A Realidade na Imagem

O que é Realidade… na Imagem?

Fotografia

A Realidade na Imagem

O que é Realidade… na Imagem?

Publicado em 05 de dezembro de 2007 por Olegario Schmitt

Escher - Autorretrato

O grande problema na maioria das discussões sobre fotografia — principalmente as mais antigas — é que muitas vezes se toma esse tipo de arte sob o ângulo da “reprodução do real”, não podendo existir estultice maior do que essa. Mesmo que esse approach possa vir de Baudelaire1, por exemplo, não passará disso: estultice. E até mesmo os grandes gênios cometem as suas.

Fotografia é uma representação iconográfica fragmentária da realidade2. Só nesse conceito já se nota o quão distante do real se encontra. Tendo, porém, “valor de real”, é justamente isso o que causa toda a confusão. Como é necessário a existência física de algum objeto e da luz3 — efetivamente eles estiveram lá naquele determinado momento — se pensa que a imagem fotográfica é a cópia fiel de algo que existiu.

Porém, antes de se discutir se a fotografia é real ou não se deveria discutir o que, afinal, é o “real”. Quer a questão “o que é o Real”seja analisada sob o ponto de vista de Karl Jaspers, com sua teoria dos juízos de realidade4, quer seja analisada sob as visões de Kant, Platão, Heráclito e outros, não se chegará a lugar algum além de que “real” é algo extremamente relativo.

Não sendo possível, portanto, sequer chegar a um consenso sobre o que seria real ou não — ou sobre nossa capacidade de acessá-lo e capturá-lo —, a discussão onde se pretende provar (ou não) o realismo fotográfico é completamente sem sentido, sobretudo se levarmos em conta que, desde o princípio, a fotografia sofreu intervenções as mais diversas por parte dos fotógrafos.

O Pictorialismo, por exemplo, nascido do conflito psicológico existencial entre arte tradicional e fotografia — por um lado, a fotografia precisava compensar sua baixa auto-estima provando que era “Pictorialismo, baixa auto-estima e insegurança” arte, por outro, a arte tentava superar sua insegurança e complexo de inferioridade diante da representação do real provando ser capaz de reproduzir “fotograficamente” a realidade — talvez seja o que melhor exemplifique a intervenção na “realidade” que ocorre dentro da fotografia. E nisso, ela não se diferencia em nada da pintura: as duas são atos criativos, não estando vinculados ao real senão pela ilusão do pensamento.

A fotografia não é cópia da realidade, pois tal coisa sequer é possível. Ponto. Se for “cópia”, já aí será outra coisa, e a discussão deveria terminar aqui.

No entanto, as “carpideiras” do meio artístico preferem discorrer sobre se a fotografia substitui a pintura ou vice-versa, se a fotografia é real ou não e, talvez, seja por isso mesmo que a arte em geral, “carpideiras artísticas”a partir do modernismo, está cada vez mais vazia de sentido: muito se discute sobre o “como”, o “de que forma”, relegando-se o “que” a segundo plano: como isso foi produzido, se é cópia fiel de algo que existiu ou não, etc., deveriam ser discussões ultrapassadas, importando apenas o “que”: é bonito ou não, produz emoções ou não.

Parece que de tanto se discutir sobre qual seria a melhor maneira de se percorrer a distância entre dois pontos — a pé ou a cavalo? — se olvida o fato de que qualquer que seja a maneira escolhida, cada uma trará suas vantagens e desvantagens, como tudo na vida e, sobretudo, não importa se você vai a pé ou a cavalo, o que importa é onde você chegou depois da jornada.

Uma imagem não deve ser tratada no Photoshop porque “deturpa” a realidade? Cria ou esconde coisas diferentes das existentes na “realidade” do modelo? “Photoshop ‘deturpa’ a Realidade?”Deixemos essas discussões àqueles que vivem na Idade da Pedra artística, que fiquem eles discutindo o sexo dos anjos, o “como”, o “de que forma”, enquanto que os verdadeiros artistas devem se sentir livres para percorrer os seus caminhos da maneira que melhor lhes aprouver, porque o que importa mesmo é o destino.

Retirar rugas eletronicamente da face de um modelo não é mais ou menos arte do que a fotografia, digo, a pintura de D’us insuflando vida a Adão no teto da Capela Sistina mas, é claro, há “artes” e artes sendo, portanto, mais importante que nos dedicássemos a chegar — a pé ou a cavalo, não importa — a algo o mais próximo possível de um Michelangelo do que de um penico de Duchamp5.

1 BAUDELAIRE, Charles. Le public moderne et la photographie. Paris : Révue Française, 1859.
2 KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. Cotia: Ateliê Editorial, 2002.
3 COUCHOT, Edmond. A tecnologia na arte: da fotografia à realidade virtual. Porto Alegre: URGS, 2003.
4 JASPERS, Karl. Escritos Psicopatológicos. Madri: Editorial Gredos, 1977.
5 DUCHAMP, Marcel. Fountain. New York: Society of Independent Artists Exhibit, 1917.

Comentários

  1. Vinícius Mariano
    17 de março de 2008

    hahahahaha adorei “as carpideiras do meio artístico” 😀

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