Nalú Nogueira II

terminal
Nalú Nogueira
quero rasgar a dor das coisas terminadas
não pousar os olhos sobre as fotografias
não torturar-me com a leitura das palavras
doces — agora eternamente frias.
quero espicaçar minh'alma descaradamente inútil
com o velho picador de gelo prateado
furar também a carne sem servência
refazer-me — em desvelo e prudência
e afogar em fogo alcoólico o terror
das noites em que foge o perdão
(vai bem distante)
em gelo tilintante sufocar soluços
de autopiedade
apelar para a santíssima trindade
em gritos hereges de embriaguez desvairada.
sair na calçada gritando:
— alguém me possua!
e esperar que venha qualquer miserável
que me coma e me livre, enfim,
de ser tua.
o piano
Nalú Nogueira
Decifra-me.
Se me queres,
tenta-me.
Há portas que estão
apenas aparentemente
fechadas. Abre-as.
Uma delas dá acesso a
uma sala e dentro dela
há um piano. Entra.
E toca-me.
Se teus dedos produzirem
música, terás
me aprendido.
sobre as dores
Nalú Nogueira
Falta-me o ar.
A noite desceu com
o peso de mil toneladas
sobre os meus ombros
esquálidos:— que posso eu contra
o peso de mil sonhos destruídos?
Soneto para cantar a dor
Nalú Nogueira
quero fazer os versos mais sentidos
para cantar ao mundo a dor que sinto
com minha voz de vidro estilhaçado
e o meu olhar de sombras revestido.quero escrever os versos mais bonitos
dizer: ó noite, bruma aveludada!
ó querubins valsando em plena lua!
ó lumiar de estrelas do infinito!mas vou dizer os versos mais doídos
jogar a dor que sinto em cada face
entrar em dor e alma em cada ouvidoe assim tocar, talvez, o mais descrente
e exorcizar, quem sabe, o que me mata
e crer, por fim, num deus que não me bata.



