DezA­ti­nos

Ser E Não-Ser, eis a resposta!

Fotografia

DezA­ti­nos

Ser E Não-Ser, eis a resposta!

Publicado em 20 de junho de 2007 por Olegario Schmitt

O ser é tão pouco como o não-ser; o devir é e tam­bém não é”.
Herá­clito de Éfeso

O Ser Humano, assim como a exis­tên­cia das coi­sas, é essen­ci­al­mente dua­lista. Tal con­ceito pode ser encon­trado nas mais dife­ren­tes cul­tu­ras, ciên­cias, reli­giões e filo­so­fias. Para que algo real­mente seja (exista), é pre­ciso que haja outra coisa em con­trá­rio (bem/mal, claro/escuro), de forma que se esta­be­leça rela­ção referencial.

Sendo mais usual a busca por tudo o que é, ou seja, a ten­ta­tiva de cap­tu­rar a essên­cia ou aquilo que define uma pes­soa, lugar ou objeto, aqui se ini­cia longo cami­nho jus­ta­mente em dire­ção con­trá­ria: esse é dos pri­mei­ros pas­sos na ten­ta­tiva ainda embri­o­ná­ria de encon­trar aquilo que não é, a essên­cia do não-ser, “duplo” do ser.

Dessa forma DezA­ti­nos, série foto­grá­fica com­posta por dez ima­gens onde apa­rece o número 10 (dez), trata-se, de certa forma, de uma espé­cie de brin­ca­deira semió­tica atra­vés da trans­fi­gu­ra­ção dos sig­nos: com a jun­ção da foné­tica do signo “dez” àquela dos sig­nos foto­gra­fa­dos, tenta-se alcan­çar por via não-convencional (daí a expres­são “brin­ca­deira”), novos sig­ni­fi­ca­dos que, por sua vez, pode­rão ser ambí­guos, per­mi­tindo dupla interpretação.

Des-”, pre­fixo de ori­gem latina com o qual a série dia­loga de maneira bem-humorada ape­sar do seu fundo“só pode dei­xar de ser o que um dia já foi” essen­ci­al­mente nega­tivo, designa aqui tudo aquilo que dei­xou de ser. É impor­tante res­sal­tar que só pode dei­xar de ser o que um dia já foi: para que deter­mi­nado tipo de café seja descafei­nado, por exem­plo, é for­çoso, via de regra, que tenha pos­suído cafeína antes. Assim sendo, esse pre­fixo poderá expri­mir, por um lado, sen­tido de opo­si­ção, nega­ção ou falta, sepa­ra­ção ou afas­ta­mento e, por outro, jus­ta­mente o aumento, o reforço, dessa ausência.

São ima­gens que não devem ser vis­tas ape­nas com os olhos, mas tam­bém com os ouvi­dos. A pri­meira rea­ção, natu­ral, ante essa “brin­ca­deira” geral­mente é a do riso. Porém um segundo olhar, “devem ser vis­tas tam­bém com os ouvi­dos“mais apro­fun­dado, mos­trará esta­rem retra­ta­dos os sen­ti­men­tos mais ínti­mos do fotó­grafo, assim como o seu estado de espí­rito (fun­dado ou não), pre­sen­tes à hora da cap­tura. Perceber-se-á tam­bém a temá­tica depre­ci­a­tiva, depres­siva e, por vezes, até mesmo de ten­dên­cia sui­cida. Não podendo ser de outra maneira, a con­di­ção ambí­gua faz-se pre­sente ainda mais uma vez nesse momento, pos­si­bi­li­tando essas rea­ções dicotô­mi­cas vari­ando entre o riso e a refle­xão introspectiva.

O pre­fixo “des-”, aqui per­so­ni­fi­cado pelo número 10, adquire, como já foi dito, o sen­tido de não-ser de um outro signo, o qual sequer está ima­ge­ti­ca­mente repre­sen­tado: a perda de algo que já exis­tiu no pas­sado e cuja falta agora toma corpo, adqui­rindo nova existência.

Deste modo, esse “Um, o Tudo Zero, o Nada“car­di­nal, encer­rando em si ao mesmo tempo a exis­tên­cia (o Um, o Tudo) e a não-existência (o Zero, o Nada), não pode­ria ser mais ade­quado para expri­mir, dessa maneira essen­ci­al­mente ambí­gua, aquilo que se quer dizer.

Ao des­cor­ti­nar o cami­nho ambi­va­lente dos opos­tos com­ple­men­ta­res, assim como das coi­sas que são e não são ao mesmo tempo, DezA­ti­nos tem a inten­ção de cha­mar à refle­xão o eterno devir exis­ten­cial e a roda da for­tuna emo­ci­o­nal, assim como a peremp­to­ri­e­dade das pos­ses, sejam elas físi­cas ou espi­ri­tu­ais; quer tra­zer à cons­ci­ên­cia o fato de que se por um lado nada dura para sem­pre, por outro tudo aquilo que deixa de exis­tir, passa a exis­tir novamente.

Comentários

  1. Chris­ti­ani Rodrigues
    7 de julho de 2007

    Gos­tei muito daqui e o adi­ci­o­nei em meus favo­ri­tos. Exce­lente!!! Chris

  2. Roosi Zanon
    1 de agosto de 2007

    ola ole! ado­rei tudo; a ode à ale­gria, linda; a home­na­gem para Andy; o grupo da esta­ção; sau­da­des de vc. beijo rooz

  3. Edu­ardo Silva
    21 de agosto de 2007

    Olé, ole que dri­ble com a filo­so­fia. Quem cuida do cui­da­dor, vemos no SUS o incen­tivo ao con­trole social mas com os usuá­rios não enxer­gando o CUI­DA­DOR que, ou seja, aquele que lhe cuida das dores.

  4. mari­ana
    10 de setembro de 2007

    lindo isso!

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