“O ser é tão pouco como o não-ser; o devir é e também não é”.
Heráclito de Éfeso
O Ser Humano, assim como a existência das coisas, é essencialmente dualista. Tal conceito pode ser encontrado nas mais diferentes culturas, ciências, religiões e filosofias. Para que algo realmente seja (exista), é preciso que haja outra coisa em contrário (bem/mal, claro/escuro), de forma que se estabeleça relação referencial.
Sendo mais usual a busca por tudo o que é, ou seja, a tentativa de capturar a essência ou aquilo que define uma pessoa, lugar ou objeto, aqui se inicia longo caminho justamente em direção contrária: esse é dos primeiros passos na tentativa ainda embrionária de encontrar aquilo que não é, a essência do não-ser, “duplo” do ser.
Dessa forma DezAtinos, série fotográfica composta por dez imagens onde aparece o número 10 (dez), trata-se, de certa forma, de uma espécie de brincadeira semiótica através da transfiguração dos signos: com a junção da fonética do signo “dez” àquela dos signos fotografados, tenta-se alcançar por via não-convencional (daí a expressão “brincadeira”), novos significados que, por sua vez, poderão ser ambíguos, permitindo dupla interpretação.
“Des-”, prefixo de origem latina com o qual a série dialoga de maneira bem-humorada apesar do seu fundo“só pode deixar de ser o que um dia já foi” essencialmente negativo, designa aqui tudo aquilo que deixou de ser. É importante ressaltar que só pode deixar de ser o que um dia já foi: para que determinado tipo de café seja descafeinado, por exemplo, é forçoso, via de regra, que tenha possuído cafeína antes. Assim sendo, esse prefixo poderá exprimir, por um lado, sentido de oposição, negação ou falta, separação ou afastamento e, por outro, justamente o aumento, o reforço, dessa ausência.
São imagens que não devem ser vistas apenas com os olhos, mas também com os ouvidos. A primeira reação, natural, ante essa “brincadeira” geralmente é a do riso. Porém um segundo olhar, “devem ser vistas também com os ouvidos“mais aprofundado, mostrará estarem retratados os sentimentos mais íntimos do fotógrafo, assim como o seu estado de espírito (fundado ou não), presentes à hora da captura. Perceber-se-á também a temática depreciativa, depressiva e, por vezes, até mesmo de tendência suicida. Não podendo ser de outra maneira, a condição ambígua faz-se presente ainda mais uma vez nesse momento, possibilitando essas reações dicotômicas variando entre o riso e a reflexão introspectiva.
O prefixo “des-”, aqui personificado pelo número 10, adquire, como já foi dito, o sentido de não-ser de um outro signo, o qual sequer está imageticamente representado: a perda de algo que já existiu no passado e cuja falta agora toma corpo, adquirindo nova existência.
Deste modo, esse “Um, o Tudo Zero, o Nada“cardinal, encerrando em si ao mesmo tempo a existência (o Um, o Tudo) e a não-existência (o Zero, o Nada), não poderia ser mais adequado para exprimir, dessa maneira essencialmente ambígua, aquilo que se quer dizer.
Ao descortinar o caminho ambivalente dos opostos complementares, assim como das coisas que são e não são ao mesmo tempo, DezAtinos tem a intenção de chamar à reflexão o eterno devir existencial e a roda da fortuna emocional, assim como a peremptoriedade das posses, sejam elas físicas ou espirituais; quer trazer à consciência o fato de que se por um lado nada dura para sempre, por outro tudo aquilo que deixa de existir, passa a existir novamente.










Comentários
Gostei muito daqui e o adicionei em meus favoritos. Excelente!!! Chris
ola ole! adorei tudo; a ode à alegria, linda; a homenagem para Andy; o grupo da estação; saudades de vc. beijo rooz
Olé, ole que drible com a filosofia. Quem cuida do cuidador, vemos no SUS o incentivo ao controle social mas com os usuários não enxergando o CUIDADOR que, ou seja, aquele que lhe cuida das dores.
lindo isso!
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