Expo­si­ção de Edward Curtis

Cha­pas de vidro e cla­ras de ovo

Fotografia

Expo­si­ção de Edward Curtis

Cha­pas de vidro e cla­ras de ovo

Publicado em 14 de março de 2009 por Olegario Schmitt

Edward Cur­tis — Chefe Joseph (1908)

Expo­si­ção: Edward Cur­tis
Cura­do­ria: Chris­topher Cardozo/João Kulc­sár
Data: 14/03/2009
Local: Caixa Cul­tu­ral São Paulo (Sé)


Não pode­ria per­der jamais a expo­si­ção do “cara” que foto­gra­fou o Chefe Joseph, uma vez que toda vez que penso em índio ame­ri­cano, logo me vem à mente essa foto de Curtis.

Tra­ba­lho emo­ci­o­nante: Cur­tis cap­tou de tal maneira cada cena, cada cená­rio, cada luz, cada expres­são, que foi uma grande aula de foto­gra­fia e de humanidade.

Des­ta­que a parte tam­bém para a imensa vari­e­dade de téc­ni­cas uti­li­za­das pelo fotó­grafo. Posso citar, entre outras, vira­gem em pla­tina, cia­nó­ti­pos, e uma tal de “vira­gem em ouro”, téc­nica desen­vol­vida por ele mesmo, que deixa a foto com fundo dourado.

Mais uma vez fui tomado por essa refle­xão recor­rente: Edward Cur­tis, no iní­cio do século pas­sado, com aque­las câme­ras mons­tru­o­sas que uti­li­zava, as quais tinham de ser car­re­ga­das em lombo de cavalo ou com car­ro­ças, uti­li­zando imen­sas cha­pas de vidro reco­ber­tas com clara de ovo, fazia as fotos que fazia; atu­al­mente, com todo o apa­rato tec­no­ló­gico facil­mente à nossa dis­po­si­ção, tínha­mos a obri­ga­ção de, no mínimo, fazer­mos melhor do que ele com todas as suas difi­cul­da­des técnicas.

No entanto não o faze­mos. Parece-me que quanto mais nos é dado, menos valor damos. O fotó­grafo pio­neiro, com todas as limi­ta­ções do seu apa­rato (as quais, obvi­a­mente, ele não via como limi­ta­ção), alcan­çava extrema qua­li­dade téc­nica e expres­siva; o fotó­grafo con­tem­po­râ­neo com sua falta de limi­tes parece bus­car sem­pre fazer pior.

Anna Arendt soube expri­mir com imensa pro­pri­e­dade em A Con­di­ção Humana, que o excesso de liber­dade traz con­sigo ine­vi­ta­vel­mente a per­mis­si­vi­dade (tudo pode), sendo que ao ter a liber­dade total (tudo posso), sem ter um rumo ou obje­tivo, sem regras ou nor­mas cla­ras, o ser humano se perde de sua essên­cia. Ao poder fazer tudo, o ser humano sim­ples­mente não sabe o que fazer e acaba por fazer bobagem.

Ou, com outras pala­vras, foi exa­ta­mente a falta de liber­dade exis­tente na época da dita­dura que fez com que os artis­tas bra­si­lei­ros se supe­ras­sem, pro­du­zindo aquela que, na minha opi­nião, foi a época mais rica da arte bra­si­leira. Nada como ter algo con­tra o qual lutar, nada como ter difi­cul­da­des a serem superadas.

Claro que isso é uma gene­ra­li­za­ção e que exis­tem exce­ções à regra. No entanto me parece que a cada dia as exce­ções são mais raras...

São essas coi­sas que ver uma expo­si­ção de Edwar Cur­tis (ou igual­mente Marc Fer­rez) me faz pensar.

Comentários

  1. Felipe Ber­ta­relli
    1 de dezembro de 2010

    vira­gem ouro da um tom azu­lado na ima­gem, fica a dica

  2. Ole­ga­rio Schmitt
    1 de dezembro de 2010

    A vira­gem a ouro do Cur­tis é um pro­cesso desen­vol­vido por ele e uti­li­zado ape­nas por ele, pois dema­si­ado com­plexo e caro. E quando digo “com­plexo e caro” quero dizer “MUITO com­plexo e MUITO caro”.

    Essa vira­gem da qual você fala, o Método de Somer­ville, é outra coisa.

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