Luz como Expressão

Em busca da luz-em-si

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Luz como Expressão

Em busca da luz-em-si

Publicado em 05 de dezembro de 2007 por Olegario Schmitt

Este tra­ba­lho não pro­cura ana­li­sar como o volume dos obje­tos é cons­truído atra­vés das inter-relações exis­ten­tes entre luz e som­bra, mas sim con­se­guir alcan­çar a pró­pria essên­cia da luz — a luz-em-si —, sem qual­quer outro ele­mento cons­ti­tuindo a ima­gem além dela mesma.

Sabendo-se que para alcan­çar a essên­cia de qual­quer coisa é neces­sá­rio aban­do­nar tudo o que é aces­só­rio à sua exis­tên­cia — che­gando enfim à dita coisa-em-si, onde ela, abs­tra­ta­mente, não é mais nada além de si mesma —, se per­ce­beu que a som­bra de uma mão, por exem­plo, tra­ria con­sigo uma série de sig­ni­fi­ca­dos, cada um deles nos dis­tan­ci­ando cada vez mais da essên­cia da luz a qual se buscava.

Dessa forma, optou-se pelo abs­tra­ci­o­nismo —“nenhum signo além da pró­pria luz” não havendo cone­xão direta com a rea­li­dade, libertou-se tam­bém do com­pro­misso com qual­quer tipo de signo além da pró­pria luz, pos­si­bi­li­tando que se alcan­çasse tanto maior liber­dade cri­a­tiva quanto interpretativa.

É impor­tante lem­brar que abs­trato não sig­ni­fica sem sen­tido, mas sim não-figurativo, que opera uni­ca­mente com idéias e com sua asso­ci­a­ções, não liga­das dire­ta­mente com a rea­li­dade sen­sí­vel1. Por outro lado, não sendo “nada”, pode ser qual­quer coisa e qual­quer coisa que seja, mesmo assim ainda será feita uni­ca­mente de luz.

A cons­tru­ção das ima­gens se deu, na ver­dade, de maneira bas­tante sim­ples: câmera pos­tada no tripé, “um can­vas feito de som­bra“lumi­ná­rias pro­je­tando som­bras ou refle­xos de obje­tos sobre uma folha de papel em branco — a qual, estando na penum­bra, forma um can­vas feito uni­ca­mente de som­bra, a ser pre­en­chido das for­mas que a ima­gi­na­ção permitir.

A inten­ção — que a prin­cí­pio poderá não ser ime­di­a­ta­mente alcan­çada pelo espec­ta­dor — é tra­tar a luz como conhe­ci­mento, a som­bra como igno­rân­cia, os obs­tá­cu­los que se ante­pa­ram entre a(s) fonte(s) de luz e o can­vas como per­cal­ços enfren­ta­dos na busca pelo conhe­ci­mento e os refle­xos repre­sen­tando o ato em si de pen­sar, por vezes dis­forme e sem­pre rode­ado pela escuridão.

Assim sendo, a série foi divi­dida em dois segmentos:

Pro­je­ções

Se pro­je­ção, em psi­ca­ná­lise, sig­ni­fica a trans­fe­rên­cia de culpa, meca­nismo com­pen­sa­dor que con­siste em atri­buir a outros os pró­prios sen­ti­men­tos, livrando-se o indi­ví­duo de res­pon­sa­bi­li­da­des e de con­fli­tos entre o desejo e o dever2, por con­se­guinte, pro­je­tar a luz sig­ni­fi­cará trans­fe­rir a luz.

Diante disso, problematiza-se: “inter­fe­rên­cias entre emis­sor e recep­tor“é pos­sí­vel trans­mi­tir o conhe­ci­mento sem qual­quer tipo de inter­fe­rên­cia entre emis­sor e receptor?

Sabe­mos que não: nesse seg­mento de cinco ima­gens, a luz é pro­je­tada dire­ta­mente sobre o can­vas, sofrendo em seu cami­nho inter­rup­ções mais ou menos abrup­tas — obs­tá­cu­los cons­truí­dos pelo pró­prio ser com obje­tos (con­cei­tos), os quais aca­bam por pro­du­zir som­bras — entre a fonte e seu des­tino final que será, obvi­a­mente, o pró­prio homem (o qual, não por acaso, é repre­sen­tado pela escu­ri­dão completa).

Refle­xões

Nas cinco ima­gens finais, a luz é refle­tida, pos­si­bi­li­tando a lei­tura de que toda refle­xão é a pro­je­ção dis­tor­cida da coisa sobre a qual se reflete, uma vez que refle­tir, por exten­são de sen­tido, é inter­pre­tar, ou seja, adi­vi­nhar a sig­ni­fi­ca­ção de por indu­ção, dar certo sen­tido a, enten­der, jul­gar3.

Quando refle­tida, a luz é des­vi­ada, afas­tada do seu cami­nho ori­gi­nal. Por isso, nessa “des­vi­ada de seu cami­nho“seqüên­cia, foram uti­li­za­dos obje­tos de cozi­nha, como facas, fati­a­dor de pizza, escu­ma­deira, etc., ou seja, tudo aquilo que, se por um lado é uti­li­zado para que se possa inge­rir algo, por outro, ao cum­prir sua uti­li­dade, acaba jus­ta­mente por cor­tar, divi­dir, afas­tar uma parte do todo.

Mas tal­vez não devês­se­mos pen­sar4 tanto sobre o sen­tido disso tudo, ado­tando um pen­sa­mento mais à maneira de Alberto Caeiro, o qual diz que toda a sabe­do­ria a res­peito das cou­sas nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cou­sas; se a ciên­cia quer ser ver­da­deira, que ciên­cia mais ver­da­deira que a das cou­sas sem ciên­cia? e que o único sen­tido íntimo das cou­sas é elas não terem sen­tido íntimo nenhum5.

Parece ser “cons­truir para des­truir“con­tra­di­tó­rio cons­truir toda uma lógica sobre o sen­tido dessa inter­pre­ta­ção par­ti­cu­lar da luz para depois destruí-lo. É sabido que os refle­xos (ou refle­xões) e as pro­je­ções têm em si a sua beleza.

Porém, sendo toda arte uma inter­pre­ta­ção — e, por con­se­guinte, uma dis­tor­ção, algo que sofreu uma inter­fe­rên­cia (o pró­prio meio) entre sua con­cep­ção e sua exe­cu­ção —, tal­vez seja inú­til pro­cu­rar nela qual­quer sen­tido fiel, tal­vez devês­se­mos por isso mesmo ape­nas contempla-la, admirando-a ou não, sensibilizando-se por ela ou não, sem emi­tir qual­quer juízo além desses.

Afi­nal, se esta­mos falando da Luz como Expres­são, a inter­pre­ta­ção da expres­são da luz, assim como todo sen­tido que uma obra de arte possa ter, como se nota, serão lá outras coi­sas, por vezes dis­tan­tes da pró­pria luz e da pró­pria obra, e seria inte­res­sante se elas pudes­sem se sus­ten­tar, pre­ten­si­o­sa­mente, ape­nas em si mesmas.

1 HOU­AISS, Antô­nio. Dici­o­ná­rio Ele­trô­nico Hou­aiss de Lín­gua Por­tu­guesa. Rio de Janeiro: Ed. Obje­tiva, 2002.
2 BUENO, Fran­cisco da Sil­veira. Dici­o­ná­rio Esco­lar da Lín­gua Por­tu­guesa. Rio de Janeiro: FAE, 1986.
3 HOU­AISS, Antô­nio. Dici­o­ná­rio Ele­trô­nico Hou­aiss de Lín­gua Por­tu­guesa. Rio de Janeiro: Ed. Obje­tiva, 2002.
4 dis­tor­cer
5 CAEIRO, Alberto. Poe­mas Com­ple­tos. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fron­teira, 2006.

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