Fotografia como forma de ver a vida

A sensibilidade ISO como parábola para a sensibilidade das pessoas

Fotografia

Fotografia como forma de ver a vida

A sensibilidade ISO como parábola para a sensibilidade das pessoas

Publicado em 16 de novembro de 2008 por Olegario Schmitt

Autoretrato Lendo o Manual - ISO Baixo / ISO Alto

Filmes fotográficos possuem essa propriedade chamada ISO que é fator determinante do nível de sensibilidade das películas à luz: quanto maior o ISO, menor a quantidade de luz necessária para impressioná-las e vice-versa. Em situações iluminação idêntica, quanto maior o ISO, menor o tempo de captura necessário para registrar a cena (ou “sensibilizar o filme”, no jargão).

Dessa forma, situações com grande intensidade de luz (praia em dia de sol, por exemplo) exigem ISO baixo — se você já fez fotos na praia utilizando um filme de ISO 400 é provável que suas fotos tenham ficado esbranquiçadas (ou superexpostas, no jargão), pois o mais adequado para essa situação seria um filme de ISO 100. Se você já tentou registrar fotos noturnas com sua câmera sem flash certamente a maioria delas ficaram ou escuras (subexpostas) ou então borradas. Isso se dá porque em ambientes de baixa luminosidade ou você aumenta o tempo de exposição da foto (“deixa a foto batendo por mais tempo”, em expressão leiga), “algumas tecnicidades”ou utiliza filme de sensibilidade mais alta (maior ISO).

Isso acontece porque nos filmes de ISO baixo, o tamanho dos grãos de sal de prata é bem pequeno, exigindo maior número de raios luminosos até que sejam sensibilizados. Já nos filmes de ISO alto, esses grãos são bem maiores — muitas vezes ficam visíveis na própria imagem, daí o aspecto granulado de algumas fotos —, permitindo com que cada mísero raio de luz o acerte com extrema facilidade.

Para esse evento, a sensibilização do sal de prata através de um raio luminoso, entre outros utilizamos o jargão “impressionar o filme”.

Impressionante, na verdade, é que o mesmo acontece com as pessoas: “pessoas de ISO alto, pessoas de ISO baixo”é possível classificá-las, como negativos fotográficos, em pessoas de ISO baixo e pessoas de ISO alto: as primeiras exigem grande quantidade de luz, ou seja, de eventos realmente grandiosos para que consigam ser sensibilizadas; já as pessoas do segundo grupo, de alta sensibilidade, qualquer mínimo acontecimento já é o suficiente para impressioná-las.

Mas tudo tem seu preço: as pessoas de ISO baixo precisam de maior tempo de observação para registrar os fatos, mas ficam com imagens mais nítidas dos eventos quando finalmente isso acontece; as pessoas de ISO alto registram as mínimas sensações instantaneamente, porém as imagens que guardam dos fatos são granuladas.

Sob esse mesmo raciocínio, as primeiras têm um conhecimento mais profundo das coisas, alcançando a sutileza das nuances e a riqueza dos meios-tons, enquanto que as segundas, mais facilmente impressionáveis, são imediatistas e cada mínimo detalhe obscuro as sensibiliza, a tudo registrando com imensa velocidade e, obviamente, sofrendo muito mais por isso.

Porém, se considerarmos que as pessoas vivem todas mais ou menos na mesma velocidade, então“viver na superfície” algumas, com ISO baixo, não registrarão a maioria das coisas, enquanto que às outras nada lhe escapará às sensações.

É tudo uma questão de timing: eremitas vivendo em montanhas teriam mais tempo de observar tudo com calma, mas nós aqui embaixo nos atropelamos o tempo todo. Assim, apenas as pessoas de ISO alto têm boa dose de emoções, pois ser de ISO baixo na sociedade contemporânea é o mesmo que viver na superfície das coisas.

Os dois tipos de películas e de pessoas são igualmente imprescindíveis e é importante lembrar a existência de um bom número de variações possíveis entre os dois extremos.

Para nossa sorte, com o advento da fotografia digital, não precisamos“sensibilidade ajustável on-the-go mais ficar presos ao ISO do filme dentro da câmera: agora podemos escolher aquele mais adequado a cada cena. O eletrônico nos trouxe até certo ponto a possibilidade de sermos mais humanos ou, pelo menos, maior liberdade para escolhermos quais fatos nos sensibilizarão em detrimento de outros — desde que se saiba utilizar corretamente o equipamento, é claro.

O ajuste fino de nossas vidas, assim como o das câmeras, exige prática constante aliada ao bom senso e, sobretudo, à observação. Mesmo que já não tenhamos mais tempo para nada, é bom aprendermos a utilizar nosso olhar-câmera de maneira adequada: por via das dúvidas nunca é demais darmos uma boa lida nos Manuais, você não acha?

Comentários

  1. Luciana Ponce
    20 de julho de 2009

    Sabe, Olegário, às vezes ainda me surpreendo ao lembrar do amigo que foi.
    Este texto me fez lembrar o que me fazia te escolher apesar de TANTAS diferenças.
    Gostei muito de passar por aqui depois de tanto tempo. Gosto muito. Sinto saudades do amigo.
    Um beijo

Contribua com sua opinião

Designed by