Boccaccio '70 de Carlo Ponti

Bevette piú latte!!
| Diretor: Carlo Ponti |
| Episódios: Renzo e Luciana, por Mario Monicelli As Tentações do Dr. Antonio, por Federico Fellini O Trabalho, por Luchino Vistonti A Rifa, por Vittorio de Sica |
| Itália/França | Cor | 200 min. | 1962 |
O filme, espécie de “remake” da crítica à Itália feita pelo escritor Boccaccio no séc. XII através do seu Decamerão, apresenta quatro histórias.
No Ato I, Renzo e Luciana, dirigido por Mario Monicelli, há um retrato da classe operária. Os dois personagens são impedidos de assumir publicamente seu relacionamento, assim como a gravidez de Luciana, sob o risco de perder o emprego. Da mesma forma, a crise financeira enfrentada pelo jovem casal os impede de ter a devida privacidade. Ponto alto do filme é quando Luciana, numa sala de cinema completamente lotada com muitas pessoas em pé, diz a Renzo: “que bom que viemos ao cinema, assim temos a oportunidade de ficarmos sozinhos”.
O Ato II, As Tentações do Dr. Antonio, dirigida por Federico Fellini aborda, para variar, um dos temas preferidos desse diretor: as “perdições” da vida em conflito com a presença sombria do Vaticano. O Clero é mostrado de maneira similar ao seu filme Roma (1972), apresentando-se, talvez, como um ensaio para este último. Um senhor extremamente moralista, o Dr. Antonio, passa a ser atormentado por um enorme outdoor mostrando a imagem de uma senhora voluptuosa oferecendo um copo de leite. O cartaz diz: “beba mais leite”. O ponto alto desse episódio vem a ser justamente a música de Nino Rota: “Bevette piú latte”, que dá um tom tragicômico à história.
No Ato III, O Trabalho, dirigido por Luchino Vistonti, o conde trai sua mulher com diversas prostitutas, pagando preço alto. Ao descobrir, sua mulher de linhagem nobre resolve trabalhar para sustentar-se, porém por puro esporte. Acaba por vender-se sexualmente ao seu próprio marido, cobrando a mesma taxa que ele pagava para as prostitutas.
A última história, A Rifa, dirigida por Vittorio de Sica, é de longe minha preferida. Mostra uma Sophia Loren no auge de sua sensualidade, cuja personagem rifa uma noitada consigo. O episódio não passa de pretexto bem humorado para mostrar de maneira crítica a sociedade do interior italiano. A propósito, quem acaba levando o sorteio da rifa é o sacristão.
Dessa forma percebe-se que a crítica à Itália dos anos 60/70 é feita através do sexo: no primeiro ato, os personagens não conseguem fazê-lo por não ficarem nunca sozinhos; no segundo, as pessoas são desestimuladas pelo Dr. Antonio a não fazê-lo por ser imoral; no terceiro a esposa acaba vendendo seu sexo para o próprio marido; e, no quarto, a personagem principal é “rifada” para o sacristão.



