Foto­gra­fia digi­tal não é Fotografia

Deixe de macaquices!

Fotografia

Foto­gra­fia digi­tal não é Fotografia

Deixe de macaquices!

Publicado em 03 de novembro de 2009 por Olegario Schmitt

Ele­men­tar: foto-grafia, escrita da luz.

Aque­les que “batem” fotos uti­li­zam muito a expres­são foto­gra­fia ana­ló­gica... As pes­soas inven­tam cada coisa, não é?! Pri­meiro, não entendo o porquê de tanto ódio, dessa neces­si­dade de ficar batendo na foto como se ela tivesse feito alguma coisa de ruim. Segundo... o que exa­ta­mente quer dizer “analógico”?

Ana­ló­gico vem de ana­lo­gia, ou seja, é algo que apre­senta rela­ção ou seme­lhança entre coi­sas ou fatos. Con­si­de­rar uma foto­gra­fia como sendo ana­ló­gica, por­tanto, é retro­ce­der ao pen­sa­mento“ana­ló­gico: seme­lhança” posi­ti­vista dis­se­mi­nado no século XIX que con­si­de­rava a foto­gra­fia como “cópia exata, repro­du­ção fiel da rea­li­dade”. Ou seja, quem diz “foto­gra­fia ana­ló­gica” está dizendo de maneira implí­cita que a foto­gra­fia é algo mera­mente cien­tí­fico, jamais sendo fruto de cri­a­ção e/ou inter­pre­ta­ção por parte do agente por trás da câmera.

Dessa forma, dizer “foto­gra­fia ana­ló­gica” é o mesmo que cha­mar o fotó­grafo de macaco, ou seja, de mero aper­ta­dor de botões. Não que estes não exis­tam, mas na parte que me toca, acre­dito (ou pre­firo acre­di­tar) que faço bas­tante pro­veito dos 3% de carga gené­tica que me dife­ren­ciam de um chim­panzé. Por­tanto, se você diz “foto­gra­fia ana­ló­gica” saiba que o macaco, na ver­dade, é você.

Quem foi, afi­nal, que disse que ana­ló­gico é antô­nimo de digi­tal? Onde está escrito isso? O Auré­lio, vulgo amansa-burros, diz que ana­ló­gico é forma de medida ou repre­sen­ta­ção de gran­de­zas na qual um sen­sor ou indi­ca­dor acom­pa­nha de forma con­tí­nua, sem hia­tos nem lacu­nas, “antô­nimo?“a vari­a­ção da gran­deza que está sendo medida ou repre­sen­tada. Seja lá o que isso sig­ni­fica, não está lis­tado ana­ló­gico como sendo o con­trá­rio de digi­tal. A não ser, obvi­a­mente, que este­ja­mos falando de reló­gios. Mas se você não con­se­gue dife­ren­ciar um reló­gio de uma câmera, tal­vez devesse apri­mo­rar seu talento inato para subir em árvores.

Considerando-se que o digi­tal é o [novo] padrão então haverá somente foto­gra­fia digi­tal e não-digital. Quer dizer, isso se “foto­gra­fia digi­tal” fosse real­mente foto­gra­fia, é claro.

Na foto­gra­fia (entenda-se: cap­tura não-digital), após a inter­pre­ta­ção da cena pelo fotó­grafo, a luz que bate nos obje­tos é refle­tida para den­tro da câmera sen­si­bi­li­zando, por fim, o suporte. É jus­ta­mente nesse suporte (pelí­cula, papel, etc.) onde a luz ficará escrita. Como se nota, quem “escreve” a ima­gem no suporte é a luz pro­pri­a­mente dita.

No caso da “foto­gra­fia digi­tal” a ima­gem não fica regis­trada no CCD (charged-couple device, ou sim­ples­mente sen­sor digi­tal): ela é ime­di­a­ta­mente inter­pre­tada por ele e con­ver­tida em bits, ou seja, em seqüên­cias absur­das de zeros e uns.

Se para cada foto­gra­fia uti­li­zás­se­mos um CCD dife­rente e esta ficasse regis­trada NELE, então seria “foto-grafia”. Essa foto­gra­fia “gra­fia“que a gente vê no com­pu­ta­dor, bem, essa coisa sequer existe de ver­dade. Se você acha que existe, então pegue uma (pegar = segu­rar com a mão) e traga pra eu ver. Eis aí uma cena que eu ado­ra­ria fotografar.

No caso da ima­gem impressa, pro­cesso esse a que cha­ma­mos comu­mente de saída foto­grá­fica, a ima­gem é escrita com tinta, não diferenciando-se muito, strictu sensu, daque­les bilhe­ti­nhos que você deixa gru­da­dos na geladeira.

Ima­gem digi­tal é uma inter­pre­ta­ção da luz feita por um dis­po­si­tivo ele­trô­nico pro­gra­mado, cujo resul­tado final será uma ima­gem tam­bém ele­trô­nica ou feita de tinta.

Por outro lado, em se tra­tando de saída digi­tal em papel fotos­sen­sí­vel (uma ima­gem digi­tal é pro­je­tada sobre um papel foto­grá­fico), então não vejo pro­ble­mas em cha­mar a isso de foto­gra­fia, “trans­fi­gu­ra­ção” afi­nal a foto (luz) foi gra­fada no papel em algum momento. Claro, isso é uma trans­fi­gu­ra­ção com­pleta do que se con­si­dera o pro­cesso foto­grá­fico clás­sico, mas essa já é bem outra discussão.

O impor­tante aqui é lem­brar que as coi­sas têm deter­mi­nado nome por um motivo e cha­mar ele­fante de bor­bo­leta poderá aca­bar gerando um pro­blema de peso, prin­ci­pal­mente se o pri­meiro deles pen­sar que poderá voar devido ao seu nome.

Para encer­rar, deixo essa pérola de Mario Quin­tana, o qual impli­cava muito com o sen­tido das pala­vras e que sem­pre vem muito a calhar:

Apo­ca­lipse

Mario Quin­tana

E eis que veio uma peste e aca­bou com todos os homens.
Mas em com­pen­sa­ção fica­ram as bibli­o­te­cas.
E nelas estava escrito o nome de todas as coi­sas.
Mas as coi­sas podiam chamar-se agora como bem qui­ses­sem.
E então o Pão de Açú­car se decla­rou Man­ce­ni­lha.
E o hipo­pó­tamo só aten­dia por tico-tico.
E houve por tudo um grande espre­gui­ça­mento de alí­vio.
E Nosso Senhor ficou para sem­pre livre da ter­rí­vel cam­pa­nha dos comu­nis­tas.
E das apo­lo­gé­ti­cas de Tris­tão de Athayde.

Comentários

  1. Fabrí­cio Fortes
    11 de novembro de 2009

    belo blog! é bom encon­trar dis­cus­sões inte­res­san­tes como essa em espa­ços ines­pe­ra­dos.
    vol­ta­rei mais vezes.
    abs

  2. Ole­ga­rio Schmitt
    12 de novembro de 2009

    Obri­gado, Fabrício.

    Abra­çOle

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