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Do escritor como assassino

Escrever é uma forma de crime e, por isso, todo escritor cultiva dentro de si características peculiares a um serial-killer. Como este, consegue ignorar solenemente aquela vozinha do ego que diz “você não deveria fazer escrever isso, vão acabar pensando que você está falando é de você mesmo”. O assassino em série, como o escritor, na verdade sabe muito bem diferenciar o certo do errado, mas simplesmente não se importa. “É como se uma força, mais forte do que eu, me impelisse a matar escrever”. “Quando voltei a mim, já havia cometido o crime conto”.
Todo escritor é um sórdido. Nas cenas finais de Hamlet, os personagens invariavelmente matando-se uns aos outros, Shakespeare nada faz para impedi-los. Ele poderia transformar, subitamente, as espadas em lenços de seda e os venenos em purgantes, evitando assim o trágico desfecho. Mas Shakespeare não faz nada. E se não faz nada é porque na verdade ele gosta.
Suíte para Solo de Violoncelo

Mesmo o sol tendo acabado de se por, a temperatura ainda deve estar em torno de 35 graus. O ventilador de teto, de modelo antiquado e pás muito largas, gira vagarosamente sobre sua cabeça, mal e mal insinuando uma leve brisa. A noite vai caindo enquanto as luzes matizadas da rua vão tingindo lentamente a sala. Ele arrasta-se sem ânimo até o toca-discos e põe para tocar sua inseparável Suíte para Solo de Violoncelo.
A música preenche o ambiente com os timbres angustiantes daquele instrumento, cujo som ele acredita se assemelhar ao choro inconsolável que brota do fundo da garganta de uma viúva. É completamente tomado por um estado de torpor, parte causado pela própria temperatura, parte pelo mal de vivre que lhe acompanha desde sempre, monstrinho de estimação esse ao qual alimenta incessantemente com novos desestímulos, seja calor, música, ou pensamentos obscuros.
A terra tremeu, as máscaras caíram
Não esqueçamos que o fato se deu nesse mesmo nosso continente onde a falta de memória parece ser um mal generalizado e onde cenas que deveriam ser unicamente trágicas frequentemente se transformam em cenas tragicômicas. Nós aprendemos a rir de nossas próprias tragédias. Aliás, aprendemos tão bem que agora não levamos quase nada a sério.
Como sabemos, é nos momentos de fraqueza que todos mostram quem verdadeiramente são. A terra tremeu, as máscaras caíram e, obviamente, acabou por revelar-se uma das cenas mais pândegas do ano.

Leo La Valle/EFE

Rafael - A Bênção de Cristo (c. 1506)

Martin Bernetti/AFP

Heavy Metal Satan Fingers

Ivan Alvarado/Reuters

Delacroix - La Liberté guidant le peuple (1830)
Ressalte-se que nesse momento o Príncipe de Espanha, Felipe (que não é O Belo), quedava-se soberanamente pálido no espaldar da porta entre o banquete da posse e o salão principal do evento.
Alan García (Peru), também não poderia nos deixar sem o Momento Lula do dia, presenteando-nos com essa linda pérola latrino-americana: "Deu para dançar um pouco com esse balançar".
Algumas coisas podem ser apreendidas dessas imagens:
1. Os todo-poderosos da América Latrina (e Espanha) na hora do aperto também sentem medo. São meros seres humanos, como você e eu. E, assim como nós, também serão comidos pelos vermes e não levarão nada consigo. A moça loira à direita na terceira foto, por exemplo, parece desconhecer que sua bolsa de grife não passará com ela para o além-túmulo.
2. Os governantes latrino-americanos transparecem sua covardia e falta de postura pública adequada de maneira muito clara nos momentos de crise. Quem dera fosse apenas durante os terremotos.
3. Quando os simpatizantes de Pinochet retornam ao poder a Terra mostra seu desagrado.



