Falta de Vergonha na Cara!

Esra Ersen - 27ª Bienal de São Paulo
Foto: Olegario Schmitt
Não se iluda: no arco da nossa porta verde-amarela, nem Gonçalves Dias, nem Bilac, mas Dante, Canto III do Inferno: “Deixai toda a esperança, vós que entrais”.
O Brasil não tem jeito. A realidade é esta. Aceitemo-na tal qual ela é: dura, fria, amorfa como os corpos do mais novo acidente aéreo.
O que fazemos quando um político investigado por corrupção toma posse? NADA. O que fazemos quando acontece mais um acidente aéreo? Continuamos tomando vôos no mesmo aeroporto e, assim como o presidente, manifestamos comiserações de alcova.
Todos sabem que nada acontecerá, porque nada acontece mesmo. E não acontece porque ninguém faz nada: nem você. Não acontece porque ninguém está nem aí: reclamamos e paramos em mão-dupla, devolvemos carteiras perdidas e jogamos lixo no chão. Tudo não passa de uma grande festa! Ôba! Ôba! Rouba! Rouba!
A grande maioria que estufa o peito e diz que o Brasil tem jeito está na verdade confundida: isto que chamam esperança não é nada mais do que ilusão. Portanto, abandonar toda a esperança já é um bom começo — o ceticismo niilista pode ser obscuro, desesperador e tristíssimo, mas certamente não é iludido.
Ilusão parece ser a droga do século, tomamos o tempo todo. Nos iludimos quando votamos pensando que “este sim será honesto”; nos iludimos quando pensamos que algo acontecerá aos corruptos quando nesse país as leis são criadas unicamente para o povo (e olhe lá). Ou você pensa ingenuamente que aqueles que criam as leis incluir-se-iam a si mesmos dentro delas?
Pois estou farto desse zum-zum-zum, dessa ladainha que não é nada mais do que simplesmente isto: ladainha. Estou cheio dessa população de carpideiras descontentes, frouxas e vis que, enquanto choram, espiam por baixo dos lenços.
Não temos líderes porque somos todos corruptos. Aquele mesmo senhor honesto que devolve a carteira com milhares de dólares também atravessa fora da faixa, joga lixo no chão e reclama quando a cidade alaga. Somos corrompidos no mais íntimo da nossa brasilidade: um povo torpe. Não fazemos nada porque somos desunidos e nos falta vergonha na cara, nessa nossa linda cara brasileira.
Aliás, nem sei do que estou reclamando, afinal, isso aqui não é a França!
Pois que sejam bem-vindos aqueles que chegam à Colónia. E abandonai toda a esperança, vós que entrais...



