Um mundo sem a Fotografia

Como seria o nosso mundo sem ima­gens fotográficas?

Fotografia

Um mundo sem a Fotografia

Como seria o nosso mundo sem ima­gens fotográficas?

Publicado em 22 de outubro de 2007 por Olegario Schmitt

O mundo urbano con­tem­po­râ­neo sem a exis­tên­cia da foto­gra­fia é a tal ponto ini­ma­gi­ná­vel, que soa mais sen­sato gra­far “um mundo” em detri­mento de “o mundo”: só é pos­sí­vel men­su­rar sem foto­gra­fia um mundo que não este.

Ape­sar de as más lín­guas afir­ma­rem que “uma ima­gem vale por mil pala­vras”, se assim o fosse, não seria mais neces­sá­ria a exis­tên­cia da gra­fia e, con­seqüen­te­mente, desse mesmo texto: tudo aquilo sobre o que é aqui dis­cor­rido seria repre­sen­tado atra­vés de ima­gens. Não é neces­sá­rio muita ima­gi­na­ção para“uma ima­gem vale por mil pala­vras?” suben­ten­der que, dessa forma, não tar­da­ria em exis­tir novo alfa­beto, de certa maneira simi­lar ao egíp­cio, onde em vez de letras exis­ti­riam uni­ca­mente fotografias.

Se uma ima­gem não vale por mil pala­vras, o impacto cau­sado por ela, no entanto, pode sim ser con­si­de­rado no mínimo mil vezes mais pro­fundo: dife­rente de ler a des­cri­ção da cena onde um menino cata lixo para sobre­vi­ver, é ver a sua ima­gem no ato.

Tanto isso é ver­dade que o tra­di­ci­o­na­lís­simo jor­nal fran­cês Le Monde, con­tra­ri­ando sua tra­di­ção tex­tuá­ria, reviu suas pers­pec­ti­vas em 2002, enriquecendo-o com mais foto­gra­fias, para torná-lo “até tu?“mais ale­gre1 e, dessa forma, aumen­tar o número de lei­to­res. Percebe-se que até mesmo esse jor­nal pas­sou a con­si­de­rar incon­ce­bí­vel um mundo sem fotografias.

Mas, ape­sar da pre­sença mas­sa­crante do ima­gé­tico foto­grá­fico no dia-a-dia do nosso uni­verso de con­sumo, ainda há comu­ni­da­des remo­tas — sil­ví­co­las, abo­rí­ge­nes, sher­pas, etc. — onde este está pra­ti­ca­mente ausente, assim como ener­gia elé­trica, água enca­nada, gás e outras moder­ni­da­des afins.

Seria o mundo deles menos feliz por causa disso? Tal­vez jus­ta­mente pelo con­trá­rio: não per­ten­cendo à “assé­dio“soci­e­dade de con­sumo, não são cons­tan­te­mente asse­di­a­dos por ima­gens ten­tando lhes con­ven­cer a com­prar esse ou aquele pro­duto, ten­tando ven­der essa ou aquela idéia, sem­pre super­fi­cial, de bem-estar.

A foto­gra­fia — espe­ci­al­mente a publi­ci­tá­ria — se tor­nou ins­tru­mento sádico e pers­pi­caz a ser­viço do comer­ci­a­lismo. Atra­vés de foto­gra­fias, mulhe­res são con­ven­ci­das de maneira quase incons­ci­ente e, por vezes, subli­mi­nar, que, uti­li­zando deter­mi­nado pro­duto de deter­mi­nada marca, pas­sa­rão “foto­gra­fia publi­ci­tá­ria: ins­tru­mento sádico“a ser tão boni­tas quanto aquela modelo eston­te­ante. Os homens, por sua vez, são con­ven­ci­dos que, com­prando aquele carro espe­cí­fico, con­se­gui­rão ter para si mode­los tão eston­te­an­tes quanto aquela da outra foto. Como se nota, tudo isso não passa de ima­gem, e seria muito mais sen­sato se pudés­se­mos viver sem essas maze­las, não obs­tante as outras que já nos con­so­mem enquanto sociedade.

A soci­e­dade assim dita moderna vende a idéia de que “ter” sig­ni­fica “ser” e, sob esse aspecto, a foto­gra­fia — lembre-se: escrita da luz — é dos ins­tru­men­tos mais efi­ca­zes para semear tre­vas na exis­tên­cia humana, ape­sar de uma ima­gem ven­der outra ten­tando con­ven­cer de que isso tudo é muito lindo, muito cool e muito fashion.

E, pen­sando dessa forma, cer­ta­mente são mais feli­zes os sil­ví­co­las nus com seus cocares.

Mas, por outro lado, a pri­va­ção da ima­gem foto­grá­fica sig­ni­fi­cará, neces­sa­ri­a­mente, pri­va­ção de boa parte da memó­ria, seja ela indi­vi­dual ou cole­tiva, mos­trando desse modo não ser vã a expres­são “memó­ria foto­grá­fica”, tão freqüen­te­mente uti­li­zada como defi­ni­ção daque­les quememó­ria foto­grá­fica vs. memó­ria foto­grá­fica” lem­bram de tudo nos míni­mos detalhes.

Com o pas­sar do tempo, foto­gra­fias nos mos­tram o quanto engor­da­mos ou ema­gre­ce­mos na última década, reme­tem àquele corte de cabelo ou àque­las rou­pas ridí­cu­las que usá­va­mos então e, sobre­tudo, agre­gado de maneira intrín­seca a todas essas coi­sas que a ima­gem efe­ti­va­mente mos­tra, estará tudo aquilo que não se pode ver: a lem­brança de se éra­mos feli­zes ou não, onde está­va­mos quando a foto foi feita, sonhos e pro­je­tos que no tempo pre­sente terão sido rea­li­za­dos ou não, e assim por diante.

Há nesse aspecto, porém, o perigo de, como Dorian Gray, nos tor­nar­mos reféns do retrato de“o retrato de Dorian Gray” outrora, que con­ti­nu­ará para sem­pre a nos mos­trar jovens, belos e bem dis­pos­tos, a des­peito do espe­lho que insiste em nos exi­bir rea­li­dade con­trá­ria. Devido à fra­queza da natu­reza humana, seria inte­res­sante se não nos fosse sequer dada mais essa pos­si­bi­li­dade de nos tor­nar­mos reféns da pró­pria vaidade.

Por outro lado, esses mes­mos retra­tos tam­bém nos per­mi­ti­rão man­ter para sem­pre vivas as ima­gens — e, con­seqüen­te­mente, a memó­ria agre­gada — daque­les a quem ama­mos, mesmo sob a secreta raiva do tempo, que tende a des­va­ne­cer len­ta­mente nos­sas ima­gens mentais.

Da mesma forma que a foto­gra­fia per­mite pre­ser­var a memó­ria indi­vi­dual, tam­bém pre­serva — quando não lite­ral­mente cria — a memó­ria cole­tiva. Como seria nosso conhe­ci­mento rela­tivo à Guerra da Cri­méia não fos­sem os regis­tros fei­tos por Roger Fen­ton? Qual ima­gem tería­mos da Guerra de Seces­são Ame­ri­cana não exis­tis­sem Mathew Brady e Ale­xan­der Gard­ner? Como tería­mos idéia da pai­sa­gem cari­oca no iní­cio do século pas­sado, não fosse Marc Ferrez?

Não exis­tisse a foto­gra­fia, cer­ta­mente ainda have­ria a pin­tura para nos lem­brar das faces, fatos ou pai­sa­gens que pas­sa­ram, mas o perigo desta última lin­gua­gem reside no fato dela estar, por sua natu­reza, muito mais sujeita à inter­pre­ta­ção — logo, à modi­fi­ca­ção — infe­rida à obra pelo autor do que a fotografia.

Mesmo com o advento “Pho­toshop: satã do per­fec­ci­o­nismo vai­doso“do Pho­toshop, “satã” esse vol­tado mais ao per­fec­ci­o­nismo vai­doso — e, por con­se­guinte, à publi­ci­dade — do que à pre­ser­va­ção da memó­ria, ilu­sões gera­das ele­tro­ni­ca­mente mui­tas vezes não têm valor mnemô­nico além da ilu­são em si.

Estando a foto­gra­fia a ser­viço do seu exe­cu­tor será, por con­seqüên­cia, sem­pre dicotô­mica, mos­trando com a mesma faci­li­dade notí­cias e futi­li­da­des, cri­mi­no­sos e ben­fei­to­res, mara­jás e men­di­gos, flo­res e deser­tos, anún­cios Dior e fome na África, vidas e mortes.

Devido a essa natu­reza ambi­va­lente, o mundo sem a foto­gra­fia não seria neces­sa­ri­a­mente um lugar melhor ou pior, mas dife­rente: sem publi­ci­dade, mas des­me­mo­ri­ado, ou exu­be­rante, mas supérfluo.

Final­mente, já que não nos é pos­sí­vel sequer cogi­tar o mundo sem a foto­gra­fia, cabe­ria às mãos, ama­do­ras ou pro­fis­si­o­nais, torna-lo lugar melhor ou pior para se viver pois, afi­nal, a câmera que afaga é a mesma que ape­dreja2.

1 O Estado de São Paulo, 12/01/2002
2 “A mão que afaga é a mesma que ape­dreja.” — DOS ANJOS, Augusto, in: Ver­sos Íntimos

Comentários

  1. vini­cius meireles
    11 de novembro de 2010

    Carís­simo Ole­ga­rio. Encon­trei mais um texto seu a res­peito de foto­gra­fia. Muito pers­pi­caz a ana­lo­gia ao retrato de dorian gray. Temos uma rela­ção meio louca de exi­bir­mos nos­sas iden­ti­da­des momen­ta­ne­a­mente, mas escon­de­mos aque­las velhas ima­gens dos olhos de todo mundo. Não as joga­mos fora, tam­bém não com­par­ti­lha­mos... sem dúvida, além do espe­lho, é a foto­gra­fia uma grande res­pon­sá­vel no sen­tido de mudar nossa per­cep­ção do que somos nesse mundo com rela­ção a nossa ima­gem. Sobre memó­ria, sugiro acres­cen­tar refe­rên­cias a Proust, já que foto­gra­fia e lite­ra­tura é sem­pre uma mis­tura tão gos­tosa. abraços!

  2. Ole­ga­rio Schmitt
    11 de novembro de 2010

    Nossa, que comen­tá­rio mais rico esse seu.
    Real­mente, pin­ce­lar as refle­xões com Proust é algo que acres­cen­tará bas­tante. Ten­ta­rei fazê-lo.
    Muito obri­gado pelo seu ACRÉSCIMO.

    Grande abra­çOle

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