Semana Far­rou­pi­lha II

O gaú­cho histórico

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Semana Far­rou­pi­lha II

O gaú­cho histórico

Publicado em 19 de setembro de 2004 por Olegario Schmitt

Cor­rida de Gaú­chos — Dela­fu­ente (Gabriel Usinger)

Sua fala é enér­gica, rápida e irre­gu­lar; falam com fogo­si­dade e grande faci­li­dade; são ima­gi­na­ti­vos de espí­rito vivaz e apai­xo­na­dos. Entre eles, quem sabe mon­tar, laçar, ati­rar a bole­a­deira e mane­jar uma faca, está com­pleto. (...) são impro­vi­sa­do­res, vivendo às expen­sas das inex­tin­guí­veis tro­pas de gado cuja carne é a base de sua ali­men­ta­ção. Mui­tos jamais come­ram pão. Sua calma habi­tual cede lugar a um ardor indo­má­vel quando o fogo de suas pai­xões se acende, o que não é raro. O sen­tido de inde­pen­dên­cia e amor à pátria, por exem­plo, se mani­fes­ta­ram mais de uma vez entre estas gen­tes gros­sei­ras de alma heróica. Quando estoura uma guerra, este povo pas­to­ril e pací­fico se volve, de golpe, em um exér­cito de ter­rí­veis guer­rei­ros. Seu gosto pelo baile e música mos­tra igual­mente, que sua sen­si­bi­li­dade é sus­cep­tí­vel de grande exal­ta­ção. O Gaú­cho é bravo por tem­pe­ra­mento, mas sua bra­vura é ani­mal (...). São capa­zes (...) dos mais for­mo­sos atos de devo­ção e sacri­fí­cio pes­soal pela causa que abra­ça­ram. Em suas bri­gas, em que o jogo é a causa mais habi­tual, estão sem­pre pron­tos a degolar-se. À menor pro­vo­ca­ção, sacam a faca e corre san­gue.” — Jor­nal Le Nati­o­nal, Paris, 1833

Os habi­tan­tes pas­sam a vida, por assim dizer, a cavalo, e freqüen­te­mente locomovem-se a gran­des dis­tân­cias com rapi­dez suposta além das pos­si­bi­li­da­des huma­nas.” — Saint-Hilaire, pes­qui­sa­dor fran­cês, 1820

Um dos sol­da­dos teve que pedir bois empres­ta­dos na vizi­nhança; estes foram tra­zi­dos por um gaú­cho que os aju­dou a atre­lar e nos deu con­se­lhos muito úteis. Quando já tínha­mos saído da difi­cul­dade, quis recompensá-lo, mas, enquanto eu pro­cu­rava uma moeda, o homem desa­pa­re­ceu com os bois. Entre nós (euro­peus), numa cir­cuns­tân­cia como essa, um homem de classe infe­rior fica­ria espe­rando que lhe des­sem uma retri­bui­ção, e ele a teria pedido, se hou­vesse demora em oferecê-la.” — idem

Fomos a pé até a povo­a­ção (São Borja), ainda que o calor esti­vesse exces­sivo. Os habi­tan­tes (...) acos­tu­ma­dos a não darem um passo à pé, nos olha­ram muito admi­ra­dos.” — Arsène Isa­belle, via­jante fran­cês, 1833/34 In: Voyage à Bue­nos Ayres et à Porto Alegre

Todos os gaú­chos têm a soberba dos anti­gos espa­nhóis e, em con­seqüên­cia das par­ti­cu­la­ri­da­des da vida que levam, são geral­mente apai­xo­na­dos aman­tes da liber­dade. Cada qual julga-se uma cabal­lero (no sen­tido de cava­lheiro) e trata o pró­ximo com a mais requin­tada cor­te­sia, a fim de ser pelos outros tra­tado do mesmo modo. Ao mais pobre-diabo e mesmo aos men­di­gos, tra­tam com senho­ria. O estran­geiro que supõe poder tra­tar um gaú­cho com des­dém por se jul­gar mais rico ou mais impor­tante, cedo ou tarde se arre­pen­derá. O des­prezo mani­fes­tado cos­tuma ser cas­ti­gado com uma boa dose de gros­se­ria, e se esta não pro­duz resul­tado, será des­ven­trado a faca. Uma vez porém que se trate o gaú­cho de modo igua­li­tá­rio, ter-se-á nele, em pouco tempo, o mais fiel e dedi­cado dos ami­gos.” — Karl May, escri­tor ale­mão, 1850

Merece par­ti­cu­lar men­ção sua insu­pe­rá­vel hones­ti­dade. Do mesmo modo que nunca fecha a porta de seu ran­cho, nunca se lem­bra de rou­bar. Se acha algum objeto per­dido, devolve-o infa­li­vel­mente caso encon­tre o legí­timo dono. É conhe­cido o relato de um gaú­cho extre­ma­mente pobre que encon­trando um reló­gio de algi­beira via­jou dois dias para devol­ver o objeto achado. Quando o via­jante, que era um estran­geiro, quis lhe dar uma gra­ti­fi­ca­ção em dinheiro, pegou da quan­tia ofer­tada e lançou-a, ofen­dido, aos pés do ofer­tante, ao qual deu as cos­tas vol­tando para sua casa” — idem

I see the Bra­zi­lian vaquero,
(...)
I see the Wacho cros­sing the plains, I see the incom­pa­ra­ble rider of
hor­ses with his lasso on his arm,
I see over the pam­pas the pur­suit of wild cat­tle for their hides.”

Walt Wit­man

Eu vejo o vaqueiro bra­zi­leiro,
(...)
vejo o gaú­cho cru­zando as pla­ní­cies, vejo o incom­pa­rá­vel ginete
com o seu laço em sua mão,
vejo atra­vés dos pam­pas a per­se­gui­ção do gado sel­va­gem pelo seu couro.

Tra­du­ção: Ole­ga­rio Schmitt

Bibli­o­gra­fia

Os rela­tos dos via­jan­tes como fonte para o estudo da his­tó­ria apud Jochims Rei­chel, Heloisa
O Gaú­cho no Pas­sado apud Muñoz Braz, Evaldo
Wit­man, Walt In: Lea­ves of Grass, 1891/92, pg. 117

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