Exposição de Sophie Ristelhueber

Sensibilidade à flor da pele

Fotografia

Exposição de Sophie Ristelhueber

Sensibilidade à flor da pele

Publicado em 01 de março de 2009 por Olegario Schmitt

Pensando em Ristelhueber (Paris, 01/03/2009)

Exposição: Sophie Ristelhueber
Curadoria: Marta Gili
Data: 01/03/2009
Local: Jeu de Paume – Paris/França


Fotógrafa interessantíssima e bastante competente, a qual eu não conhecia anteriormente.

Sua exposição, concomitante à de Robert Frank, ocupava espaço expositivo bastante amplo, com pé direito de aproximadamente 3 metros de altura. As imagens, aproximadamente 30, quadradas e em tamanho grande (aprox. 1,5m x 1,5m), mostravam texturas praticamente abstratas formadas por coisas destruídas em decorrência da explosão de bombas no Iraque.

Note-se que essa é uma temática recorrente da fotógrafa, conforme tive a chance de pesquisar mais tarde: ela registra as cicatrizes deixadas na terra em decorrência da ocupação humana, principalmente através da guerra. Seus temas geralmente mostram restos de explosões ou incêndios, estradas destruídas por bombas.

Muitas imagens aéreas, o a série inteira praticamente uma monocromia, onde predominavam os tons amarelados e ocres. Uma das imagens dessa série mostrava uma estrutura carbonizada no meio do deserto, cujo esqueleto de aproximadamente 3 metros de altura lembrava muito o de uma câmera fotográfica.

Do lado oposto, nessa mesma sala, duas imagens de tamanho muito grande (2m de altura por 1,5m de largura, aproximadamente), mostrando cenários que muito provavelmente passariam despercebidos a nós, simples mortais da fotografia: numa, duas camas; entre elas, sobre o criado mudo, um abajour (uma luz para duas camas), com extremado detalhamento das texturas do tecido da colcha, do chão e do papel de parede, tudo muito nítido e cromático. Noutra, uma parte de um sótão, com uma luz impressionante entrando pela janela. Cenas corriqueiras, cotidianas, que apenas um olhar afiado como o de Ristelhueber é capaz de perceber.

Outra de suas obras era uma espécie de imersão entre virtual (imagem fotográfica) e realidade: uma imensa janela de vidro, ocupando toda uma parede do chão ao teto, ladeada por imagens de palmeiras numa praia. Ora, eis que o buraco do janelão parecia ser nada mais que uma continuação da foto em si. Era como se Paris (Jardin des Tuileries) fizesse parte daquela praia. Tudo isso ambientado pela recitação de um texto em francês do qual não entendi coisa nenhuma (era falado muito rápido, com uma entonação quase de reza). Também havia um banco exatamente em frente a essa obra, possibilitando ao público que sentasse para apreciar.

Intimamente a exposição às imagens dessa fotógrafa me provocam o estabelecimento de um paralelo entre a ocupação do espaço pelo corpo e a ocupação do corpo pelo tempo.

No primeiro caso, a ocupação do espaço (terras) pelo corpo (homem) através da força bélica deixa cicatrizes no solo. De maneira similar, no segundo caso, a ocupação do corpo (o corpo humano) pelo tempo (rugas e cicatrizes adquiridas ao longo da vida), também deixa suas marcas de vivência: sabemos que quanto mais “guerras” (exposição ao clima, preocupações da vida, vícios em substâncias ou hábitos) enfrenta uma pessoa ao longo da sua existência, mais rugas terá.

Assim sendo, Sophie Ristelhueber ter escolhido o Iraque como pele, digo, como cenário para captura de suas fotos, se mostra extremamente adequado: esse país é um corpo sem paz, exposto às intempéries da alma humana.

Você pode deixar sua opinião registrada

Seu ponto de vista é importante. A reação do leitor é um termômetro valioso para o autor.

Contribua com sua opinião

Designed by