que o que sinto será eterno.

Por isso, quando digo "eu te amo" não sintas medo e não entres em pânico de forma alguma, pois não imponho a esse sentimento qualquer tipo de responsabilidade recíproca. Não espero por esse sentimento qualquer tipo de resposta ou atitude, pois amar é sentir sem cobrar, sem querer nada em troca. Amar é simplesmente sentir.

E gostar também é amar, gostar muito é amar, sentir carinho é amar. É sentir vontade de abraço e de colo, mas não qualquer abraço, não qualquer colo. Amar é sentir um certo tipo de carência específica. Amar é vontade de emprestar o peito para deitares a tua cabeça. Amar é abrir a porta do carro para ti sem demagogia, amar é roubar uma flor e te dar, na impulsão do momento, sem me importar muito se gostas de flores ou não e sem ligar a mínima se o gesto parecer ridículo.

Amar é instável, pois amar é constante transformação. Amar é diferente hoje de amanhã. Por isso te amo a cada dia de uma forma, te amo até mesmo quando não amo, pois penso que essa seria apenas mais uma das inúmeras formas desse sentimento se manifestar. Não te amo hoje menos do que amanhã, tampouco amo mais, apenas amo diferente.

Te amo quando sinto tua falta e te amo até mesmo quando, por enquanto, não quero mais estar contigo. Te amo quando quero ficar em silêncio comigo mesmo e a tua presença não atrapalha o meu desatino.

Te amo quando estás longe e me sinto sozinho, mesmo estando junto aos meus melhores amigos. Te amo quando, em meio à conversa mais interessante, me desligo e me ponho a pensar no que tu estarias fazendo agora e como seria melhor se estivesses aqui participando disso que sequer consigo fazer parte direito. E não faço parte porque não estou aqui, e não estou aqui porque tu não estás aqui.

Também sei que te amo, quando estás comigo e sinto vontade de te abraçar além do teu corpo, de te abraçar além do que meus braços poderiam e de te beijar mais do que o tamanho da minha boca.

E sei, finalmente, que te amo, quando me ponho a escrever essas coisas, nessa forma silenciosa de gritar tudo o que sinto.

Ssss...




Ritmo II






RITMO (Instalação de Vídeo)

Viver é repetição
Pulsar rítmico
Do coração.

reproduzir em looping, ad infinitum




RITM (Video Installation)

Life is repetition
Heart's ritmic beating.

play in looping, ad infinitum

Pourquoi, Seigneur, les hirondelles



Pourquoi, Seigneur, les hirondelles


Pourquoi, Seigneur, les hirondelles,
Si bas, puis si haut volent-elles :
Qu'en savent-elles,
Qu'en sais-je? rien.

Et moi, pourquoi gai, puis morose,
Pourquoi mes vers, pourquoi ma prose,
Pourquoi sous mes doigts cette rose,
Qu'en sais-je? rien.


Fagus (1872-1933)
Du pont des arts, balcon de Paris



Por que, Senhor, as andorinhas


Por que, Senhor, as andorinhas
Tão baixo, depois tão alto voam:
Que sabem elas,
Que sei eu? nada.

E eu, por que alegre, depois sombrio,
Por que meus versos, por que minha prosa,
Por que cunham meus dedos essa rosa,
Que sei eu? nada.


Fagus (1872-1933)
Traduttore, Traditore: Olegario Schmitt

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