A Esquerda Festiva

Alerta: a leitura desse artigo pode causar náusea e cefaléia. Havendo a presença dos sintomas, procurar orientação dos intelecutais indicados.

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A Esquerda Festiva

Alerta: a leitura desse artigo pode causar náusea e cefaléia. Havendo a presença dos sintomas, procurar orientação dos intelecutais indicados.

Publicado em 27 de novembro de 2010 por Olegario Schmitt

Há no nosso país certo tipo de pensamento, com características intelectualóides pseudo-doutas auto-atribuídas, proveniente daquela que é comumente chamada de “Esquerda Festiva”, que é grande expoente da classe pensante brasileira.

Esse termo originou-se a partir do golpe militar de 1964, quando alguns estudantes, artistas e intelectuais, não tomando parte da AÇÃO contra o regime militar, tentavam derrubá-lo discutindo suas idéias comodamente em bares e festas. De acordo com Cruz (2005), o termo foi

descrito por Zuenir Ventura em 1968: o ano que não terminou como uma expressão inventada pelo colunista Carlos Leonam em 1963, após o ministro San Thiago Dantas dizer que havia duas esquerdas no Brasil: “a esquerda positiva e a esquerda negativa”. Leonam, um atento cronista do comportamento carioca lançou a idéia: “tem outra esquerda, é a esquerda festiva”.

Notadamente acompanhados pelos participantes da “Esquerda Ballantine’s” e da “Gauche Caviar”, talvez encontrem-se mais claramente definidos por Roberto de Campos:

É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar – bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês; trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola…

Sobre isso também recomenda-se a leitura de Bar Don Juan, romance de Antônio Callado publicado em 1971.

Em outras palavras e com pouca extensão de sentido, a Esquerda Festiva trata-se de pessoas de classe média, média-alta e alta que discutem a triste situação “cuba-libre”da pobreza juntamente com suas idéias de esquerda sentados confortavelmente à beira de suas piscinas, ao mesmo tempo em que bebericam, entre mal-disfarçados gemidinhos de prazer, seus uísques 12 anos e suas “Cubas-Libres”.

Freqüentemente, os confrades festivos ostentam belas camisetas pop com a imagem de Che Guevara, acompanhadas pelas indefectíveis roupas velhas coloridas ao estilo hippie. Residem — a profundo contragosto, diga-se de passagem — em bairros notáveis como, por exemplo, Alphaville e Higienópolis.

Algumas dessas pessoas, inclusive, criticam a tragicidade de serem vítimas da violência enquanto fumam seu baseadinho e cheiram suas carreirinhas ao final do dia, esquecendo-se convenientemente do óbvio: sem consumidores não há traficantes.

A trilha sonora preferida por esses digníssimos pensadores e pela qual eles nutrem “trilha sonora”profundo senso de identificação, sem nenhuma surpresa é aquela orquestrada de maneira hábil por seu confrade Chico Buarque, parte dela composta durante seu período de exílio político.

Obviamente, a expressão “exílio político” foi adotada aqui por ironia, uma vez que o notório musicista optou — por livre e espontânea vontade — desertar da própria pátria no momento que lhe foi mais propício. E enquanto sofria profundamente em Paris (não em Cuba ou na então União Soviética, para onde qualquer esquerdista que se preze teria ido), aqueles que efetivamente lutaram contra a ditadura eram torturados e assassinados nos porões sombrios do DOPS ou às margens do Rio Araguaia.

Não é possível criticá-lo por ter amarelado e dado no pé, uma vez que tinha condições financeiras para tal, mas daí a ser admirado como um estandarte da resistência esquerdista há grande distância de hombridade moral.

Da mesma forma, como não poderia deixar de ser, os nobres-pensadores-jamais-hipócritas da Esquerda Festiva identificam-se também com o discurso do sociólogo de classe “visão da elite”alta Gilberto Freyre. Sem negar o inquestionável valor da sua obra Casa-Grande & Senzala, é importante que se ressalte, no entanto, algo extremamente básico e que qualquer pessoa com o mínimo senso crítico e capacidade intelectual seria capaz de perceber: trata-se da senzala vista a partir da casa-grande, ou seja, da visão da elite sobre a classe baixa, aquela elite mesma que a Esquerda Festiva faz parte e que diz tanto odiar.

Não é possível criticá-los por odiarem a elite, pois viver onde vivem deve ser mesmo algo muito terrível e profundamente desumano, assim como Chico Buarque ter vivido em Paris é algo tão profundamente degradante que não se deseja para ninguém.

Por isso, diante da visão de suas vidas atormentadas pela presença da comida quente à mesa “à ânfora das lágrimas!”todo dia, sugiro que se faça como Nero em Qvo Vadis e — ânfora das lágrimas em punho — se derrame uma lágrima para os esquerdistas de Alphaville e uma lágrima para os esquerdistas dos Jardins, em sinal de puro compadecimento e honesto sofrimento.

Isso posto, é desnecessário dizer que os festivos esquerdistas me provocam o mais profundo desprezo por sua hipocrisia mal-disfarçada e a mais intensa dó intelectual, pois a maioria com nível “superior” e acesso a educação e cultura. Além disso, a sua visão também me provoca a mais honesta pena espiritual, pois iludidos, e as mais orgânicas ânsias de vômito por ter o trato gástrico muito sensível a engodos.

BIBLIOGRAFIA

CALLADO, Antônio. Bar Don Juan. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1971.
CRUZ, Cláudia Helena da. Bar Don Juan (1971) de Antônio Callado: impasses políticos e estéticos do romance engajado. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais, Jan/Fev/Mar de 2005. Vol. 2. Ano II. Nº 1.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Rio de Janeiro: Record, 1998.
VENTURA, Zuenir. 1968: O Ano Que Não Terminou. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

Comentários

  1. Edu
    10 de fevereiro de 2014

    Concordo com o texto. Percebo isso no meu dia a dia. No entanto, você se considera esquerda ou direita?

  2. Olegario Schmitt
    10 de fevereiro de 2014

    Olha, uma vez, há muito tempo, eu era de esquerda. Mas quando Lula se elegeu pela primeira vez, votei em FHC. Não porque eu pensasse que FHC era o caminho, mas porque já sabia que Lula certamente não era. Meu voto, portanto, muito antes de ser FHC, foi não-Lula.

    Desde essa época não consigo mais ser de esquerda. Depois disso já fui também de direita. Porém, penso que atualmente ambos os lados são igualmente perigosos, extremistas e reacionários, de forma que não sei mais exatamente o que sou. Sei que sou anti-esquerda-festiva (da nova e da velha guarda), e sou anti-direita-extremista (que sempre foi a mesma)… e na atual conjuntura, isso é melhor que não saber nada.

    Porém, meu nojo pelo que se tornou a “esquerda” no nosso país é tão grande, tão gutural e profundo, que acabo pendendo um pouco, mas muito pouco, para a direita. Por quê? Porque quando olho para nossa “esquerda” não tenho como esquecer d’A Revolução dos Bichos, do Orwell. Aquele livro é tão profético…

    Sim, é certo que sempre haverão porcos. Mas um governo com alguns porcos (dentro do estatisticamente esperado, em se tratando de animais) é fundamentalmente diferente de um chiqueiro inteiro de porcos. Por isso, em se tratando de bacon, continuo preferindo o porco capitalista. Este, pelo menos, não dissimula, não maquia e não distorce a que veio.

    É importante lembrar que agora, além da Gauche Caviar, temos a nova modalidade de esquerdismo, recém inaugurada: o GAUCHE BACALHAU.

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