Pecu­li­a­ri­da­des

Espe­cial para o “New York Times”

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Pecu­li­a­ri­da­des

Espe­cial para o “New York Times”

Publicado em 22 de julho de 2005 por Olegario Schmitt

Ainda branco de geada, campo ao sol nas­cente em Boca do Monte, dis­trito de Santa Maria/RS

As cida­des gaú­chas têm essas pecu­li­a­ri­da­des, esse modus vivendi fora do padrão naci­o­nal, se é que existe algum. Tais carac­te­rís­ti­cas são mais visí­veis durante o período do inverno, quando os cam­pos ama­nhe­cem, expres­são local, “bran­cos de geada”.

As tem­pe­ra­tu­ras inver­nais, que variam entre –5 e 15 °C, tor­nam impres­cin­dí­vel a pre­sença do fogão a lenha, fun­ci­o­nando como uma espé­cie de lareira, com a van­ta­gem de que se pode cozi­nhar em cima, unindo o útil ao muito agradável.

Há muito tempo atrás, minha mãe conta, cus­tu­mava nevar regu­lar­mente e, diz ela, tam­bém tínha­mos qua­tro esta­ções no ano, bem definidas.

Embora atu­al­mente, fazendo inverno em pleno verão e vice-versa, ainda neve na Serra, o que sub­siste bra­va­mente em boa parte do estado é o Vento Minu­ano. Cruel, atra­vessa as ves­tes do gaú­cho como ver­da­deira faca feita uni­ca­mente de frio, fazendo com que a sen­sa­ção tér­mica dimi­nua em alguns graus a tem­pe­ra­tura dos termômetros.

Por isso, nas épo­cas mais frias do ano instituiu-se o hábito de lagar­tear, ou seja, o hábito de imi­tar o lagarto, ani­mal de san­gue frio que cos­tuma ficar ao sol para aquecer-se. Aqui nes­sas ban­das é comum, quase obri­ga­tó­rio, dizer-se a alguém que esteja aquentando-se ao sol: “Lagar­te­ando, hein!?”.

Em Santa Maria, cidade de apro­xi­ma­da­mente 300.000 habi­tan­tes situ­ada bem no cen­tro do Rio Grande do Sul, com o final da Serra ao norte e o iní­cio do Pampa ao sul, não pode­ria ser dife­rente. Pas­se­ando no Cal­ça­dão (cen­tro da cidade) em qual­quer manhã de sol do inverno, pode­mos encon­trar vasto grupo de lagar­te­a­do­res, alguns deles pro­fis­si­o­nais, esta­te­la­dos ao sol.

Tal grupo, for­mado prin­ci­pal­mente por apo­sen­ta­dos, não é exclu­sivo dessa cate­go­ria, pois qual­quer pes­soa encon­tra tempo para lagar­tear um pouco tam­bém. Lado a lado com os lagar­te­a­do­res mais expe­ri­en­tes, há tam­bém jovens apren­di­zes, pes­soas comuns e da alta soci­e­dade, gaú­chos a cará­ter ou não. De maneira demo­crá­tica, con­ver­sam sobre a vida polí­tica e social da cidade e do país, lêem o jor­nal, tomam mate, ou sim­ples­mente não fazem nada mesmo.

Tam­bém carac­te­rísta pecu­liar do estado são, obvi­a­mente, os gaú­chos. Não impor­tanto a hora do dia ou da noite, tam­pouco onde se esteja, não demora apa­rece um a cará­ter. No Rio Grande do Sujl o traje gaú­cho, ou pil­cha, é con­si­de­rado traje de gala, equi­va­lente ao smo­king. Já ouvi falar de casos de gaú­chos que, em outros esta­dos, ten­ta­ram entrar pil­cha­dos em even­tos “high-society” e foram bar­ra­dos na porta.

A praça cen­tral de Santa Maria, ou Praça Satur­nino de Britto, depois do Cal­ça­dão é o melhor local para lagar­tear. Refor­mada há pou­cos anos, ainda man­tém seu coreto e cha­fa­riz, tendo sido adi­ci­o­nada uma arena para apre­sen­ta­ções públi­cas, à moda dos tea­tros roma­nos anti­gos. Dis­pos­tos ao seu redor ficam o The­a­tro Treze de Maio, a Casa de Cul­tura (antigo Fórum Muni­ci­pal) e o antigo Cine Inde­pen­dên­cia (onde fui ao cinema pela pri­meira vez, quando assisti ao Mágico de Oz), esse em vias de trans­for­ma­ção em shop­ping popu­lar (sic) pela admi­nis­tra­ção muni­ci­pal (a outra alter­na­tiva seria a demo­li­ção). Tam­bém na praça cen­tral há um busto do poeta Felippe D’Oliveira, um dos expo­en­tes da Semana de Arte Moderna de 1922, escul­pido por Brecheret.

Lagar­tear no cen­tro de Santa Maria é exer­ci­tar o lado mais pacato dessa cidade inte­ri­o­rana, com suas pecu­li­a­ri­da­des, sua calma e suas pra­ças tranqüi­las. É esquecendo-se por momen­tos da vio­lên­cia cres­cente, dos con­ges­ti­o­na­men­tos, do trân­sito caó­tico, das inva­sões das popu­la­ções sem-teto e do des­caso adm­nis­tra­tivo em rela­ção ao patrimô­nio público que esquece-se tam­bém das dife­ren­ças pes­so­ais e soci­ais. E assim, entre pobres e ricos, velhos e jovens, famo­sos e anô­ni­mos, estabelece-se aqui essa Demo­cra­cia do Sol, por­que em Santa Maria ele nasce mesmo para todos.

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