Que se bata o martelo!

Qual dessas histórias é a fábula?

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Que se bata o martelo!

Qual dessas histórias é a fábula?

Publicado em 18 de novembro de 2006 por Olegario Schmitt

Quem tem um martelo, pode escolher como e na cabeça de quem batê-lo. Acompanhe a seguir três histórias, sendo duas verdadeiras e a outra uma fábula.

Dica: a fábula não é o segundo texto e a assim dita “Moral da História” fica bem clara nos três, apesar de nos dois primeiros estar mais ou menos sub-reptícia.

Autos nº 124/03 – 3ª Vara Criminal da Comarca de Palmas/TO

Decisão proferida pelo juiz Rafael Gonçalves de Paula

DECISÃO

Trata-se de auto de prisão em flagrante de Saul Rodrigues Rocha e Hagamenon Rodrigues Rocha, que foram detidos em virtude do suposto furto de duas (2) melancias. Instado a se manifestar, o Sr. Promotor de Justiça, opinou pela manutenção dos indiciados na prisão.

Para conceder a liberdade aos indiciados, eu poderia invocar inúmeros fundamentos: os ensinamentos de Jesus Cristo, Buda e Ghandi, o Direito Natural, o princípio da insignificância ou bagatela, o princípio da intervenção mínima, os princípios do chamado Direito alternativo, “duas melan­cias não enri­que­cem nem empo­bre­cem nin­guém”o furto famélico, a injustiça da prisão de um lavrador e de um auxiliar de serviços gerais em contraposição à liberdade dos engravatados que sonegam milhões dos cofres públicos, o risco de se colocar os indiciados na Universidade do Crime (o sistema penitenciário nacional),… Poderia sustentar que duas melancias não enriquecem nem empobrecem ninguém. Poderia aproveitar para fazer um discurso contra a situação econômica brasileira, que mantém 95% da população sobrevivendo com o mínimo necessário.

Poderia brandir minha ira contra os neo-liberais, o consenso de Washington, a cartilha demagógica da esquerda, a utopia do socialismo, a colonização européia,…. Poderia dizer que George Bush joga bilhões de dólares em bombas na cabeça dos iraquianos, enquanto bilhões de seres humanos passam fome pela Terra – e aí, cadê a Justiça nesse mundo?

Poderia mesmo admitir minha mediocridade por não saber argumentar diante de tamanha obviedade. Tantas são as possibilidades que ousarei agir em total desprezo às normas técnicas: não vou apontar nenhum desses fundamentos como razão de decidir.

Simplesmente mandarei soltar os indiciados. Quem quiser que escolha o motivo. Expeçam-se os alvarás. Intimem-se.”

Palmas – TO, 05 de setembro de 2003.
Rafael Gonçalves de Paula

Juiz de Direito
In: Revista Consultor Jurídico, 2 de abril de 2004

ANJ critica censura da Justiça Eleitoral

A Associação Nacional de Jornais protesta com veemência contra a decisão do juiz auxiliar Roberval Casemiro Belinati, do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal, de proibir a divulgação de gravação de conversa telefônica entre o ex-governador Joaquim Roriz e o candidato a deputado federal Eri Varela. Na conversa, os dois políticos criticam o candidato ao governo do Distrito Federal José Roberto Arruda.

A liminar do juiz, concedida a partir de ação movida pelo ex-governador e o candidato a deputado, afirma que a divulgação da gravação acarretaria “cen­sura aos meios de comu­ni­ca­ção”“prejuízos político-eleitorais” para os dois políticos.

A decisão do juiz impõe absurda censura aos meios de comunicação, em clara violação à Constituição, que expressamente veta qualquer tipo de proibição à divulgação de informações. A ANJ lamenta que a Justiça brasileira, com freqüência preocupante, venha exercendo a função de censora dos meios de comunicação e espera que instâncias superiores anulem a liminar concedida pelo juiz, reestabelecendo o princípio maior da liberdade de informação.

Nelson P. Sirotsky

Presidente da Associação Nacional de Jornais

FÁBULA XCVI

A peste dos animais

Um mal horrível, que a ira celeste inventou para punir os crimes da terra, a peste, fazia mil estragos entre animais. Nem todos morriam, mas todos, languidos, entorpecidos, quer de pavor, quer já por efeito da moléstia, arrastavam-se moribundos. Em tanta calamidade só valem grandes remédios. O leão convocou assembléia geral dos seus súditos, e assim falou: “Prestantes e amados vassalos, vós que o flagelo de Deus açoita, ouvi-me, e dai-me o auxílio de vossas luzes; nunca tão necessário “apla­car a ira celeste”nos foi, a nós todos, um bom conselho. Não é natural essa epidemia que nos vai devastando; cada dia morremos aos milhares; é por certo o castigo que algum crime de nossa raça está merecendo; cumpre pois aplacar a ira celeste. Lembrei-me a princípio de decretar um jejum de alguns dias; porém jejuando andamos todos pelo abatimento que a moléstia causa. Então ocorreu-me a idéia de fazermos aqui todos uma confissão geral, para descobrir-me qual o miserável cujo pecado nos trouxe semelhante desastre.” O parecer do rei foi por todos aprovado. O leão prosseguiu: “Não quero, nem para mim, injusto favor; se for o criminoso, com muita satisfação morrerei pelo meu povo; confesso pois que às vezes, em horas de fome, não respeitei bastante a vida do veado, da vitela, da ovelha, e nem mesmo a do pastor. Se julgais que são esses os crimes que o céu está punindo, dizei-o francamente, gostoso me imolarei ao bem de todos.” O javali, o tigre e outros muitos que tais, em coro aplaudiram: “Vossa Majestade está zombando! crimes, isso que praticou! nem são pecadinhos veniais. Comeu às vezes veados, ovelhas, pastores! Ora nisso muita honra lhes fazia!”

Continuou à confissão geral, nas ações dos mais ferozes brutos nada achou a assembléia que dizer; não houve crueza que todos à porfia não justificassem. Chega a vez do burro: “Senhores, disse ele, por mais que procure despertar minha consciência, a ver se me lembra algum crime que praticasse, nenhum me ocorre; somente “Malvado! Sacrilégio!”um dia estando com muita fome, passei por um prado, propriedade de um convento. A erva estava tenra, orvalhada, apetitosa; ninguém me via; tudo me incitava; passando pois, não pude resistir à tentação, e apanhei na boca uma pouca de erva que mais, a jeito achei…” — Malvado! bradaram juntos todos os tigres e javalis da assembléia; roubar a erva de um campo pertencente a convento! Sacrilégio! E por causa desse miserável todos estamos pagando! Súbito o pobre burro é imolado à divina justiça.

MORAL DA HISTÓRIA: Para o poderoso, qualquer que seja seu crime, nunca falta indulgência; o pobre ou fraco, nem que viva como santo, pode livrar-se; lá tem seu descuido, e esse não tem desculpa.

La Fontaine

Les Animaux malades de la peste (1678)
Adaptado por: Justiniano José da Rocha In: Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine)

Comentários

  1. Alex Marques
    30 de maio de 2008

    Muito bom mesmo …

    Realmente, a moral da história é o que resume claramente o quadro atual da sociedade brasileira.

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