O Torcedor de Time Nenhum
Sobretudo aqui no Brasil, sempre há essa exigência de que se torça para algum time de futebol. É por isso que quando conto qual é meu time do coração costumo receber reações variando desde “o que há de errado com ele?” até “de que planeta ele veio?”, com as mais diferentes gradações entre um e outro extremo.
Pois saibam todos que da mesma forma que há torcedores do Flamengo, do Corinthians e até do Palmeiras, eu sempre fui torcedor roxo de Time Nenhum. Time Nenhum ganha todos os campeonatos; Time Nenhum rouba meu tempo que poderia ser gasto com inúmeras outras coisas mais interessantes; Time Nenhum tem uma camiseta diferente todos os dias, ao contrário dos outros times, que usam quase sempre a mesma, de desenho sofrível; Time Nenhum não incita a violência das torcidas adversárias; Time Nenhum detesta conversas de futebol.
Aquele argumento de que “futebol é a alegria nacional” é uma grande estopada. O Campeonato Brasileiro sendo disputado todos os anos por 40 times diferentes, quem torce para qualquer um diferente de Time Nenhum tem 97,5% de chance de se tornar um perdedor. Torcer para outro time que não o meu é fazer uma escolha praticamente certa de ser triste no final do campeonato e de se tornar um perdedor em outro setor de sua vida além dos outros todos de sempre.
Portanto, deixem-me em paz com a escolha do time do meu coração: Time Nenhum me traz alegrias.
Fotografia digital não é fotografia

Elementar: foto-grafia, escrita da luz.
Aqueles que “batem” fotos utilizam muito a expressão fotografia analógica... As pessoas inventam cada coisa, não é?! Primeiro, não entendo o porquê de tanto ódio, dessa necessidade de ficar batendo na foto como se ela tivesse feito alguma coisa de ruim. Segundo... o que exatamente quer dizer “analógico”?
Analógico vem de analogia, ou seja, é algo que apresenta relação ou semelhança entre coisas ou fatos. Considerar uma fotografia como sendo analógica, portanto, é retroceder ao pensamento positivista disseminado no século XIX que considerava a fotografia como “cópia exata, reprodução fiel da realidade”. Ou seja, quem diz “fotografia analógica” está dizendo de maneira implícita que a fotografia é algo meramente científico, jamais sendo fruto de criação e/ou interpretação por parte do agente por trás da câmera.
Dessa forma, dizer “fotografia analógica” é o mesmo que chamar o fotógrafo de macaco, ou seja, de mero apertador de botões. Não que estes não existam, mas na parte que me toca, acredito (ou prefiro acreditar) que faço bastante proveito dos 3% de carga genética que me diferenciam de um chimpanzé. Portanto, se você diz “fotografia analógica” saiba que o macaco, na verdade, é você.
Quem foi, afinal, que disse que analógico é antônimo de digital? Onde está escrito isso? O Aurélio, vulgo amansa-burros, diz que analógico é forma de medida ou representação de grandezas na qual um sensor ou indicador acompanha de forma contínua, sem hiatos nem lacunas, a variação da grandeza que está sendo medida ou representada. Seja lá o que isso significa, não está listado analógico como sendo o contrário de digital. A não ser, obviamente, que estejamos falando de relógios. Mas se você não consegue diferenciar um relógio de uma câmera, talvez devesse aprimorar seu talento inato para subir em árvores.
Considerando-se que o digital é o [novo] padrão então haverá somente fotografia digital e não-digital. Quer dizer, isso se “fotografia digital” fosse realmente fotografia, é claro.
Na fotografia (entenda-se: captura não-digital), após a interpretação da cena pelo fotógrafo, a luz que bate nos objetos é refletida para dentro da câmera sensibilizando, por fim, o suporte. É justamente nesse suporte (película, papel, etc.) onde a luz ficará escrita. Como se nota, quem “escreve” a imagem no suporte é a luz propriamente dita.
No caso da “fotografia digital” a imagem não fica registrada no CCD (charged-couple device, ou simplesmente sensor digital): ela é imediatamente interpretada por ele e convertida em bits, ou seja, em seqüências absurdas de zeros e uns.
Se para cada fotografia utilizássemos um CCD diferente e esta ficasse registrada NELE, então seria "foto-grafia". Essa fotografia que a gente vê no computador, bem, essa coisa sequer existe de verdade. Se você acha que existe, então pegue uma (pegar = segurar com a mão) e traga pra eu ver. Eis aí uma cena que eu adoraria fotografar.
No caso da imagem impressa, processo esse a que chamamos comumente de saída fotográfica, a imagem é escrita com tinta, não diferenciando-se muito, strictu sensu, daqueles bilhetinhos que você deixa grudados na geladeira.
Imagem digital é uma interpretação da luz feita por um dispositivo eletrônico programado, cujo resultado final será uma imagem também eletrônica ou feita de tinta.
Por outro lado, em se tratando de saída digital em papel fotossensível (uma imagem digital é projetada sobre um papel fotográfico), então não vejo problemas em chamar a isso de fotografia, afinal a foto (luz) foi grafada no papel em algum momento. Claro, isso é uma transfiguração completa do que se considera o processo fotográfico clássico, mas essa já é bem outra discussão.
O importante aqui é lembrar que as coisas têm determinado nome por um motivo e chamar elefante de borboleta poderá acabar gerando um problema de peso, principalmente se o primeiro deles pensar que poderá voar devido ao seu nome.
Para encerrar, deixo essa pérola de Mario Quintana, o qual implicava muito com o sentido das palavras e que sempre vem muito a calhar:
Apocalipse
Mario Quintana
E eis que veio uma peste e acabou com todos os homens.
Mas em compensação ficaram as bibliotecas.
E nelas estava escrito o nome de todas as coisas.
Mas as coisas podiam chamar-se agora como bem quisessem.
E então o Pão de Açúcar se declarou Mancenilha.
E o hipopótamo só atendia por tico-tico.
E houve por tudo um grande espreguiçamento de alívio.
E Nosso Senhor ficou para sempre livre da terrível campanha dos comunistas.
E das apologéticas de Tristão de Athayde.
Casamento

Noivo insone oficializa casamento com noiva neurótica
Deu-se nessa semana na cidade de São Paulo a oficialização do matrimônio entre o autor desse blog e a citada metrópole. Uma vez já fato consumado há mais de 5 anos, os noivos comunicam que não haverá celebrações.
Outrossim, informam que a paixão do nubente continua inalterada, apesar da indiferença da prometida. Testemunhas teriam-no ouvido dizer “o amor é mesmo cego, pena não ser também surdo: a desposada não se cala um minuto que seja”.
A feliz união foi registrada no cartório da 2ª Zona Eleitoral dessa cidade.
Amo Que Me Odeiem

Não há coisa que intimamente mais me cause prazer no mundo do que saber ou perceber-me odiado.
Isso se dá porque aqueles que me amam possuem em relação a mim certa proporção de similaridade: amam-me somente porque até certo ponto sou similiar a elas mesmas e é provável que pessoa alguma ame a alguém que não seja si própria.
De minha parte, amo-as pelos mesmos motivos: amá-las é unicamente amar o tanto de mim que vejo nelas, já que ao restante desprezo.
Igualmente, saber-me amado por determinadas pessoas me seria um castigo tão insuportável que gosto quando elas me odeiam pois assim tenho certeza de que não somos iguais em nada.
Sobre "Identidade e Diferença"

O autor discorre nesse ensaio como se dá o processo social de construção da identidade e da diferença. Isso que ele chama de “pedagogia da diferença”, é fundamental para a estruturação do seu pensamento uma vez que todo nosso processo cognitivo comumente é construído sobre a “pedagogia da igualdade” (ou, com outras palavras, da “pedagogia da identidade”).
Como a construção cultural de sentido conscientemente se dá por analogia e não por antinomia1, por isso se mostra imprescindível toda a parte inicial do ensaio, justamente para desconstruir esse vício lingüístico: citando Sausurre, Da Silva aponta o inconsciente desse processo: “a linguagem é, fundamentalmente, um sistema de diferenças”. Ao mostrar que ao dizer “vaca”, ao mesmo tempo se diz “não-porco”, “não-cavalo”, etc., nos apresenta o caminho contrário daquilo que consideramos a construção do conhecimento: ao dizermos os sinônimos estamos dizendo igualmente todos os antônimos. Isso obviamente faz todo o sentido, mas nunca pensamos nisso.
Todo o discurso sobre a construção dos signos é uma espécie de engenharia reversa da atribuição da identidade e da diferença e, afinal, é apenas compreendendo intrinsecamente a dinâmica de um determinado processo que se torna possível desconstruí-lo.
É difícil, no entanto, concordar integralmente com “dizer que são o resultado de atos de criação significa dizer que não são ‘elementos’ da natureza, que não são essências, que não são coisas que estejam simplesmente aí”. Quando ele diz “natureza”, dentro do contexto, quer obviamente dizer TODA A NATUREZA e, portanto, tal argumento não explica a existência de grupos sociais não-humanos como abelhas, formigas e leões, apenas para citar alguns exemplos. Esses casos, embora não sejam casos de sociedades humanas e, portanto, fora da alçada da sociologia, não deixam de serem relações sociais per si. Não havendo cultura entre esses seres, conclui-se que a identidade nem sempre é criada, que pode ser natural, ao contrário do que afirma o autor.
Talvez a identidade desses casos não-humanos pudesse ser perfeitamente explicada sob a ótica das relações estabelecidos-outsiders2: o que define uma abelha é o fato de pertencer, ou não, à determinada colméia. Embora esses seres não possuam linguagem desenvolvida e, portanto, não se utilizam de signos, isso não significa que não tenham identidades e diferenças: os membros alheios a determinado grupo ou colônia são sumariamente rechaçados. Oras, não se poderia considerar alguém, ou algo, alheio a um grupo se não existisse uma identidade grupal comum e determinante, seja ela qual for.
Como as afirmações do texto obviamente apenas têm sentido quando verificadas do ponto de vista humano3, jamais do ponto de vista geral natural, e usurpando de forma capciosa as idéias discorridas pelo autor, “sociologia” é, portanto, “o não-estudo das relações sociais não-humanas”. Esse conceito de certa forma contraria a expressão utilizada pelo autor: “somos humanos”. Somos humanos do ponto de vista natural, é o que o autor quis dizer, já que do ponto de vista humanista4 os seres “humanos” muitas vezes conseguem se mostrar extremamente o oposto5.
Já a “metafísica da presença” de Derrida, onde a “plena presença (da ‘coisa’, do conceito) no signo é indefinidamente adiada” talvez possa explicar também nossa admiração pelas imagens, uma vez que estas são consideradas, desde o início do processo de construção dos signos, ainda no homem das cavernas6, como sendo substituintes dos referentes. O fascínio pelas imagens talvez se deva, portanto, a essa busca positivista e inconsciente de trazer o referente à plena presença do signo.
O discorrido no capítulo “A identidade e a diferença: o poder de definir” ajuda a ampliar a visão sobre as distinções entre “nós” e “eles” que comumente são feitas. Há algum tempo havia percebido a tendência geral de dizer, por exemplo, “o povo brasileiro é muito burro”: é como se quem pronunciasse tal frase fizesse parte da população de outro país que não deste7. Não havia percebido à época que tal afirmação se trata na verdade de tentativa de estabelecer uma relação de poder, através de oposição binária: ao dizer “ele, o povo, é burro” se está dizendo também “eu, que não faço parte ‘dele’, sou inteligente”. Além da auto-elevação através da diminuição do outro, também se trata de um processo de isenção de culpa, isso sem falar na tentativa de estabelecer relações estabelecidos-outsiders8, onde os outsiders são nada menos do que a população inteira de um país, excetuando-se, obviamente, a própria pessoa e todos aqueles que concordem com ela.
É impressionante perceber o quanto tais afirmações acontecem no dia-a-dia permitindo, inclusive, variações mais polidas socialmente como “povão” (“sim, eu até faço parte do ‘povo’, mas me diferencio do ‘povão’ o qual, por sua vez, é estúpido”).
Por outro lado, o questionamento da identidade e da diferença proposto pelo autor mais à frente no texto traz em si algo que vejo como grande perigo: ao elucidar as relações entre identidade e poder, o autor me pareceu querer reduzir o mundo a um grande sopão amorfo e sem características próprias, uma vez que cada característica própria seria uma diferença de identidade e toda diferença de identidade uma tentativa de exercer poder sobre outrem. Psicologicamente não se é possível ser, ou seja, existir sem algo que nos defina, sem um papel que estabeleça nosso lugar no mundo e norteie nossas inter-relações com ele.
Pois bem, ser alguma coisa, qualquer coisa, implica necessariamente em correlacionar aquilo que se é com o que os outros não são quando comparados conosco — não é possível que algo exista sem referencial em contrário. É assim que nossa psique, além da própria existência, é constituída.
Talvez o que o autor tenha querido dizer, sem no entanto fazê-lo, é que se eu sou efetivamente branco, isso não significa nada além do fato que eu sou branco e não negro. Isso apenas. E que seria questionável (para dizer o mínimo) se utilizar disso para exercer poder sobre aqueles que não são brancos como eu.
Em contraposição, se eu sou brasileiro isso significa que sou portador de inúmeras características históricas e lingüísticas, culturais enfim, que me definem como tal e não como estadunidense, por exemplo. Isso significa, necessariamente, em dizer que ao me definir como brasileiro eu quero exercer poder sobre os outros? Ou significa dizer que ao me definir desta forma isso reforça minha identidade de grupo, enriquecendo a cultura própria e característica de meu país, prevenindo-nos assim de nos tornarmos uma filial estadunidense?
Da mesma forma quando Da Silva diz “João é pouco inteligente”, e afirma que isso funciona como uma sentença normativa — o que de fato o é — que poderia, além de descrever, acabar produzindo efetivamente aquilo que afirma, isso significa que: a) não existe nenhum João pouco inteligente; b) se João é pouco inteligente e o percebemos isso não pode ser dito; ou c) isso apenas é válido para os Joões que não são pouco inteligentes?
Sim, porque baseado nas conseqüências de se utilizar sentenças normativas descritas pouco mais à frente no texto, facilmente se conclui que dizer “João é pouco inteligente” é algo péssimo e que deve ser evitado, mesmo que seja verdade.
O autor aponta os processos e descreve sobre como eles se dão, mas não aponta muitos caminhos. Quando o faz, apenas suscita mais dúvidas, ou seja, abre caminho para o duvidoso. Ao esclarecer que ao dizermos “João é pouco inteligente” além de descrever João também o definimos, é quase como se dissesse também “portanto não digamos isso, mesmo que seja verdade, do contrário João se tornará ainda menos inteligente”.
Abre-se um caminho aí, como se nota, para o desenvolvimento exacerbado do “politicamente correto”, da polidez social ou, seja, da hipocrisia generalizada. É seguindo esse caminho do politicamente correto, justamente, que os EEUU proibiram a utilização da expressão “negro”, substituindo-a por “afro-descendente” sem no entanto desenvolver políticas públicas de inclusão social voltadas a essa parcela da população. Convenhamos que substituir “negro” por “afro-descendente” não muda absolutamente nada per si, exceto a própria expressão utilizada, sendo que a segunda delas se mostra ainda pior ao definir os negros como “descendentes de outro lugar que não este”.
Por fim, as últimas argumentações do ensaio, quando por exemplo Da Silva cita José Luis Pardo9, são generalistas e por si mesmas acabam por também definir, por também identificar aquilo que deve e aquilo que não deve ser feito dentro desse “politicamente correto”. Se as diferenças de identidade devem ser amplamente permitidas, irrestritamente — o autor nunca cita que em alguns casos algumas diferenças não devem ou não deveriam ser permitidas —, então significa que eu não tenho o direito de considerar os neonazistas desprezíveis: eles por sua vez têm o direito de serem diferentes de mim e quererem aniquilar aqueles que são diferentes deles mesmos. Também não posso condenar os homofóbicos, nem os racistas. Ou as pessoas têm o direito de serem diferentes, ou não têm, do contrário seria dizer “as pessoas têm direito de serem diferentes desde que não contrariem aquilo que eu acredito”.
Da Silva não esclarece, sobretudo, a linha tênue que separa “permitir” de “permissividade”, tampouco que há “diferenças” e diferenças. Diz apenas: as diferenças devem ser permitidas. Ponto.
Embora tenha trechos extremamente positivos — o próprio questionamento dessas relações já é um deles — alguns argumentos acabam por colapsar-se sobre si mesmos, num movimento de auto-anulação elíptica. Não é à toa que é um sociólogo não muito conhecido.
2 NORBERT, E. e SCOTSON, J. L. Ensaio teórico sobre as relações estabelecidos-outsiders
3 Sociologia, s.f., estudo científico da organização e do funcionamento das sociedades humanas e das leis fundamentais que regem as relações sociais, as instituições etc. (Houaiss)
4 Erasmo de Rotterdam, Calvino, Compte, apenas para citar alguns.
5 Hitler, Franco, Mugabe, apenas para citar alguns.
6 Para o homem das cavernas o desenho do bisão não era “um desenho do bisão”, mas o bisão em si. Esse conceito de substituição do referente pelo signo, no caso das imagens, também foi reforçado pelo Positivismo que ensinou a pensar a fotografia como “captura científica do real”, portanto fiel e exata à realidade registrada. Mesmo esse pensamento tendo sido desconstruído por inúmeros pensadores até os dias de hoje, entre eles B. Kossoy, tal raciocínio inconsciente ainda persiste entre os “não-iniciados”.
7 SCHMITT, Olegario. Os dedos de Diógenes.
8 “hierarquização das identidades e das diferenças”, página 83
9 “Respeitar as diferenças não pode significar “deixar que o outro seja como eu sou” ou “deixar que o outro seja diferente de mim tal como eu sou diferente (do outro)”, mas deixar que o outro seja como eu não sou, deixar que ele seja esse outro que não pode ser eu”
À Procura de Um Coração

— Tem coração?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior.
— Ah, tem não.
— Não tem hoje ou não tem nunca?
— A gente não vende isso não.
— Que coisa... e se eu encomendar, aí tem?
— Tem não.
— E onde será que eu encontro coração aqui em São Paulo?
— Lá na Lapa tem...
— Nossa, na Lapa?! Que longe... na Lapa de Cima ou na Lapa de Baixo?
— No Mercado da Lapa tem. Se tiver coração, é lá.— Tem coração?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior...
— Ô, Antônho, tem coração aí?
— Tê, tem, mais cabô!
— Ó, moço, coração só na semana que vem, viu? Isso se tiver!
— A gente tá mesmo fodido nessa cidade...
— ...
— Você sabe se tem outro açougue aqui perto?
Aos Extintores!

Série Instantâneos Conceituais ou Non-Sense Sobre o Destino de Uma Cabeça de Fósforo
Penúltimo Instante de Uma Cabeça de Fósforo
Último Instante de Uma Cabeça de Fósforo
Quando Um Fósforo Perde a Cabeça
Erra muito menos quem, com olhar sombrio, considera esse mundo como uma espécie de inferno e, portanto, só se preocupa em conseguir um recanto à prova de fogo.
Schopenhauer In: Aforismos Para a Sabedoria de VidaDe pecador metido em tal orifício ficava de fora dos pés à barriga da perna, ficando oculto o resto do corpo. Ardiam-lhes as plantas dos pés, acesas por inteiro, e nesse sofrer tanto se estorciam que teriam podido romper laços e cordas. Do calcanhar aos dedos corriam chamas, inflamadas como se flamejassem sobre corpo untado com gordura.
Dante In: A Divina Comédia, Canto XIX do InfernoA língua também é um fogo; sim, a língua, qual mundo de iniqüidade, colocada entre os nossos membros, contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, sendo por sua vez inflamada pelo inferno.
Evangelho de Tiago, 3,6Mas, quanto aos medrosos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos adúlteros, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.
Livro do Apocalipse, 21,8
Ele não está nas espirais de Dante, tampouco nos aguarda, apocalíptico, no Fim dos Tempos: o inferno é aqui e o diabo é o homem!
Aos extintores? Baldes d'água, mangueiras? Que se esqueça toda idéia de canecas ou mãos em concha: são insuficientes diante de toda hipocrisia, disfaçatez, falsidade, adulação, idolatria e dissimulação inerentes à vida "humana".
Para apagar essa fogueira das vaidades, apenas um novo dilúvio.
Confissões de Um Veterano

de NORBERT, E. e SCOTSON, J. L. - Link
Durante toda a minha vida sempre tive imensa dificuldade de pertencer a algum grupo (ou tribo, como se diz contemporaneamente) específico — acabando por transitar entre diversos meios heterogêneos entre si sem me sentir realmente pertencendo a nenhum deles. Minha análise até então era de que a não-aceitação acontecia devido a diferenças identificativas — de gostos, ideologias ou métiers. Por exemplo, na adolescência nunca fui aceito no grupo que gostava de heavy-metal por gostar igualmente de música clássica e bossa-nova; estes, por sua vez, também não me aceitavam justamente pelo motivo inverso. Nunca fui muito bem aceito entre os artistas plásticos por ser também escritor, e entre os escritores por ser também fotógrafo, e entre os fotógrafos, embora em menor escala, pelos dois motivos anteriores.
A sociedade exige — e cobra isso de maneira nem sempre tácita — que se pertença1 por inteiro a esse ou àquele grupo: ou você é escritor, ou é fotógrafo, ou é artista plástico. E se gostar de Bellini então que não ouse ouvir AC/DC. Se gostar de coisas que os outros não gostam, os outros não gostarão de você — a aceitação se dá na medida em que não são expostas tais coisas que o fazem diferente dos demais. Quanto mais igual, maior a chance de pertencer.
No entanto essas simples diferenças de “gosto” não esclareciam o universo de situações que eu percebia sem, no entanto, compreendê-las completamente. Não esclarecem, por exemplo, meu desprezo pelos “bixos” da faculdade ou a minha dificuldade em quebrar as barreiras para ingressar em determinada tribo urbana e registrá-los fotograficamente.
É interessante observar, como mostra muito bem o texto, que as relações estabelecidos-outsiders não ocorrem em grupos necessariamente homogêneos (EMO’s/não-EMO’s), sendo que a única semelhança entre eles pode ser justamente o fato de uns estarem dentro e outros fora.
No primeiro dia de faculdade houve o trote, do qual “participei” com extrema má-vontade — “essa é a quarta faculdade que inicio e não tenho mais paciência para MAIS UM trote”, era o que eu pensava2. No entanto, me esforcei para fazer parte desse “ritual” justamente por acreditar que me ajudaria na integração com os estabelecidos, digo, veteranos. Quando perguntei a uma veterana qual era exatamente o sentido daquele ritual ridículo ela me respondeu “ah, sei lá cara, é porque já fizeram isso com a gente”.
Não é possível considerar esse tipo de resposta satisfatória, principalmente quando vindo de uma pessoa com o cabelo roxo — foi apenas através da leitura desse texto que consegui entender a dinâmica não apenas o desprezo do qual fui alvo, mas sobretudo a de meu próprio desprezo pelos “bixos”.
Descobri que ele não se deve necessariamente a algum fator pessoal — embora muitas vezes utilizemos justamente este argumento —, mas sim a uma série de normas e regras de postura preestabelecidas silenciosamente pelos que já estavam lá antes de mim. Por exemplo, nós, os estabelecidos primeiro, acreditamos que não se deve se esparramar pelos corredores atrapalhando o nosso trânsito — nós, justamente nós que já estávamos lá antes, tendo de pedir licença àqueles que chegaram depois? Inaceitável! Os corredores todos nos pertencem. Também acreditamos, quase sempre de maneira inconsciente, que não se deve ficar parado nas escadas do Bar do Tio, atrapalhando nossa entrada, porque o Bar do Tio é nosso por direito: nós o conquistamos a duras penas àqueles que já estavam preestabelecidos.
Compreendi, intimamente embaraçado, que os “bixos” são considerados inferiores unicamente por terem chegado depois. Também percebi por que nós outros, por nossa vez, também éramos tratados dessa mesma forma.
É um ciclo que nunca acaba. O trote, antes de ser uma atividade de “integração” entre calouros e veternaos, é um processo, um ritual, de estabelecimento de relação dominantes/dominados, superiores/inferiores ou, como pretendem os sociólogos, estabelecidos/outsiders.
O que é dito é que se subjugar-mo-nos ao trote, seremos aceitos. A perfídia se encontra no fato de que não nos é dito que não seremos aceitos de um jeito ou de outro. E esse ciclo é repetido ano após ano — os nossos “bixos”, por sua vez, também têm a necessidade de se sentirem superiores e encontrarão sua desforra naqueles que chegarem depois deles.
Nossa estratégia inconsciente de estigmatização dos “bixos” se resume basicamente a chamá-los de “bixos” em toda oportunidade possível (e, inclusive, criando oportunidades apenas para), isso acompanhado por comentários ferinos e olhares de desprezo. Pode não surtir efeito no primeiro dia, tampouco no segundo, mas ao longo de um semestre inteiro certamente alcançará algum sucesso.
Essa dinâmica social dos corredores das faculdades torna-se possível porque nós, veteranos, dificilmente precisamos da ajuda daqueles que “estão abaixo de nós”: não há relação de necessidade ou dependência de nós em relação a eles. Outrossim, precisamos freqüentemente da ajuda dos nossos veteranos e, se soubermos nos comportar de maneira suficientemente submissa, conseguiremos contar com sua ajuda, como um cão que ganha um ossinho. Note-se que esses gestos de ajuda, tanto o que recebemos como o que eventualmente damos, é sempre fornecido sob uma aura de “extrema benevolência de minha parte em ajudá-lo, pois você é ‘meu bixo’ não merecendo de mim nada além de meu desprezo”.
Já aqueles que se submetem tacitamente às nossas normas — igualmente tácitas — de convivência vão sendo gradualmente aceitos: já é possível ver interação entre alguns de nós e alguns deles e a “recompensa pela submissão às normas específicas do grupo” é tão somente poderem nos dirigir a palavra. Parece pouco, mas dentro da nossa sociodinâmica isso é o máximo que se pode alcançar, uma vez que nada no mundo fará com que eles tenham chegado antes.
Da mesma forma, a dinâmica outsider é fielmente observada pelos “bixos”, os quais parecem perceber a nossa irritação com suas atitudes espalhafatosas e fazem apenas ocupar mais espaço, freqüentemente extrapolando os limites do bom senso.
Mas quais benefícios são esses que o poder de estabelecidos nos traz, afinal? Nenhuns, absolutamente nenhuns além do poder em si. É isso que é verdadeiramente ridículo na natureza humana: a princípio nenhuma vantagem extra se nos afigura, nem mesmo num horizonte longínquo: nossos professores são ou serão os mesmos, as disciplinas as mesmas, a mesma biblioteca, os mesmos livros, equipamentos, corredores, o mesmo tudo — mas a hegemonia se mostra agridoce quando experimentada pela nossa própria boca.
E o que faremos quando no último semestre do próximo ano seremos os únicos estudantes do Bacharelado em Fotografia nessa unidade? Os “bixos”, juntamente com os “bixos” deles, serão todos transferidos para o Campus. Voltaremos então nossas relações sádicas de poder uns contra os outros? Contra os estudantes do curso técnico, quiçá? Será igualmente divertido menosprezar aqueles que não estão em condição de igualdade por estarem em um curso “inferior”?
Tudo isso ainda é uma incógnita. Estarei de olho.
1 Por pertencer entenda-se seguir de bom grado um determinado conjunto de regras e normas.
2 Mas é provável que, inconscientemente, fosse apenas minha reação contra a sujeição ao poder de outrem.
Nalú Nogueira III

o ipê
Nalú Nogueira e Olegario Schmitt
Eu tenho um ipê tão alto
que uso seu caule-telégrafo
para conversar com os anjos
em pancadinhas em morse.Nas folhas verdes-pulsantes
em meu morsear poético e
tantas vezes patético
peço urgências providências
para acalmar a dor que sinto.Noutros dias vou subindo,
tardes indo me esconder no
ipê florido, lá do alto mar azuis
e céu lilases, outros, sangues
e a minha tristeza exangüe
e o meu cantar colorido.Tardes indo, anjos vindo.
E o vento gordo ventando.
E as folhas do ipê balançando.
E a luz da vida sorrindo.
Tu e tu
Nalú Nogueira"Tu: imprescindível antídoto
que não sei se bebo
ou regurgito." - Olegario Schmitto veneno eras tu;
o antídoto eras tu
— alternativa não havia:
se eu te bebesse inteiro,
tu me matarias;
se eu não te bebesse,
ainda morreria.
era escolher entre a sede
que tu me provocavas
e a vontade de morrer
que em mim havia.assim fui te bebendo aos poucos
— ver se não doía tanto
ver que tu partias.e pude morrer lentamente
— porque de qualquer modo morreriabebendo-te e
regurgitando-te
mais este dia...
só mais este dia...
flor do cerrado
Nalú Nogueira
para Olegario Schmitt
Aqui
onde não há pampas
nem ervas
nem mantas de lã
macias para espantar
o inverno (porque
inverno aqui não há).Daqui
de onde não se diz
guria ou tri legal ou bá
— e onde barbaridade é
menino da sociedade
queimar índio do Pará.Aqui
tão longe, em meio
ao triste cerrado se
esconde a flor mais
bela, aquela impossível
de pensar nesta paisagem
que chora.E nela, uma mulher
— morena, dessas
normais no Brasil
procura, sem ver a hora
a flor
para por em tua janela.Daqui
deste cerrado marrom
deste lugar sem frio
sem manta
sem erva
(mas com a flor amarela
que ela foi colher, gentil)
ela vai, no pensamento
desce a serra
chega aos pampas
— o verde lhe encanta os olhos
o frio lhe espanta o sono
a bruma lhe envolve os sonhos.Tímida, mas sem hesitar.
Flor na mão, ela vai cálida.
Nos seus lábios a canção mais
límpida. Nos seus passos a razão
mais sólida. Única:
Achar a tua janela. E nela
deixar a flor que trouxe
da sua viagem de mundos,
da terra do lado de cá — e
a flor é pra te dizer:
estejas sempre felizNota:"Estejas sempre feliz" era a expressão que eu utilizava para me despedir
agradecimento à essa morena "normal"
Olegario Schmitt
para Nalú NogueiraAqui no pampa
onde o chimarrão
me ensinou a pensar saudades
com líquido amargo e quente
a lã espanta o Minuano de fora,
enquanto o carinho que ganhei
aqui dentro me esquenta.Abro minha janela,
deixando o frio e o sol entrarem,
antagonicamente coexistindo.Abro a minha janela
e há nela uma flor amarela
trazida dum norte tão longe
por uma morena, dessas normais...Antes de ir embora
com seus passos silenciosos,
ela se vira e me fita.Ela tem estrelas nos olhos.
Dessas estrelas normais...
Casca
Olegario Schmitt
para Nalú Nogueira
A vida deixou-a cansada.
Arriscou esperança. Não deu.
Tentou ilusão. Falhou.
Tentou golpes altos. Colheu desencanto.
A vida ensinou-a a ser dura
e deu-lhe uma casca.
Era o que se via através da face inexpressiva
e dos olhos parados olhando para o nada.
Mas por dentro era um vulcão,
por dentro rio caudaloso pedindo vazão.
E o pensamento voava através dessa casca,
não se sabia ao certo pra onde.
Tentou desespero, derrotando a felicidade.
Permitiu a vasta tristeza.
Colheu o que plantou.
Ela, que tanto gritou, que tanto lutou,
diante da derrota temporária decidiu ceder.
Os olhos penderam, o riso calou, o peito doeu, perdeu-se.
Parou.
Tentou poesia. As letras choravam.
Tentou alegria. Não deu.
Tentou soerguer-se. Falhou.
Tentou realidade. Os pensamentos sempre em outra estação.
Viu seus sonhos quebrarem como frágeis cristais,
desencontrou-se da vida como uma criança sozinha.
Mas ela era forte. A vida ensinou-a a ser dura
e deu-lhe uma casca.
E ela compreendia que a inquietação do dia
serve apenas para que a noite seja mais calma.
E ela conhecia o poder da esperança,
e tinha conhecimentos profundos das histórias
do céu e das nuvens.
E ela haveria de descobrir, mais cedo ou mais tarde,
quanta força tem um sonho.
serviu de inspiração para a série fotográfica Casca
Nalú Nogueira II

terminal
Nalú Nogueira
quero rasgar a dor das coisas terminadas
não pousar os olhos sobre as fotografias
não torturar-me com a leitura das palavras
doces — agora eternamente frias.
quero espicaçar minh'alma descaradamente inútil
com o velho picador de gelo prateado
furar também a carne sem servência
refazer-me — em desvelo e prudência
e afogar em fogo alcoólico o terror
das noites em que foge o perdão
(vai bem distante)
em gelo tilintante sufocar soluços
de autopiedade
apelar para a santíssima trindade
em gritos hereges de embriaguez desvairada.
sair na calçada gritando:
— alguém me possua!
e esperar que venha qualquer miserável
que me coma e me livre, enfim,
de ser tua.
o piano
Nalú Nogueira
Decifra-me.
Se me queres,
tenta-me.
Há portas que estão
apenas aparentemente
fechadas. Abre-as.
Uma delas dá acesso a
uma sala e dentro dela
há um piano. Entra.
E toca-me.
Se teus dedos produzirem
música, terás
me aprendido.
sobre as dores
Nalú Nogueira
Falta-me o ar.
A noite desceu com
o peso de mil toneladas
sobre os meus ombros
esquálidos:— que posso eu contra
o peso de mil sonhos destruídos?
Soneto para cantar a dor
Nalú Nogueira
quero fazer os versos mais sentidos
para cantar ao mundo a dor que sinto
com minha voz de vidro estilhaçado
e o meu olhar de sombras revestido.quero escrever os versos mais bonitos
dizer: ó noite, bruma aveludada!
ó querubins valsando em plena lua!
ó lumiar de estrelas do infinito!mas vou dizer os versos mais doídos
jogar a dor que sinto em cada face
entrar em dor e alma em cada ouvidoe assim tocar, talvez, o mais descrente
e exorcizar, quem sabe, o que me mata
e crer, por fim, num deus que não me bata.



