Exposição de Vik Muniz



Ode ao Lixo



Exposição: Vik Muniz
Curadoria: Vik Muniz
Data: 19/05/2009
Local: MASP – São Paulo



São 131 obras ao todo, integrantes de 24 trabalhos diferentes: Linha, Equivalentes, Indivíduos, Arame, Açúcar, Terra, Tinta, Montinhos, Diamantes e Caviar, Mônadas, Rebus, Revistas, Pigmentos, Chocolate, Mapa Mundi, Quebra-Cabeças, Papéis, Poeira, Lixo, Sucata, Duas Bandeiras, Cores, Earth Works e Cárcere, além de uma imagem completamente solta (Caminhante sobre um mar de cinzas). Alguns trabalhos fazem parte de séries maiores, outros são dípticos ou trípticos.

Sendo improfícuo discorrer sobre cada uma das séries individualmente, serão pontuados alguns “pontos altos” da exposição como, por exemplo, o fato de a segunda série mostrada, Equivalentes, dialogar com a terceira, Indivíduos. Numa, bichinhos feitos com algodão, clara referência ao passatempo “infantil” de descobrir animais nas nuvens; noutra, nuvens desenhadas num céu limpo com o auxílio de aviões de fumaça. Nota-se aí, além da fina ironia que permeia todo o trabalho, essa tendência de apropriação do lúdico comum às pessoas, para então transfigurá-lo.

Uma das séries que mais chama atenção, obviamente, é Açúcar: retratos de meninos negros são construídos com açúcar sobre papel preto. O doce acaba por formar como que uma não-imagem, áreas de altas luzes delineando a forma negra dos rostos de papel.

Diamantes e Caviar parece ser uma referência aos jogos sociais de poder: mulheres com imagem influente, reconhecidas mundialmente, são construídas com diamantes, homens são construídos com caviar. Ambos os materiais são exclusivistas, restritos apenas àquilo que se considera a “nata” da sociedade. Parece-me que nem sempre as pessoas percebem a ironia existente no raro sendo representado pelo raro, no expensivo pelo expensivo.

Mapa Mundi, por sua vez, é um tríptico formando um mapa mundial contruído com descarte eletrônico (carcaças de computador, teclados, monitores), mostrando que aquilo que nos conecta também entope o planeta de lixo.

Não consigo, pessoalmente, acreditar que VM se identifique intimamente com muitas das causas sociais que aborda. Se por um lado ele parece ser oportunista, por outro, talvez simplesmente se aproprie de temas que estejam em voga na sociedade contemporânea, utilizando-os como massa de modelagem para sua manifestação artística. Havendo grande possibilidade de erro em qualquer uma das alternativas, é mais sensato que não se afirme nada.

Há, no entanto, alguma coisa nisso tudo que “não bate”, sensação essa baseada muito mais na impressão de que há algo sub-reptício e subliminar no ser do artista do que em alguma certeza biográfica. Esse sentimento me faz acreditar piamente ser errôneo pensar que VM se preocupa com o lixo eletrônico ou com os catadores de lixo do Rio de Janeiro — estes últimos fazendo parte de um projeto de inclusão social e participando ativamente na construção da obra.

Talvez a resposta seja bastante simples: para construir a série Lixo era necessário um grande número de pessoas recolhendo e selecionando material, além de mão de obra a baixo custo. “Inclusão social” sempre é um tema que ajuda nas vendas, atraindo a atenção da imprensa e dos pseudo-caridosos que se “condoem” hipocritamente da situação dos catadores de lixo do Rio de Janeiro.

Se por um lado podemos pensar que Narciso se afogando num lago de lixo é uma crítica à sociedade consumista e narcisista se consumindo em si mesma, por outro lado, sendo o ponto de partida do artista sempre o próprio artista, sempre o seu Self, por que então, consciente ou inconscientemente, Vik Muniz teria escolhido Narciso dentre inúmeras outras obras de arte?

Isso tudo, no entanto, é especulação — tenho consciência de que, ao afirmar tais coisas, corro o risco de “queimar eternamente no fogo do inferno” mantido constantemente aceso pelos pseudo-intelectuais que fazem a cultura no nosso planeta.

Em Earth Works, VM coloca os pés no chão, ou mais especificamente, mergulha de cabeça na land art: com o auxílio de máquinas aplainadoras e retro-escavadeiras, constrói figuras imensas na terra, as quais só podem ser vistas de avião ou helicóptero. Ao contrário dos desenhos existentes no deserto do Atacama — aranha, macaco, beija-flor, etc. — que lhe serviram de inspiração, VM representa aqui formas urbanas e contemporâneas: chaves, meias, óculos. Mais uma vez se faz notar a sua ironia, uma linha tênue separando-a do mero deboche. É interessante observar que, mesmo com toda a tecnologia utilizada na construção dessas obras, em termos estéticos o artista fica bastante aquém daquelas do Atacama: as imagens não são muito elaboradas, exceto pelo tamanho. Foi intencional?

A mostra é concluída por uma imagem sozinha, Caminhante sobre um mar de cinzas, feita com cinzas e bitucas de cigarro — o fim do cigarro, o abandonado, o jogado fora. Essa obra dispersa das demais parece uma tentativa de narrativa circular, ela nela mesma.

Quatro vídeo-documentários em time-lapse rodam em looping no andar inferior, mostrando o processo de construção de algumas obras. As pessoas embasbacadas em frente a essas telas, por sua vez, pareciam elas mesmas uma obra de arte, verdadeiros tableau-vivants da contemporaneidade hipnotizada.

No final, ficou a impressão de que Vik Muniz é sobremaneira um artista da escória, ou seja, de tudo aquilo que é considerado sem valor pela sociedade contemporânea: poeira, cinzas, revistas velhas, lixo, brinquedos produzidos em massa. VM encontra sua arte em lugares improváveis. É quase um esbanjar talento, como quem diz, arrogantemente, “eu faço arte com tudo”. É irônico, icônico e, à sua maneira, pop.

Sua busca constante, obsessiva e infatigável pela arte em tudo me lembrou muito a busca de Mario Quintana por sua poesia: “Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí... Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!”

1 comentário


Carolina, 15
Muito boa a esposição de Vuk Muniz. Visita técnica foi uma das melhores.
Em 27/07/2009 às 14:06

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