A arte celibatária

Uma masturbação intelecto-fotográfica

Fotografia

A arte celibatária

Uma masturbação intelecto-fotográfica

Publicado em 26 de fevereiro de 2010 por Olegario Schmitt

Série Liserg Liliput Lexico

Independentemente de quantas elas sejam — o Manifesto das Sete Artes de Canudo1 já está démodé há algum tempo — e considerando-se seus respectivos processos criativos, talvez a fotografia possa ser considerada a arte mais celibatária de todas.

Obviamente toda forma de criação artística subentende a existência daquele momento de solidão onde o artista se isola completamente do mundo externo, entrando nessa espécie de estado de transe, de frenesi criativo.

O que parece diferenciar a fotografia das outras artes é que música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura, cinema, etc., são manifestações cujo ato de criação se dá na parte de fora do artista. “exoartes”Enquanto o musicista está compondo, as notas musicais são manifestadas em forma de sons ou de partituras escritas, o escritor materializa as palavras, o coreógrafo necessita ensaiar seus passos de dança no espaço físico extracorpóreo, e assim por diante. Com a licença da expressão, no que se refere à forma de criação, estas tratam-se de exoartes.

O problema que existe nessa afirmação é que não se pode saber ao certo a partir de qual momento uma fotografia, como arte, poderá ser considerada pronta. É após “quando a fotografia está pronta?”o clique? Após a pós-produção? Após a ampliação?

Esclareça-se que essa linha de pensamento foi construída sob o ponto de vista de que o clique seja, strictu sensu, o ato final de criação: o que acontece antes se assemelha à preparação do modelo que posará para a escultura, o que acontece depois se assemelha ao verniz passado sobre a pintura.

A fotografia pode ser chamada de arte celibatária porque durante esse processo criativo (inspiração, enquadramento, manuseio do aparelho) apenas o artista-fotógrafo vê o que se passa através do view-finder da câmera: o produto só existirá de fato, só poderá ser visualizado por outrem, após o efetivo clique.

Dessa forma os fotógrafos, devido ao meio, são celibatários criativos, são os onanistas das artes.

Daí todo fotógrafo ser essencialmente um ególatra, daí a dificuldade de se fazer fotografia coletiva. Os Coletivos Fotográficos, da forma como são apresentados publicamente, com todo os seus discursos e filosofias, parecem ser um embuste mascarando a realidade.

Não há fotografia coletiva, “coletivos”o que há é distribuição de tarefas: você fica com a produção, você com a iluminação, você com o tratamento de imagens.

Mas no final é apenas um único dedo que aperta o botão. E antes desse botão ser apertado, não existe arte fotográfica.

1 CANUDO, Ricciotto. Manifeste des sept arts. Paris: Séguier, 1995.

Comentários

  1. vinicius meireles
    11 de novembro de 2010

    Caro Olegário

    seu texto é do começo do ano mas ainda reflete questões bem atuais. Na fotografia, de repente iniciou-se essa discussão boba a respeito de coletivos, de perda de direito autoral… isso tudo foge da semântica da coisa. A imagem que você criou do fotógrafo enquanto um onanista, para mim é genial. Enquadramos as realidades como um ato de coito interrompido. A masturbação é total ao direcionarmos o nosso olhar para algo e dali não compartilharmos isso com alguém… digo assim desse jeito pois fotografar é um ato muito solitário, de fato. A fotografia funciona como uma grande ferramenta comunicacional. tanto que a partir dela podemos recriar várias situações com um mesmo clique. é injustíssimo comparar o ato de fotografar com outras atividades… mas fazer o que?De tão subjetiva, a foto rende várias discussões mesmo! adorei, espero que você escreva algo mais a respeito de foto, estarei no aguardo.

  2. Olegario Schmitt
    11 de novembro de 2010

    Hahahaha! Por falar em onanismo, há também aquela masturbação toda sobre lentes (“a minha é maior do que a sua”) e o fato de os fotógrafos se relacionarem com suas câmeras como se elas fossem não apenas extensões de seus órgãos sexuais, mas órgãos sexuais elas mesmas.

Contribua com sua opinião

Designed by