O Jedi Cubista



Look, Mama, I went blue and cubist at the same time

Uma vez eu conheci um poeta que escrevia tudo de trás pra frente. Em vez de dizer "o céu é azul e bonito" ele dizia algo como "céu, bonito e azul, é". Aí você perdia horas montando o verso na seqüência correta só pra descobrir enfim que ele queria dizer apenas e simplesmente "o céu é azul e bonito".

Como sempre gostei muito do Mario Quintana e quando este queria dizer que o céu era bonito e azul simplesmente pegava e dizia, perguntei pro poeta esse qual era o sentido de escrever tudo de trás pra frente.

Ele não gostou — dissque ele era um douto que tinha estudado muitos anos pra aprender a escrever de trás pra frente e dissque isso era muito chique, sobretudo pra quem tinha estudado muitos anos.

Quintana e eu não havíamos estudado muitos anos, a gente não tinha vindo de escola nenhuma. Acabamos perdendo o amigo e mais uns outros que gostavam de coisas de trás pra frente assim como ele.

Ainda agora, tantos anos passados, essa história toda ainda me consome, porque até hoje ainda não sei se ele era um poeta cubista ou algum tipo de Mestre Yoda da metalinguística.

Preconceitos e Julgamentos


Glaciar Perito Moreno/Lago Argentino - Argentina


Todo conceito é ou será um preconceito. Isso se dá a partir do momento em determinada pessoa pense diferente de você. O que acontece então é que o conceito DELA é que será o conceito, e o seu será o pré-conceito.

Taxar algo de preconceito é algo que não chega realmente a ser um argumento, mas sim um golpe baixo, tão baixo a ponto de fazer A Arte de Insultar de Schopenhauer um livro para crianças em fase pré-cognitiva.

Trata-se de uma argumentação vazia em si mesma: por ser preconceito, não tem sentido, mas não tem sentido UNICAMENTE por ser preconceito. Atente-se também para o fato de que o acusador não considera sua própria definição ela mesma um preconceito: preconceito é unicamente o conceito do outro.

Se substituirmos, porém, a palavra “preconceito” pela palavra “discriminação”, aí então começará a ser estabelecida alguma dialética, mas não pense ingenuamente que o preconceituador¹ estará preparado para entrar numa discussão — se estivesse, não teria jogado o preconceito na mesa.

Outra forma de não-argumentação, de insulto à inteligência mesmo — partindo-se do pressuposto que exista uma —, que é muito utilizada e que passa muitas vezes despercebida, é o “julgamento”.

O verbo “julgar” quando utilizado, por exemplo, na sentença “eu não julgo ninguém”, não passa também de uma forma de preconceituar² a opinião contrária. Sempre é utilizado como se “não julgar” fosse sinal do mais elevado sentimento moral, sendo que na verdade atesta unicamente a sua amorfia. “Não julgar” significa “não ter opinião” e, portanto, não escorregar nem à direita nem à esquerda, não decidir-se, não definir-se, podendo dessa forma agradar a gregos e troianos, de acordo com a conveniência da situação.

O argumento do “julgamento” não passa de uma falácia, afinal todo mundo julga tudo o tempo todo, não sendo possível que se viva de outra maneira. Não gostar disso ou daquilo, ou mesmo o contrário, é julgar aquilo como bom ou ruim (para si), e isso definitivamente não pode ser uma coisa negativa, mostrando apenas que o indivíduo não tem sangue de barata e que reage, de maneira positiva ou negativa, diante das coisas que se lhe apresentam.

A ponderação, o bom-senso e a eqüidade efetivamente são sinais de valores morais elevados, mas nem sempre possíveis de serem alcançados. Isso não se deve necessariamente a uma falha do indivíduo, mas à maneira como cada situação se coloca. O perigo está justamente no fato de que os néscios confundem freqüentemente eqüidade com falta de opinião e talvez sobretudo por isso é que sejam néscios.

A solução para o “enigma” se encontra justamente em PRIMEIRO ter uma opinião, um conceito, um julgamento, para apenas depois utilizar-se da ponderação, do bom-senso e da eqüidade, pois tais qualidades apenas podem ser aplicadas sobre algo que já exista antes.

Essa é a única forma de se conseguir perceber se aquele pensamento se trata ou não de um preconceito. E não esqueçamos que a opinião, afinal, é uma via de duas mãos que corre à beira de um abismo, mas com uma bela paisagem ao fundo.


¹ aquele que define o pensamento alheio como preconceito
² atribuir valor de preconceito a algum pensamento

Dia da Língua Nacional



Hoje é Dia da Língua Nacional, essa mesma que a nova reforma ortográfica tentou destruir.

Então façamos todos um clap-clap para as onomatopéias e nos permitamos afundar no poço das metáforas enquanto derramamos rios hiperbólicos de lágrimas e, catacrésicos, fritamos o coco da cabeça pela morte do trema e do acento da ideia.

Do escritor como assassino


Escrever é uma forma de crime e, por isso, todo escritor cultiva dentro de si características peculiares a um serial-killer. Como este, consegue ignorar solenemente aquela vozinha do ego que diz “você não deveria fazer escrever isso, vão acabar pensando que você está falando é de você mesmo”. O assassino em série, como o escritor, na verdade sabe muito bem diferenciar o certo do errado, mas simplesmente não se importa. “É como se uma força, mais forte do que eu, me impelisse a matar escrever”. “Quando voltei a mim, já havia cometido o crime conto”.

Todo escritor é um sórdido. Nas cenas finais de Hamlet, os personagens invariavelmente matando-se uns aos outros, Shakespeare nada faz para impedi-los. Ele poderia transformar, subitamente, as espadas em lenços de seda e os venenos em purgantes, evitando assim o trágico desfecho. Mas Shakespeare não faz nada. E se não faz nada é porque na verdade ele gosta.

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Suíte para Solo de Violoncelo


Mesmo o sol tendo acabado de se por, a temperatura ainda deve estar em torno de 35 graus. O ventilador de teto, de modelo antiquado e pás muito largas, gira vagarosamente sobre sua cabeça, mal e mal insinuando uma leve brisa. A noite vai caindo enquanto as luzes matizadas da rua vão tingindo lentamente a sala. Ele arrasta-se sem ânimo até o toca-discos e põe para tocar sua inseparável Suíte para Solo de Violoncelo.

A música preenche o ambiente com os timbres angustiantes daquele instrumento, cujo som ele acredita se assemelhar ao choro inconsolável que brota do fundo da garganta de uma viúva. É completamente tomado por um estado de torpor, parte causado pela própria temperatura, parte pelo mal de vivre que lhe acompanha desde sempre, monstrinho de estimação esse ao qual alimenta incessantemente com novos desestímulos, seja calor, música, ou pensamentos obscuros.

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A terra tremeu, as máscaras caíram


Hoje, aproximadamente 20 minutos antes da posse do novo presidente eleito do Chile, Sebastián Piñera, aquele país foi atingido por mais um terremoto, alcançando 6,9 graus na Escala Richter e terrificando os presidentes da América Latrina presentes no evento.

Não esqueçamos que o fato se deu nesse mesmo nosso continente onde a falta de memória parece ser um mal generalizado e onde cenas que deveriam ser unicamente trágicas frequentemente se transformam em cenas tragicômicas. Nós aprendemos a rir de nossas próprias tragédias. Aliás, aprendemos tão bem que agora não levamos quase nada a sério.

Como sabemos, é nos momentos de fraqueza que todos mostram quem verdadeiramente são. A terra tremeu, as máscaras caíram e, obviamente, acabou por revelar-se uma das cenas mais pândegas do ano.



Leo La Valle/EFE



Rafael - A Bênção de Cristo (c. 1506)


Nessa primeira imagem, temos Evo Morales (Bolívia), fazendo um gesto crístico com uma mão e uma figa (gesto pagão) com a outra. Como se nota, na hora do desespero o cocaleiro, pra garantir, se agarra a D'us e ao diabo. À sua direita Lugo (Paraguai), como que pregado na cadeira em momento de habitual paralisia, faz aquela sua cara abestada de sempre.



Martin Bernetti/AFP



Heavy Metal Satan Fingers


Na segunda imagem podemos ver Uribe (Colômbia) só pra variar com as pernas frouxas diante de um poder maior do que ele. Já quanto a Kirchner (Argentina), nunca saberemos ao certo se ela: a) está fazendo sinal de heavy metal ou b) uma invocação ao demônio ou c) suas mãos ficaram assim mesmo depois de tanto Botox e cirurgias plásticas para esticar o rosto.



Ivan Alvarado/Reuters



Delacroix - La Liberté guidant le peuple (1830)


A terceira imagem é a mais dantesca de todas: um senhor à esquerda transita entre Edir Macedo dando um passe na mulher loira e estar vendo com seus próprios olhos a luz depois do túnel. A cena como um todo tem um quê de tableau vivant de "A Liberdade Conduzindo o Povo" do Delacroix.

Ressalte-se que nesse momento o Príncipe de Espanha, Felipe (que não é O Belo), quedava-se soberanamente pálido no espaldar da porta entre o banquete da posse e o salão principal do evento.

Alan García (Peru), também não poderia nos deixar sem o Momento Lula do dia, presenteando-nos com essa linda pérola latrino-americana: "Deu para dançar um pouco com esse balançar".

Algumas coisas podem ser apreendidas dessas imagens:

1. Os todo-poderosos da América Latrina (e Espanha) na hora do aperto também sentem medo. São meros seres humanos, como você e eu. E, assim como nós, também serão comidos pelos vermes e não levarão nada consigo. A moça loira à direita na terceira foto, por exemplo, parece desconhecer que sua bolsa de grife não passará com ela para o além-túmulo.

2. Os governantes latrino-americanos transparecem sua covardia e falta de postura pública adequada de maneira muito clara nos momentos de crise. Quem dera fosse apenas durante os terremotos.

3. Quando os simpatizantes de Pinochet retornam ao poder a Terra mostra seu desagrado.

A Arte Celibatária


Independentemente de quantas elas sejam — o Manifesto das Sete Artes de Canudo1 já está démodé há algum tempo — e considerando-se seus respectivos processos criativos, talvez a fotografia possa ser considerada a arte mais celibatária de todas.

Obviamente toda forma de criação artística subentende a existência daquele momento de solidão onde o artista se isola completamente do mundo externo, entrando nessa espécie de estado de transe, de frenesi criativo.

O que parece diferenciar a fotografia das outras artes é que música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura, cinema, etc., são manifestações cujo ato de criação se dá na parte de fora do artista. Enquanto o musicista está compondo, as notas musicais são manifestadas em forma de sons ou de partituras escritas, o escritor materializa as palavras, o coreógrafo necessita ensaiar seus passos de dança no espaço físico extracorpóreo, e assim por diante. Com a licença da expressão, no que se refere à forma de criação, estas tratam-se de exoartes.

O problema que existe nessa afirmação é que não se pode saber ao certo a partir de qual momento uma fotografia, como arte, poderá ser considerada pronta. É após o clique? Após a pós-produção? Após a ampliação?

Esclareça-se que essa linha de pensamento foi construída sob o ponto de vista de que o clique seja, strictu sensu, o ato final de criação: o que acontece antes se assemelha à preparação do modelo que posará para a escultura, o que acontece depois se assemelha ao verniz passado sobre a pintura.

A fotografia pode ser chamada de arte celibatária porque durante esse processo criativo (inspiração, enquadramento, manuseio do aparelho) apenas o artista-fotógrafo vê o que se passa através do view-finder da câmera: o produto só existirá de fato, só poderá ser visualizado por outrem, após o efetivo clique.

Dessa forma os fotógrafos, devido ao meio, são celibatários criativos, são os onanistas das artes.

Daí todo fotógrafo ser essencialmente um ególatra, daí a dificuldade de se fazer fotografia coletiva. Os Coletivos Fotográficos, da forma como são apresentados publicamente, com todo os seus discursos e filosofias, parecem ser um embuste mascarando a realidade.

Não há fotografia coletiva, o que há é distribuição de tarefas: você fica com a produção, você com a iluminação, você com o tratamento de imagens.

Mas no final é apenas um único dedo que aperta o botão. E antes desse botão ser apertado, não existe arte fotográfica.


1 CANUDO, Ricciotto. Manifeste des sept arts. Paris: Séguier, 1995.

O Torcedor de Time Nenhum



Sobretudo aqui no Brasil, sempre há essa exigência de que se torça para algum time de futebol. É por isso que quando conto qual é meu time do coração costumo receber reações variando desde “o que há de errado com ele?” até “de que planeta ele veio?”, com as mais diferentes gradações entre um e outro extremo.

Pois saibam todos que da mesma forma que há torcedores do Flamengo, do Corinthians e até do Palmeiras, eu sempre fui torcedor roxo de Time Nenhum. Time Nenhum ganha todos os campeonatos; Time Nenhum rouba meu tempo que poderia ser gasto com inúmeras outras coisas mais interessantes; Time Nenhum tem uma camiseta diferente todos os dias, ao contrário dos outros times, que usam quase sempre a mesma, de desenho sofrível; Time Nenhum não incita a violência das torcidas adversárias; Time Nenhum detesta conversas de futebol.

Aquele argumento de que “futebol é a alegria nacional” é uma grande estopada. O Campeonato Brasileiro sendo disputado todos os anos por 40 times diferentes, quem torce para qualquer um diferente de Time Nenhum tem 97,5% de chance de se tornar um perdedor. Torcer para outro time que não o meu é fazer uma escolha praticamente certa de ser triste no final do campeonato e de se tornar um perdedor em outro setor de sua vida além dos outros todos de sempre.

Portanto, deixem-me em paz com a escolha do time do meu coração: Time Nenhum me traz alegrias.

Fotografia digital não é fotografia


Elementar: foto-grafia, escrita da luz.

Aqueles que “batem” fotos utilizam muito a expressão fotografia analógica... As pessoas inventam cada coisa, não é?! Primeiro, não entendo o porquê de tanto ódio, dessa necessidade de ficar batendo na foto como se ela tivesse feito alguma coisa de ruim. Segundo... o que exatamente quer dizer “analógico”?

Analógico vem de analogia, ou seja, é algo que apresenta relação ou semelhança entre coisas ou fatos. Considerar uma fotografia como sendo analógica, portanto, é retroceder ao pensamento positivista disseminado no século XIX que considerava a fotografia como “cópia exata, reprodução fiel da realidade”. Ou seja, quem diz “fotografia analógica” está dizendo de maneira implícita que a fotografia é algo meramente científico, jamais sendo fruto de criação e/ou interpretação por parte do agente por trás da câmera.

Dessa forma, dizer “fotografia analógica” é o mesmo que chamar o fotógrafo de macaco, ou seja, de mero apertador de botões. Não que estes não existam, mas na parte que me toca, acredito (ou prefiro acreditar) que faço bastante proveito dos 3% de carga genética que me diferenciam de um chimpanzé. Portanto, se você diz “fotografia analógica” saiba que o macaco, na verdade, é você.

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Casamento



Noivo insone oficializa casamento com noiva neurótica

Deu-se nessa semana na cidade de São Paulo a oficialização do matrimônio entre o autor desse blog e a citada metrópole. Uma vez já fato consumado há mais de 5 anos, os noivos comunicam que não haverá celebrações.

Outrossim, informam que a paixão do nubente continua inalterada, apesar da indiferença da prometida. Testemunhas teriam-no ouvido dizer “o amor é mesmo cego, pena não ser também surdo: a desposada não se cala um minuto que seja”.

A feliz união foi registrada no cartório da 2ª Zona Eleitoral dessa cidade.

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