
Payadores — artista desconhecido
A payada (ou, aportuguesando-se, pajada) é uma forma poética nascida na campanha argentina e uruguaia nos meados do século XIX.
Suas raízes remontam aos romances e quadras medievais e renascentistas, de temática popular.
O payador, sempre acompanhado de violão, foi figura importante até mesmo nos campos de batalha, onde, dizem, lhe serviam o primeiro mate.
Dentre os maiores payadores gaúchos, o primeiro nome que salta à boca é, sem dúvida, Jayme Caetano Braun, seguido de perto, quando não lado a lado, por Noel Guarany. Ambos já falecidos, devem estar agora tomando um mate e declamando suas payadas para o “Patrão Velho”.
O Dia do Payador, em homenagem ao nascimento de Jayme Caetano Braun, é comemorado, segundo Lei Estadual, no dia 30 de janeiro. Mesmo assim, com o advento da Tchê-Music e devido ao baixo apelo comercial, a payada, em opinião pessoal, não é devidamente valorizada no Rio Grande do Sul.
O artigo que segue abaixo, escrito por Sheila Gomes e encontrado no Portal do Gaúcho, é estudo comparativo entre os personagens Martín Fierro, de José Hernández em El Gaucho Martín Fierro (1872) e La Vuelta de Martín Fierro (1879), e Blau Nunes, de Simões Lopes Neto em Contos Gauchescos (1912). Embora, assim como esse artigo, tenha se apresentado bastante longo para os aspectos fast-food atuais, é bem nutritivo pois, entre uma comparação e outra, abordam-se vários aspectos culturais, sociais, estruturais e etimológicos das payadas, valendo, portanto, a leitura. Ao final, uma prenda, somente para os “alunos” mais interessados.
Estrutura das narrativas
No estudo comparativo entre Martín Fierro e Blau Nunes, nos deparamos com duas formas distintas de narrativas, mas com um fator de unidade: a relação com a oralidade.
A poesia “gauchesca”, como temos em “El gaucho Martín Fierro” e “La vuelta de Martín Fierro”, tem origem nas payadas, que são versos improvisados pelos gaúchos, nas mais variadas situações de lida campeira ou de divertimento. Os temas poderiam ser sentimentais, a própria vida no campo e, principalmente, filosóficos. A payada, tem ainda origem na poesia dos trovadores provençais, onde havia um gênero, as “tensões”, que eram torneios em verso. A palavra procede do latim “tensio”, sustém, porque cada um dos campeões sustentava seu tema.
A poesia “gauchesca” possui, assim, versos galantes, filosóficos e jactanciosos, mas sempre cheios de comedida decência, a qual acrescenta ainda certa nobreza original a um ligeiro sabor arcaico.
A poesia “gaucha” era, pois, um agente de civilização. Representava para o campesino as letras antes da leitura; a estética como elemento primordial de ensino. O gaúcho foi, por ela, o mais culto dos campesinos.
Dessa forma, o poema, organizado na maioria de seus capítulos em sextilhas de versos octossilábicos, traz marcas muito fortes da oralidade, por ser da vivência do gaúcho, como por exemplo, a utilização da linguagem regional, a rima simples, etc.:
“No me hago al lao de la güeya
Aunque vengan degollando;
con los blandos yo soy blando
y soy duro con los duros,
y ninguno en un apuro
me ha visto andar tutubiando.” (p. 12)
Na linguagem, há a tendência ao desaparecimento de consoantes intervocálicas ou finais — igualdá (p. 502); a tendência à ditongação indevida — ruido (p. 619); à troca de vogais — siguro (p. 606); à simplificação dos grupos consonantais etimológicos — oserve (p. 646); à troca de consoantes — juerza (p. 591); a tendência fonética ao “yeísmo” — güeya, entre vários outros arcaísmos, usos de aumentativos e diminutivos e vulgarismos. Tudo isso, índices naturais da oralidade.
Em “Contos Gauchescos”, a forma é a prosa, impregnada igualmente da oralidade. Os contos são narrados por Blau Nunes, o campeiro. Um narrador anônimo introduz o velho gaúcho, apresentando-o ao leitor e desenhando o protagonista em sua tipicidade:
“Genuíno tipo — o crioulo — rio-grandense (hoje tão modificado), era Blau o guasca sadio, a um tempo leal e ingênuo, impulsivo na alegria e na temeridade, precavido, perspicaz, sóbrio e infatigável, dotado de uma memória de rara nitidez brilhando através de imaginosa e encantadora loquacidade servida e floreada pelo vivo e pitoresco dialeto gauchesco.”
A figura do apresentador de Blau Nunes é transferida para segundo plano, mas não é absolutamente eliminada. Ele passa à condição de interlocutor do seu guia, ouve-o atentamente e anota tudo o que pode do seu depoimento:
“Que foi? Ah! quebrou-se a ponta do lápis? Amanhã vancê escreve o resto; olhe que dá para encher um par de tarcas!”
Blau apresenta algumas histórias em primeira pessoa, ora onisciente, ora participando também como personagem e, com seu “dialeto gauchesco”, inegável índice da oralidade, faz com que a narrativa flua e tenha o ritmo que é facilmente obtido na poesia:
“Ah!... E num repente lembrei-me de tudo.” (p. 18)
“Até que um dia, como lhe disse, soube que a Rosa morreu e então... ah!... já lhe disse também: atirei para a cova da china os cabelos, daquela trança... doutro jeito, é verdade...mas sempre os mesmos!...” (p. 88)
Nas duas narrativas, percebe-se a valorização do tempo passado em detrimento do presente. Antigamente, não havia cercas, cada peão tinha direito à sua própria tropilha, e as pessoas eram mais honestas:
“— Hoje, onde é que se faz disso?
— É verdade que há muita coisa boa, isso é verdade... mas ainda não há nada, como antigamente, tomar mate e correr eguada...
— Xô mico... Vancê veja... eu até choro!...
— Ah! Tempo!...” (p. 66)
“¡Ah tiempos!...¡Si era un orgullo
ver jinetear un paisano!...” (p. 30)
“¡Ah tiempos... pero si en él
se ha visto tanto primor!...” (p. 37)
A natureza em relação aos personagens
“A obra literária retrata, conota, sugere e insinua elementos de estética da paisagem. É nesse espaço real, ou imaginário, que os heróis, os personagens, se movimentam, vêm ou fogem, sobem ou descem, sublimam-se ou se desgraçam nas guerras ou revoluções.” (MAROBIN, 1985).
O ideal de amor à vida e à natureza é o ideal mais forte do texto de Simões Lopes Neto. No momento de desespero, Blau está disposto a matar-se, para atestar sua honestidade. É quando olha em volta e percebe o movimento dos animais, que lhe ensinam a importância de uma existência que demandava sua participação:
“— Patrício! não me avexo duma heresia; mas era Deus que estava no luzimento daquelas estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos arredarem de mim a má tensão...
O cachorrinho tão fiel, lembrou-me a amizade de minha gente; o meu cavalo lembrou-me a liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a esperança...” (p. 21)
É significativo o lugar ocupado pelos animais neste momento, pois são eles que introduzem a memória da família e dos valores de existência — a liberdade, o trabalho e a esperança.
A afinidade entre o homem e o meio circundante é característica do tratamento do espaça no texto. Não apenas o cenário e seus habitantes — árvores, animais, pedras — “falam” ao protagonista, como podem representar imageticamente a temática do conto. A descrição nunca visa identificar o pitoresco na paisagem sulina, e sim, denunciar a solidão e o abandono do herói:
“A estrada estendia-se deserta: à esquerda os campos desdobravam-se a perder de vista, serenos, verdes, clareados pela luz macia do sol morrente, manchados de pontas de gado que iam se arrolhando nos paradouros da noite; à direita o sol, muito baixo, vermelho-dourado, entrando em massa de nuvens de beiradas luminosas”... (p.19)
A paisagem é uma extensão da personalidade do herói ou do sentimento da história.
Também em outros contos, os elementos da natureza têm caráter premonitório, anunciando os males por vir, os animais alcançam uma comunicação especial com o indivíduo e os objetos adquirem força mágica:
“Pois é ali o manantial, que virou sepultura naquele dia brabo em que desde manhã tanto agouro apareceu, de desgraça: os pica-paus chorando... os cachorros cavoucando... e a bruxa preta entrada sem ninguém ver...” (p. 47)
A natureza não tem esse papel em relação a Martín Fierro. Serve apenas para localizar o personagem ou de cenário, como por exemplo, na descrição da manhã campestre:
“Apenas la madrugada
empezaba a coloriar,
los pájaros a cantar
y las gallinas a apiarse...” (p. 26)
Localizar o personagem geograficamente. Também para citar o tipo de vida de outros personagens, como no caso, os índios:
“Recordarán que com Cruz
Para el desierto tiramos;
En la pampa nos entramos,
Cayendo por fin del viaje
A unos toldos de salvajes,
Los primeros que encontramos.” (p. 429)
“Diós les dio instintos sutiles
A todos los mortales;
El hombre es uno de tales,
Y en las llanuras aquellas
Lo guían el sol, las estrellas,
El viento y los animales.” (p. 647)
Mas as narrativas coincidem quando localizam seus protagonistas no pampa, um espaço aberto e ilimitado, demonstrando as linhas horizontais que dão a impressão de liberdade e grandeza:
“Estes campos eram meio sem dono, era uma pampa aberta, sem estrada nem divisa; apenas os trilhos do gado cruzando-se entre aguadas e querências.”
Martín Fierro e Blau Nunes: os indivíduos
Gaúchos do mesmo pampa. Separados pela política, mas unidos pelo espírito.
Quadro comparativo:
Martín Fierro* Apresenta-se por si mesmo, não por um narrador: * Canta seus versos: * Gaúcho vago: * Pobre: * Não tem medo: * Iletrado: * Ânsia de liberdade: * O gaúcho desamparado frente à civilização: * O gaúcho conhecedor de caminhos: * Usa vocabulário regional * É amigo, leal: * Caráter: “... de naides soy adulón...” (p. 410) * Seguro quanto ao que diz: |
Blau Nunes* Há um narrador anônimo que o apresenta: * Também era um “cantador”: * Não tinha medo: * Possui sentimento de honra: * Tem um “singelo entendimento”: * Amor pela Pátria Rio-Grandense: * O gaúcho conhecedor de caminhos: * Usa vocabulário regional: |
apud Gomes, Sheila
Na mídia abaixo, ouça a Payada das Primaveras, de Jayme Caetano Braun, interpretada por ele mesmo, onde pode-se perceber, entremeada de tocante beleza, a filosofia contemplativa, o conteúdo social e a profunda melancolia poética desse tipo de composição.
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Comentários
Muy admirado com este blog,pois poucos exibem esta curiosidade que nós gaúchos temos em saber sobre payadas,literatura etc...
Com algumas duvidas que tinha a respeito de Martin Fierro e Blau ‚manifesto este comentario de grande apreço sincero.
GRANDE ABRAÇO!
ouvi certa vez uma payada não sei com quem, que falava assim, ou mais ou menos assim: hoje é um dia bom pra se morrer, etc... nunca mais ouvi e gostaria de tela pois é muito será que poderiam me ajudar?.
agradecido
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