Nalú Nogueira III


Casca
    Olegario Schmitt
    para Nalú Nogueira

A vida deixou-a cansada.
Arriscou esperança. Não deu.
Tentou ilusão. Falhou.
Tentou golpes altos. Colheu desencanto.
A vida ensinou-a a ser dura
e deu-lhe uma casca.
Era o que se via através da face inexpressiva
e dos olhos parados olhando para o nada.

Mas por dentro era um vulcão,
por dentro rio caudaloso pedindo vazão.
E o pensamento voava através dessa casca,
não se sabia ao certo pra onde.
Tentou desespero, derrotando a felicidade.
Permitiu a vasta tristeza.
Colheu o que plantou.
Ela, que tanto gritou, que tanto lutou,
diante da derrota temporária decidiu ceder.
Os olhos penderam, o riso calou, o peito doeu, perdeu-se.

Parou.

Tentou poesia. As letras choravam.
Tentou alegria. Não deu.
Tentou soerguer-se. Falhou.
Tentou realidade. Os pensamentos sempre em outra estação.

Viu seus sonhos quebrarem como frágeis cristais,
desencontrou-se da vida como uma criança sozinha.

Mas ela era forte. A vida ensinou-a a ser dura
e deu-lhe uma casca.
E ela compreendia que a inquietação do dia
serve apenas para que a noite seja mais calma.
E ela conhecia o poder da esperança,
e tinha conhecimentos profundos das histórias
do céu e das nuvens.
E ela haveria de descobrir, mais cedo ou mais tarde,
quanta força tem um sonho.

        Esse poema, juntamente com o poema Jaen, de Nalú Nogueira (não encontrado),
        serviu de inspiração para a série fotográfica Casca

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