Semana Far­rou­pi­lha III

Os paya­do­res

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Semana Far­rou­pi­lha III

Os paya­do­res

Publicado em 18 de setembro de 2004 por Olegario Schmitt

Paya­do­res — artista desconhecido

A payada (ou, aportuguesando-se, pajada) é uma forma poé­tica nas­cida na cam­pa­nha argen­tina e uru­guaia nos mea­dos do século XIX.

Suas raí­zes remon­tam aos roman­ces e qua­dras medi­e­vais e renas­cen­tis­tas, de temá­tica popular.

O paya­dor, sem­pre acom­pa­nhado de vio­lão, foi figura impor­tante até mesmo nos cam­pos de bata­lha, onde, dizem, lhe ser­viam o pri­meiro mate.

Den­tre os mai­o­res paya­do­res gaú­chos, o pri­meiro nome que salta à boca é, sem dúvida, Jayme Cae­tano Braun, seguido de perto, quando não lado a lado, por Noel Gua­rany. Ambos já fale­ci­dos, devem estar agora tomando um mate e decla­mando suas paya­das para o “Patrão Velho”.

O Dia do Paya­dor, em home­na­gem ao nas­ci­mento de Jayme Cae­tano Braun, é come­mo­rado, segundo Lei Esta­dual, no dia 30 de janeiro. Mesmo assim, com o advento da Tchê-Music e devido ao baixo apelo comer­cial, a payada, em opi­nião pes­soal, não é devi­da­mente valo­ri­zada no Rio Grande do Sul.

O artigo que segue abaixo, escrito por Sheila Gomes e encon­trado no Por­tal do Gaú­cho, é estudo com­pa­ra­tivo entre os per­so­na­gens Mar­tín Fierro, de José Her­nán­dez em El Gau­cho Mar­tín Fierro (1872) e La Vuelta de Mar­tín Fierro (1879), e Blau Nunes, de Simões Lopes Neto em Con­tos Gau­ches­cos (1912). Embora, assim como esse artigo, tenha se apre­sen­tado bas­tante longo para os aspec­tos fast-food atu­ais, é bem nutri­tivo pois, entre uma com­pa­ra­ção e outra, abordam-se vários aspec­tos cul­tu­rais, soci­ais, estru­tu­rais e eti­mo­ló­gi­cos das paya­das, valendo, por­tanto, a lei­tura. Ao final, uma prenda, somente para os “alu­nos” mais interessados.

Estru­tura das narrativas

No estudo com­pa­ra­tivo entre Mar­tín Fierro e Blau Nunes, nos depa­ra­mos com duas for­mas dis­tin­tas de nar­ra­ti­vas, mas com um fator de uni­dade: a rela­ção com a oralidade.

A poe­sia “gau­chesca”, como temos em “El gau­cho Mar­tín Fierro” e “La vuelta de Mar­tín Fierro”, tem ori­gem nas paya­das, que são ver­sos impro­vi­sa­dos pelos gaú­chos, nas mais vari­a­das situ­a­ções de lida cam­peira ou de diver­ti­mento. Os temas pode­riam ser sen­ti­men­tais, a pró­pria vida no campo e, prin­ci­pal­mente, filo­só­fi­cos. A payada, tem ainda ori­gem na poe­sia dos tro­va­do­res pro­ven­çais, onde havia um gênero, as “ten­sões”, que eram tor­neios em verso. A pala­vra pro­cede do latim “ten­sio”, sus­tém, por­que cada um dos cam­peões sus­ten­tava seu tema.

A poe­sia “gau­chesca” pos­sui, assim, ver­sos galan­tes, filo­só­fi­cos e jac­tan­ci­o­sos, mas sem­pre cheios de come­dida decên­cia, a qual acres­centa ainda certa nobreza ori­gi­nal a um ligeiro sabor arcaico.

A poe­sia “gau­cha” era, pois, um agente de civi­li­za­ção. Repre­sen­tava para o cam­pe­sino as letras antes da lei­tura; a esté­tica como ele­mento pri­mor­dial de ensino. O gaú­cho foi, por ela, o mais culto dos campesinos.

Dessa forma, o poema, orga­ni­zado na mai­o­ria de seus capí­tu­los em sex­ti­lhas de ver­sos octos­si­lá­bi­cos, traz mar­cas muito for­tes da ora­li­dade, por ser da vivên­cia do gaú­cho, como por exem­plo, a uti­li­za­ção da lin­gua­gem regi­o­nal, a rima sim­ples, etc.:

No me hago al lao de la güeya
Aun­que ven­gan degol­lando;
con los blan­dos yo soy blando
y soy duro con los duros,
y nin­guno en un apuro
me ha visto andar tutu­bi­ando.” (p. 12)

Na lin­gua­gem, há a ten­dên­cia ao desa­pa­re­ci­mento de con­so­an­tes inter­vo­cá­li­cas ou finais — igualdá (p. 502); a ten­dên­cia à diton­ga­ção inde­vida — ruido (p. 619); à troca de vogais — siguro (p. 606); à sim­pli­fi­ca­ção dos gru­pos con­so­nan­tais eti­mo­ló­gi­cos — oserve (p. 646); à troca de con­so­an­tes — juerza (p. 591); a ten­dên­cia foné­tica ao “yeísmo” — güeya, entre vários outros arcaís­mos, usos de aumen­ta­ti­vos e dimi­nu­ti­vos e vul­ga­ris­mos. Tudo isso, índi­ces natu­rais da oralidade.

Em “Con­tos Gau­ches­cos”, a forma é a prosa, impreg­nada igual­mente da ora­li­dade. Os con­tos são nar­ra­dos por Blau Nunes, o cam­peiro. Um nar­ra­dor anô­nimo intro­duz o velho gaú­cho, apresentando-o ao lei­tor e dese­nhando o pro­ta­go­nista em sua tipicidade:

Genuíno tipo — o cri­oulo — rio-grandense (hoje tão modi­fi­cado), era Blau o guasca sadio, a um tempo leal e ingê­nuo, impul­sivo na ale­gria e na teme­ri­dade, pre­ca­vido, pers­pi­caz, sóbrio e infa­ti­gá­vel, dotado de uma memó­ria de rara niti­dez bri­lhando atra­vés de ima­gi­nosa e encan­ta­dora loqua­ci­dade ser­vida e flo­re­ada pelo vivo e pito­resco dia­leto gauchesco.”

A figura do apre­sen­ta­dor de Blau Nunes é trans­fe­rida para segundo plano, mas não é abso­lu­ta­mente eli­mi­nada. Ele passa à con­di­ção de inter­lo­cu­tor do seu guia, ouve-o aten­ta­mente e anota tudo o que pode do seu depoimento:

Que foi? Ah! quebrou-se a ponta do lápis? Ama­nhã vancê escreve o resto; olhe que dá para encher um par de tarcas!”

Blau apre­senta algu­mas his­tó­rias em pri­meira pes­soa, ora onis­ci­ente, ora par­ti­ci­pando tam­bém como per­so­na­gem e, com seu “dia­leto gau­chesco”, ine­gá­vel índice da ora­li­dade, faz com que a nar­ra­tiva flua e tenha o ritmo que é facil­mente obtido na poesia:

Ah!... E num repente lembrei-me de tudo.” (p. 18)

Até que um dia, como lhe disse, soube que a Rosa mor­reu e então... ah!... já lhe disse tam­bém: ati­rei para a cova da china os cabe­los, daquela trança... dou­tro jeito, é verdade...mas sem­pre os mes­mos!...” (p. 88)

Nas duas nar­ra­ti­vas, percebe-se a valo­ri­za­ção do tempo pas­sado em detri­mento do pre­sente. Anti­ga­mente, não havia cer­cas, cada peão tinha direito à sua pró­pria tro­pi­lha, e as pes­soas eram mais honestas:

— Hoje, onde é que se faz disso?
— É ver­dade que há muita coisa boa, isso é ver­dade... mas ainda não há nada, como anti­ga­mente, tomar mate e cor­rer eguada...
— Xô mico... Vancê veja... eu até choro!...
— Ah! Tempo!...” (p. 66)

¡Ah tiempos!...¡Si era un orgullo
ver jine­tear un pai­sano!...” (p. 30)

¡Ah tiem­pos... pero si en él
se ha visto tanto pri­mor!...” (p. 37)

A natu­reza em rela­ção aos personagens

A obra lite­rá­ria retrata, conota, sugere e insi­nua ele­men­tos de esté­tica da pai­sa­gem. É nesse espaço real, ou ima­gi­ná­rio, que os heróis, os per­so­na­gens, se movi­men­tam, vêm ou fogem, sobem ou des­cem, sublimam-se ou se des­gra­çam nas guer­ras ou revo­lu­ções.” (MARO­BIN, 1985).

O ideal de amor à vida e à natu­reza é o ideal mais forte do texto de Simões Lopes Neto. No momento de deses­pero, Blau está dis­posto a matar-se, para ates­tar sua hones­ti­dade. É quando olha em volta e per­cebe o movi­mento dos ani­mais, que lhe ensi­nam a impor­tân­cia de uma exis­tên­cia que deman­dava sua participação:

— Patrí­cio! não me avexo duma here­sia; mas era Deus que estava no luzi­mento daque­las estre­las, era ele que man­dava aque­les bichos bru­tos arre­da­rem de mim a má tensão...

O cachor­ri­nho tão fiel, lembrou-me a ami­zade de minha gente; o meu cavalo lembrou-me a liber­dade, o tra­ba­lho, e aquele grilo can­ta­dor trouxe a espe­rança...” (p. 21)

É sig­ni­fi­ca­tivo o lugar ocu­pado pelos ani­mais neste momento, pois são eles que intro­du­zem a memó­ria da famí­lia e dos valo­res de exis­tên­cia — a liber­dade, o tra­ba­lho e a esperança.

A afi­ni­dade entre o homem e o meio cir­cun­dante é carac­te­rís­tica do tra­ta­mento do espaça no texto. Não ape­nas o cená­rio e seus habi­tan­tes — árvo­res, ani­mais, pedras — “falam” ao pro­ta­go­nista, como podem repre­sen­tar ima­ge­ti­ca­mente a temá­tica do conto. A des­cri­ção nunca visa iden­ti­fi­car o pito­resco na pai­sa­gem sulina, e sim, denun­ciar a soli­dão e o aban­dono do herói:

A estrada estendia-se deserta: à esquerda os cam­pos desdobravam-se a per­der de vista, sere­nos, ver­des, cla­re­a­dos pela luz macia do sol mor­rente, man­cha­dos de pon­tas de gado que iam se arro­lhando nos para­dou­ros da noite; à direita o sol, muito baixo, vermelho-dourado, entrando em massa de nuvens de bei­ra­das lumi­no­sas”... (p.19)

A pai­sa­gem é uma exten­são da per­so­na­li­dade do herói ou do sen­ti­mento da história.

Tam­bém em outros con­tos, os ele­men­tos da natu­reza têm cará­ter pre­mo­ni­tó­rio, anun­ci­ando os males por vir, os ani­mais alcan­çam uma comu­ni­ca­ção espe­cial com o indi­ví­duo e os obje­tos adqui­rem força mágica:

Pois é ali o manan­tial, que virou sepul­tura naquele dia brabo em que desde manhã tanto agouro apa­re­ceu, de des­graça: os pica-paus cho­rando... os cachor­ros cavou­cando... e a bruxa preta entrada sem nin­guém ver...” (p. 47)

A natu­reza não tem esse papel em rela­ção a Mar­tín Fierro. Serve ape­nas para loca­li­zar o per­so­na­gem ou de cená­rio, como por exem­plo, na des­cri­ção da manhã campestre:

Ape­nas la madru­gada
empe­zaba a colo­riar,
los pája­ros a can­tar
y las gal­li­nas a api­arse...” (p. 26)

Loca­li­zar o per­so­na­gem geo­gra­fi­ca­mente. Tam­bém para citar o tipo de vida de outros per­so­na­gens, como no caso, os índios:

Recor­da­rán que com Cruz
Para el desi­erto tira­mos;
En la pampa nos entra­mos,
Cayendo por fin del viaje
A unos tol­dos de sal­va­jes,
Los pri­me­ros que encon­tra­mos.” (p. 429)

Diós les dio ins­tin­tos suti­les
A todos los mor­ta­les;
El hom­bre es uno de tales,
Y en las lla­nu­ras aquel­las
Lo guían el sol, las estrel­las,
El viento y los ani­ma­les.” (p. 647)

Mas as nar­ra­ti­vas coin­ci­dem quando loca­li­zam seus pro­ta­go­nis­tas no pampa, um espaço aberto e ili­mi­tado, demons­trando as linhas hori­zon­tais que dão a impres­são de liber­dade e grandeza:

Estes cam­pos eram meio sem dono, era uma pampa aberta, sem estrada nem divisa; ape­nas os tri­lhos do gado cruzando-se entre agua­das e querências.”

Mar­tín Fierro e Blau Nunes: os indivíduos

Gaú­chos do mesmo pampa. Sepa­ra­dos pela polí­tica, mas uni­dos pelo espírito.

Qua­dro comparativo:

Mar­tín Fierro

* Apresenta-se por si mesmo, não por um nar­ra­dor:
“Pido a los san­tos del cielo
que ayu­den mi pen­sa­mi­ento,
les pido que en ese momento
que voy a con­tar mi his­to­ria
me refres­quen la memo­ria
y acla­ren mi enten­di­e­mi­ento.” (p. 2)

* Canta seus ver­sos:
“Aqui me pongo a can­tar
al com­pás de la vigüela,
una pena extra­or­di­na­ria,
como la ave soli­ta­ria
con el can­tar se con­su­ela” (p. 1)

* Gaú­cho vago:
“Monté y me enco­mendé a Dios,
rum­bi­ando para otro pago;
que el gau­cho que lla­man vago
no puede tener que­ren­cia...” (p. 229)

* Pobre:
“Venía la carne con cuero,
la sabrosa car­bo­nada,
maza­morra bien pisada,
los pas­te­les y el güen vino...
pero ha que­rido el des­tino
que todo aquello aca­bara.” (p. 42)

* Não tem medo:
”...nada lo hace recu­lar
ni las fan­tas­mas lo espan­tan,...” (p. 5)

* Ile­trado:
“Yo no soy can­tor letrao,...” (p. 9)

* Ânsia de liber­dade:
“Mi glo­ria es vivir tan libre
como el pájaro del cielo;
no hago nido en este suelo
ande hay tanto que sufrir,
y nai­des me ha de seguir
cuando yo remu­ento el vuelo.” (p. 16)

* O gaú­cho desam­pa­rado frente à civi­li­za­ção:
“Ansí empe­za­ron mis males
lo mesmo que los de tan­tos.
Si gustan...en otros can­tos
les diré lo que he sufrido. (p. 48)

* O gaú­cho conhe­ce­dor de cami­nhos:
“Mas ande outro cri­ollo pasa
Mar­tín Fierro ha de pasar...” (p. 5)

* Usa voca­bu­lá­rio regional

* É amigo, leal:
“Y cuando sin trapo alguno
nos haiga el tiempo dejao
yo le pediré empres­tao
el cuero a cual­qui­era lobo
y hago un pon­cho, si lo sobo,
mejor que pon­cho engo­mao.” (p. 356)

* Cará­ter:
“no duden de cuanto digo,
pues debe crerse al tes­tigo
si no pagan por men­tir...” (p. 401)

... de nai­des soy adu­lón...” (p. 410)

* Seguro quanto ao que diz:
“Y el que me qui­era enmen­dar
mucho tiene que saber;
tiene mucho que apren­der
el que sepa me escu­char,
tiene mucho que rumiar
el que me qui­era enten­der.” (p. 412)

Blau Nunes

* Há um nar­ra­dor anô­nimo que o apre­senta:
“Patrí­cio, apresento-se Blau, o vaque­ano.” (p. 13)

* Tam­bém era um “can­ta­dor”:
”...dos ran­chos onde can­tou...” (p. 15)

* Não tinha medo:
“Não bulia uma folha; o silên­cio na som­bra do arvo­redo, metia res­peito... que medo, não, que não entra em peito de gaú­cho.” (p. 20)

* Pos­sui sen­ti­mento de honra:
” ? É ver­dade... antes mor­resse, que isto! Que vai ele pen­sar agora de mim?...” (p. 17)

* Tem um “sin­gelo enten­di­mento”:
”...das coi­sas que ele com­pre­en­dia e das que eram-lhe veda­das ao sin­gelo enten­di­mento...” (p. 15)

* Amor pela Pátria Rio-Grandense:
” ? vancê des­culpe... estou velho, mas inté hoje, quando falo na Repú­blica dos Far­ra­pos, tiro o meu cha­péu!...” (p. 122)

* O gaú­cho conhe­ce­dor de cami­nhos:
” ? Eu tenho andado cru­zando o nosso Estado em capri­choso zigue­za­gue...” (p. 13)

* Usa voca­bu­lá­rio regi­o­nal:
“d?espacito; vancê; escuite; inté...“

apud Gomes, Sheila

Na mídia abaixo, ouça a Payada das Pri­ma­ve­ras, de Jayme Cae­tano Braun, inter­pre­tada por ele mesmo, onde pode-se per­ce­ber, entre­me­ada de tocante beleza, a filo­so­fia con­tem­pla­tiva, o con­teúdo social e a pro­funda melan­co­lia poé­tica desse tipo de composição.

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Comentários

  1. ander­son dias olivei
    5 de agosto de 2008

    Muy admi­rado com este blog,pois pou­cos exi­bem esta curi­o­si­dade que nós gaú­chos temos em saber sobre payadas,literatura etc...

    Com algu­mas duvi­das que tinha a res­peito de Mar­tin Fierro e Blau ‚mani­festo este comen­ta­rio de grande apreço sincero.

    GRANDE ABRAÇO!

  2. rubens weber
    24 de setembro de 2008

    ouvi certa vez uma payada não sei com quem, que falava assim, ou mais ou menos assim: hoje é um dia bom pra se mor­rer, etc... nunca mais ouvi e gos­ta­ria de tela pois é muito será que pode­riam me ajudar?.

    agra­de­cido

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