A Foto­gra­fia, essa velha de 165 anos

Pequena his­tó­ria da foto­gra­fia, na oca­sião dos seus 165 anos.

Fotografia

A Foto­gra­fia, essa velha de 165 anos

Pequena his­tó­ria da foto­gra­fia, na oca­sião dos seus 165 anos.

Publicado em 19 de agosto de 2004 por Olegario Schmitt

Foto­gra­fia: do grego pho­tós (luz) + graphía (escrita) = escrita da luz.

A foto­gra­fia tem sua ori­gem a par­tir da sín­tese de diver­sas obser­va­ções e inven­tos ao longo dos sécu­los. Alguns his­to­ri­a­do­res dizem que o con­ceito da Câmara Escura teve sua ori­gem com o chi­nês Mo Tzu, no século V a.C., outros que sur­giu com Aris­tó­te­les (384–322 a.C).

Diz-se que Aris­tó­te­les, enquanto obser­vava um eclipse solar sen­tado embaixo de uma árvore, viu que os seus raios, pas­sando por um pequeno ori­fí­cio entre as folhas, pro­je­ta­vam a ima­gem do eclipse no chão. Per­ce­beu tam­bém que quanto menor o ori­fí­cio, mais nítida era a imagem.

A pri­meira: Joseph Nicéphore Niépce, 1826

Durante os sécu­los obs­cu­ros da cul­tura euro­péia, com os conhe­ci­men­tos gre­gos res­guar­da­dos no ori­ente, Ibn al Hai­tam (965‑1038), o Alha­zem, um eru­dito árabe, obser­vou um eclipse na Câmara Escura, na Corte de Cons­tan­ti­no­pla, no iní­cio do século VI.

Nos sécu­los seguin­tes, a Câmara Escura tornou-se comum entre os sábios euro­peus. Uti­li­zada sem­pre para a obser­va­ção de eclip­ses sola­res foi somente mais tarde, no século XIV, reco­men­dada como auxi­liar ao dese­nho e à pintura.

A pri­meira câmara escura era grande o sufi­ci­ente para per­mi­tir a entrada de um homem, mas no iní­cio do séc. XVII o equi­pa­mento era uma liteira ou uma tenda, pos­si­bi­li­tando que fosse trans­por­tada para o campo para esbo­ços de paisagens.

A pri­meira pes­soa a con­se­guir o regis­tro per­ma­nente de uma ima­gem foi o físico fran­cês Joseph Nicéphore Niépce (1765–1833). Seu regis­tro, ocor­rido em 1826, foi obtido expondo-se uma placa metá­lica sen­sí­vel a luz (pel­tre) durante oito horas, e existe até hoje.

Auto-Retrato em daguer­reó­tipo — L. J. Daguerre

Na década de 1830, o inven­tor fran­cês Louis Jac­ques M. Daguerre (1787–1851) pro­du­ziu a pri­meira forma popu­lar de foto­gra­fia: o daguer­reó­tipo. Cola­bo­ra­dor de Niépce por vários anos, Daguerre expôs uma placa metá­lica sen­sí­vel à luz e reve­lou a ima­gem com vapor de mer­cú­rio, lixando-a com sal comum.

Auto-Retrato — Louis J. Daguerre (daguerreótipo)

Daguerre anun­ciou o seu pro­cesso em 19 de agosto de 1839, sendo essa a data ofi­ci­al­mente aceita como o iní­cio da foto­gra­fia. Ainda em 1839, o cien­tista bri­tâ­nico Wil­liam H. E. Tal­bot (1800–1877) anun­ciou que havia inven­tado o papel sen­sí­vel à luz. Esse papel, reco­berto com sal e nitrato de prata, pro­du­zia um nega­tivo a par­tir do qual se obti­nham as cópias.

Já na Ingla­terra, Wil­lian Henry Fox-Talbot (1800 — 1877), ten­tando fugir da patente do daguer­reó­tipo em seu país e solu­ci­o­nar suas limi­ta­ções téc­ni­cas, pes­qui­sava outras fór­mu­las de impres­si­o­nar qui­mi­ca­mente o papel, cri­ando um pro­cesso cha­mado tal­bo­ti­pia. Tal­bot publi­cou em 1844 o pri­meiro livro do mundo ilus­trado com foto­gra­fias, The Pen­cil of Nature, sendo tam­bém ele o inven­tor do pri­meiro nega­tivo, feito então com papel de boa qualidade.

Antoine Flo­rence: foto­gra­fia obtida no Bra­sil por con­tato sob ação da luz solar, c. 1833

Não se pode esque­cer, de forma alguma, o fran­cês Antoine Her­cu­les Romu­ald Flo­rence, che­gado ao Bra­sil em 1824 e que, sem qual­quer conhe­ci­mento do que rea­li­za­vam seus con­tem­po­râ­neos euro­peus Niépce, Daguerre e Tal­bot, obteve regis­tros foto­grá­fi­cos uti­li­zando com a câmara escura uma chapa de vidro e papel sen­si­bi­li­zado para a impres­são por contato.

Em 1859, Bau­de­laire, refle­tindo o impacto cau­sado pela foto­gra­fia na inte­lec­tu­a­li­dade euro­péia, acre­di­tava que a sua pre­ci­são dei­xava pouco ou nenhum espaço para a imaginação.

Disse ele: “se à foto­gra­fia for per­mi­tida suple­men­tar a arte em algu­mas de suas fun­ções, logo tê-la-á suplan­tado ou cor­rom­pido com­ple­ta­mente. Agra­de­ci­men­tos à estu­pi­dez da mul­ti­dão, que é sua ali­ada natu­ral”, dizendo tam­bém: “a foto­gra­fia não passa de refú­gio de todos os pin­to­res frus­tra­dos e que a foto­gra­fia era como uma arte abso­luta, um Deus vin­ga­tivo que rea­liza o desejo do povo... e Daguerre foi seu Mes­sias... Uma lou­cura, um fana­tismo se apo­de­rou des­tes novos ado­ra­do­res do sol!”

Bau­de­laire: “a foto­gra­fia não passa de refú­gio de todos os pin­to­res frustrados”

Bau­de­laire “esque­cido” e sendo a foto­gra­fia mais cati­vante para as pes­soas do que suas decla­ra­ções, foi em 1888, com o advento das câme­ras Kodak e o sis­tema de impres­são de meio-tons, que a foto­gra­fia foi levada ao alcance das pes­soas comuns.

Embora a foto­gra­fia colo­rida tenha sido inven­tada pelos irmãos Lumière em 1904 atra­vés do pro­cesso auto­cromo, sua popu­la­ri­za­ção deu-se ape­nas em 1935, quando a Kodak pas­sou a dis­tri­buir o filme Kodachrome.

Atu­al­mente, com o advento da foto­gra­fia digi­tal, fil­mes não são mais neces­sá­rios, embora os prin­cí­pios bási­cos da foto­gra­fia ainda sejam os mes­mos do século V a.C., mudando ape­nas a forma de registrá-la.
Na gera­ção mega­pi­xel, “fotó­gra­fos de ver­dade” ainda sen­tem uma atra­ção irre­sis­tí­vel pelo con­trole abso­luto no pro­cesso foto­grá­fico: nada pode subs­ti­tuir o pra­zer e o sus­pense de reve­lar um nega­tivo ou de ver a ima­gem sur­gir à sua frente, no papel mer­gu­lhado em pro­du­tos químicos.

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