Literatura

Contos, crônicas, poesias e traduções.

Literatura

Sobre isso pen­sar você vai?

Publicado em 31 de agosto de 2010 por Olegario Schmitt

Look, Mamma, I went blue and cubist at the same time

Uma vez eu conheci um poeta que escre­via tudo de trás pra frente. Em vez de dizer “o céu é azul e bonito” ele dizia algo como “céu, bonito e azul, é”. Aí você per­dia horas mon­tando o verso na seqüên­cia cor­reta só pra des­co­brir enfim que ele que­ria dizer ape­nas e sim­ples­mente “o céu é azul e bonito”.

Como sem­pre gos­tei muito do Mario Quin­tana e quando este que­ria dizer que o céu era bonito e azul sim­ples­mente pegava e dizia, per­gun­tei pro poeta esse qual era o sen­tido de escre­ver tudo de trás pra frente.

Ele não gos­tou — dis­s­que ele era um douto que tinha estu­dado mui­tos anos pra apren­der a escre­ver de trás pra frente e dis­s­que isso era muito chi­que, sobre­tudo pra quem tinha estu­dado mui­tos anos.

Quin­tana e eu não havía­mos estu­dado mui­tos anos, a gente não tinha vindo de escola nenhuma. Aca­ba­mos per­dendo o amigo e mais uns outros que gos­ta­vam de coi­sas de trás pra frente assim como ele.

Ainda agora, tan­tos anos pas­sa­dos, essa his­tó­ria me con­some, por­que até hoje não des­co­bri se ele era um poeta cubista ou algum tipo de Mes­tre Yoda da metalinguística.

As simi­la­ri­da­des entre escri­to­res e serial-killers

Publicado em 24 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Escre­ver é uma forma de crime e, por isso, todo escri­tor cul­tiva den­tro de si carac­te­rís­ti­cas pecu­li­a­res a um serial-killer. Como estes, con­se­gue igno­rar sole­ne­mente aquela vozi­nha do ego que diz “você não deve­ria fazer escre­ver isso, vão aca­bar pen­sando que você está falando é de você mesmo”. O assas­sino em série, como o escri­tor, na ver­dade sabe muito bem dife­ren­ciar o certo do errado, mas sim­ples­mente não se importa. “É como se uma força, mais forte do que eu, me impe­lisse a matar escre­ver”. “Quando vol­tei a mim, já havia come­tido o crime conto”.

Todo escri­tor é um sór­dido. Nas cenas finais de Ham­let, os per­so­na­gens inva­ri­a­vel­mente matando-se uns aos outros, Sha­kes­pe­are nada faz para impedi-los. Ele pode­ria trans­for­mar, subi­ta­mente, as espa­das em len­ços de seda e os vene­nos em pur­gan­tes, evi­tando assim o trá­gico des­fe­cho. Mas Sha­kes­pe­are não faz nada. E se não faz nada é por­que na ver­dade ele gosta.

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Conto funesto, sur­re­a­lista e alucinado

Publicado em 15 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Mesmo o sol tendo aca­bado de se por, a tem­pe­ra­tura ainda deve estar em torno de 35 graus. O ven­ti­la­dor de teto, de modelo anti­quado e pás muito lar­gas, gira vaga­ro­sa­mente sobre sua cabeça, mal e mal insi­nu­ando uma leve brisa. A noite vai caindo enquanto as luzes mati­za­das da rua vão tin­gindo len­ta­mente a sala. Ele arrasta-se sem ânimo até o toca-discos e põe para tocar sua inse­pa­rá­vel Suíte para Solo de Violoncelo.

A música pre­en­che o ambi­ente com os tim­bres angus­ti­an­tes daquele ins­tru­mento, cujo som ele acre­dita se asse­me­lhar ao choro incon­so­lá­vel que brota do fundo da gar­ganta de uma viúva. É com­ple­ta­mente tomado por mal de vivre um estado de tor­por, parte cau­sado pela pró­pria tem­pe­ra­tura, parte pelo mal de vivre que lhe acom­pa­nha desde sem­pre, mons­tri­nho de esti­ma­ção esse ao qual ali­menta inces­san­te­mente com novos deses­tí­mu­los, seja calor, música, ou pen­sa­men­tos obscuros.

Afunda-se na pol­trona da sala a qual, com uma perna frouxa, balança sob seu peso. A modorra que brota vigo­ro­sa­mente do fundo de suas entra­nhas vai cres­cendo cada vez mais con­forme se deixa inva­dir pelos acor­des gra­ves do violoncelo.

Com uma mão, seca o suor pas­toso que lhe escorre da testa e coça a sua barba de há dias, enquanto a outra lhe for­nece um dedo ávido o qual vai intro­du­zindo com deses­pero e sofre­gui­dão bem fundo“lim­pando o salão” no seu nariz. Em ges­tos cir­cu­la­res, cavouca o inte­rior de seu septo bus­cando lá den­tro alguma coisa, uma idéia escon­dida, uma lágrima soli­di­fi­cada, um pedaço do pró­prio cére­bro que tenha escor­rido pelas nari­nas, qual­quer coisa que torne sua vida pior.

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Nas ruas de São Paulo

Publicado em 22 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

#1 do díp­tico “Amor em Pedaços”

— Tem cora­ção?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior.
— Ah, tem não.
— Não tem hoje ou não tem nunca?
— A gente não vende isso não.
— Que coisa... e se eu enco­men­dar, aí tem?
— Tem não.
— E onde será que eu encon­tro cora­ção aqui em São Paulo?
— Lá na Lapa tem...
— Nossa, na Lapa?! Que longe... na Lapa de Cima ou na Lapa de Baixo?
— No Mer­cado da Lapa tem. Se tiver cora­ção, é lá.

— Tem cora­ção?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior...
— Ô, Antô­nho, tem cora­ção aí?
— Tê, tem, mais cabô!
— Ó, moço, cora­ção só na semana que vem, viu? Isso se tiver!
— A gente tá mesmo fodido nessa cidade...
— ...
— Você sabe se tem outro açou­gue aqui perto?

Essa poeta é uma seren­di­pi­dade ambulante

Publicado em 12 de agosto de 2009 por Olegario Schmitt

Seren­di­pi­dade é a apti­dão, facul­dade ou dom de atrair o acon­te­ci­mento de coi­sas feli­zes ou úteis, ou de descobri-las por acaso. Em deri­va­ção por meto­ní­mia, é cada uma des­sas coi­sas feli­zes ou úteis. (Hou­aiss)

Seren­di­pi­dade I

Há diver­sos anos — nin­guém sabe exa­ta­mente quan­tos, mas tal­vez seja uns 10 — Nalú Nogueira e eu nos encon­tra­mos em algum recanto vir­tual de poe­tas. Foi uma coisa esqui­sita: nos gos­ta­mos de pronto, para todo o sem­pre amém. Escre­vía­mos jun­tos, díade: cada um fazendo um verso como uma valsa. Por vezes ter­mi­ná­va­mos os escri­tos um do outro. Virá­va­mos dias e noi­tes em fre­ne­sis lite­rá­rios infindáveis.

Nunca nos vimos pes­so­al­mente. Porém, ao con­trá­rio do que pode pen­sar os incau­tos — ou não ini­ci­a­dos —, os bits, bytes e Kby­tes eram ape­nas o meio de mate­ri­a­li­za­ção de algo deve­ras real.

Dico­to­mia: os tem­pos foram pas­sando con­forme aban­do­ná­va­mos len­ta­mente esse único meio de con­ví­vio. Per­de­mos o con­tato, cada um foi para um canto, isso acon­tece com todo mundo.

Seren­di­pi­dade II

Mui­tos anos depois, nos reen­con­tra­mos no Twit­ter, atra­vés de uma amiga em comum. Foi meio por acaso, óbvio!

Esta­mos deve­ras dife­ren­tes, pra­ti­ca­mente não escre­ve­mos mais poe­sia. Mas ainda somos feli­zes — nem mais nem menos, ape­nas diferente.

Seren­di­pi­dade III

Revi­rando minhas velhas cai­xas à pro­cura de um manual, encon­trei um impresso enca­der­nado com a capa azul trans­pa­rente. Claro, tinha de ser azul. Claro, tinha de ser trans­pa­rente. Claro, tinha de ser uma vez mais atra­vés da serendipidade.

Na capa, em letras gar­ra­fais: Nalú Nogueira — trata-se de uma sele­ção de poe­mas dessa poe­ta­miga a quem admiro tanto.

Fui atro­pe­lado por um jorro de emo­ções esque­ci­das e a sau­dade bateu. Como não poeto mais com tanta faci­li­dade, resolvi fazer essa série de três arti­gos para Nalú Nogueira. Não cabia tudo num só, assim como às vezes aquilo que sen­ti­mos não cabe tudo num poema.

Não sei ao certo se é na ten­ta­tiva de que algo não morra ou de que res­sus­cite, mas tenho cer­teza de que a Pala­vra deve se man­ter sem­pre viva den­tro de nós.

Para Kant

Publicado em 23 de junho de 2009 por Olegario Schmitt

A Coisa em Si
Que Há em Mim


a coisa em si
não cabia em mim
de tan­tas dúvidas

— pior que pen­sar
é sen­tir, dizia
ressentida.

deve­ria ver?

deve­ria vir
a ser devir?

nem númeno
nem fenômeno:

a coisa em si
que há em mim

é mai­o­meno.

Existe quoi au-delà l’amour?

Publicado em 09 de junho de 2009 por Olegario Schmitt

Dans le Léman. Genève, 2009

Nous exis­tons. Le reste, exces­sif, déline
l’essence imprégné par la forme du abîme,
car l’ombre des âmes qui aiment
est trans­lu­cide: elle reti­ent lumière
suf­fi­sante pour seu­le­ment nou­rir
le sen­ti­ment lui-même.

Dehors l’amour, l’unique sens
est l’absence du sens des choses.

Meio-termo da cara!

Publicado em 03 de junho de 2009 por Olegario Schmitt

Série Alguns de Meus Órgãos Sexuais

O Nariz

Rafael Alci­des Perez

O nariz tem con­di­ção de juíz.
Ao con­trá­rio do olho esquerdo e do direito, que toma­ram par­tido,
o nariz, ines­cru­tá­vel, se man­tém ao cen­tro
— com algo de espada ou de mar­telo.
Imitando-o, a boca.
Porém a boca é hipó­crita:
sorri à esquerda e à direita.

Tra­du­ção: Ole­ga­rio Schmitt


La Nariz

Rafael Alci­des Perez

La nariz tiene con­di­ción de juez.
Al con­tra­rio del ojo izqui­erdo y del dere­cho, que han tomado par­tido,
la nariz, ines­cru­ta­ble, se man­ti­ene en el cen­tro
— con algo de espada o de mar­tillo.
Imi­tán­dola, la boca.
Pero la boca es hipó­crita:
son­ríe a la izqui­erda y a la derecha.

In: Y se mue­ren y mue­ren y mue­ren. Vene­zu­ela, 1988

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