Expo­si­ção de Vik Muniz

Alguma coisa não bate...

Arte

Expo­si­ção de Vik Muniz

Alguma coisa não bate...

Publicado em 31 de maio de 2009 por Olegario Schmitt

Ode ao Lixo

Expo­si­ção: Vik Muniz
Cura­do­ria: Vik Muniz
Data: 19/05/2009
Local: MASP — São Paulo


São 131 obras ao todo, inte­gran­tes de 24 tra­ba­lhos dife­ren­tes: Linha, Equi­va­len­tes, Indi­ví­duos, Arame, Açú­car, Terra, Tinta, Mon­ti­nhos, Dia­man­tes e Caviar, Môna­das, Rebus, Revis­tas, Pig­men­tos, Cho­co­late, Mapa Mundi, Quebra-Cabeças, Papéis, Poeira, Lixo, Sucata, Duas Ban­dei­ras, Cores, Earth WorksCár­cere, além de uma ima­gem com­ple­ta­mente solta (Cami­nhante sobre um mar de cin­zas). Alguns tra­ba­lhos fazem parte de séries mai­o­res, outros são díp­ti­cos ou trípticos.

Sendo impro­fí­cuo dis­cor­rer sobre cada uma das séries indi­vi­du­al­mente, serão pon­tu­a­dos alguns “pon­tos altos” da expo­si­ção como, por exem­plo, o fato de a segunda série mos­trada, Equi­va­len­tes, dia­lo­gar com a ter­ceira, Indi­ví­duos. “diá­lo­gos“Numa, bichi­nhos fei­tos com algo­dão, clara refe­rên­cia ao pas­sa­tempo “infan­til” de des­co­brir ani­mais nas nuvens; nou­tra, nuvens dese­nha­das num céu limpo com o auxí­lio de aviões de fumaça. Nota-se aí, além da fina iro­nia que per­meia todo o tra­ba­lho, essa ten­dên­cia de apro­pri­a­ção do lúdico comum às pes­soas, para então transfigurá-lo.

Uma das séries que mais chama aten­ção, obvi­a­mente, é Açú­car: retra­tos de meni­nos negros são cons­truí­dos com açú­car sobre papel preto. O doce acaba por for­mar como que uma não-imagem, áreas de altas luzes deli­ne­ando a forma negra dos ros­tos de papel.

Dia­man­tes e Caviar parece ser uma refe­rên­cia aos jogos soci­ais de poder: mulhe­res com ima­gem influ­ente, reco­nhe­ci­das mun­di­al­mente, são cons­truí­das com dia­man­tes,“refe­rên­cias” homens são cons­truí­dos com caviar. Ambos os mate­ri­ais são exclu­si­vis­tas, res­tri­tos ape­nas àquilo que se con­si­dera a “nata” da soci­e­dade. Parece-me que nem sem­pre as pes­soas per­ce­bem a iro­nia exis­tente no raro sendo repre­sen­tado pelo raro, no expen­sivo pelo expensivo.

Mapa Mundi, por sua vez, é um tríp­tico for­mando um mapa mun­dial con­truído com des­carte ele­trô­nico (car­ca­ças de com­pu­ta­dor, tecla­dos, moni­to­res), mos­trando que aquilo que nos conecta tam­bém entope o pla­neta de lixo.

Não con­sigo, pes­so­al­mente, acre­di­tar que VM se iden­ti­fi­que inti­ma­mente com mui­tas das cau­sas soci­ais que aborda. Se por um lado ele parece ser opor­tu­nista, por outro, tal­vez sim­ples­mente “opor­tu­nismo?“se apro­prie de temas que este­jam em voga na soci­e­dade con­tem­po­râ­nea, utilizando-os como massa de mode­la­gem para sua mani­fes­ta­ção artís­tica. Havendo grande pos­si­bi­li­dade de erro em qual­quer uma das alter­na­ti­vas, é mais sen­sato que não se afirme nada.

Há, no entanto, alguma coisa nisso tudo que “não bate”, sen­sa­ção essa base­ada muito mais na impres­são de que há algo sub-reptício e subli­mi­nar no ser do artista do que em alguma cer­teza bio­grá­fica. Esse sen­ti­mento me faz acre­di­tar pia­mente ser errô­neo pen­sar que VM se pre­o­cupa com o lixo ele­trô­nico ou com os cata­do­res de lixo do Rio de Janeiro — estes últi­mos fazendo parte de um pro­jeto de inclu­são social e par­ti­ci­pando ati­va­mente na cons­tru­ção da obra.

Tal­vez a res­posta seja bas­tante sim­ples: para cons­truir a série Lixo era neces­sá­rio um grande número “mar­ke­ting social?” de pes­soas reco­lhendo e sele­ci­o­nando mate­rial, além de mão de obra a baixo custo.“Inclusão social” sem­pre é um tema que ajuda nas ven­das, atraindo a aten­ção da imprensa e dos pseudo-caridosos que se “con­doem” hipo­cri­ta­mente da situ­a­ção dos cata­do­res de lixo do Rio de Janeiro.

Se por um lado pode­mos pen­sar que Nar­ciso se afo­gando num lago de lixo é uma crí­tica à soci­e­dade con­su­mista e nar­ci­sista se con­su­mindo em si mesma, por outro lado, sendo o ponto de par­tida do artista sem­pre o pró­prio artista, sem­pre o seu Self, por que então, cons­ci­ente ou incons­ci­en­te­mente, Vik Muniz teria esco­lhido Nar­ciso den­tre inú­me­ras outras obras de arte?

Isso tudo, no entanto, é espe­cu­la­ção — tenho cons­ci­ên­cia de que, ao afir­mar tais coi­sas, corro o risco de “quei­mar eter­na­mente no fogo do inferno” man­tido cons­tan­te­mente aceso pelos pseudo-intelectuais que fazem a cul­tura no nosso planeta.

Em Earth Works, VM coloca os pés no chão, ou mais espe­ci­fi­ca­mente, mer­gu­lha de cabeça na land art: com o auxí­lio de máqui­nas aplai­na­do­ras e retro-escavadeiras, cons­trói figu­ras imen­sas na terra, as quais só podem ser vis­tas de avião ou heli­cóp­tero. Ao con­trá­rio“land art tosca” dos dese­nhos exis­ten­tes no deserto do Ata­cama — ara­nha, macaco, beija-flor, etc. — que lhe ser­vi­ram de ins­pi­ra­ção, VM repre­senta aqui for­mas urba­nas e con­tem­po­râ­neas: cha­ves, meias, óculos. Mais uma vez se faz notar a sua iro­nia, uma linha tênue separando-a do mero debo­che. É inte­res­sante obser­var que, mesmo com toda a tec­no­lo­gia uti­li­zada na cons­tru­ção des­sas obras, em ter­mos esté­ti­cos o artista fica bas­tante aquém daque­las do Ata­cama: as ima­gens não são muito ela­bo­ra­das, exceto pelo tama­nho. Foi intencional?

A mos­tra é con­cluída por uma ima­gem sozi­nha, Cami­nhante sobre um mar de cin­zas, feita com cin­zas e bitu­cas de cigarro — o fim do cigarro, o aban­do­nado, o jogado fora. Essa obra dis­persa das demais parece uma ten­ta­tiva de nar­ra­tiva cir­cu­lar, ela nela mesma.

Qua­tro vídeo-documentários em time-lapse rodam em loo­ping no andar infe­rior, mos­trando o pro­cesso de cons­tru­ção de algu­mas obras. As pes­soas embas­ba­ca­das em frente a essas telas, por sua vez, pare­ciam elas mes­mas uma obra de arte, ver­da­dei­ros tableau-vivants da con­tem­po­ra­nei­dade hipnotizada.

No final, ficou a impres­são de que Vik Muniz é sobre­ma­neira um artista da escó­ria, ou seja, de tudo aquilo que é con­si­de­rado sem valor pela soci­e­dade con­tem­po­râ­nea: “artista da escó­ria“poeira, cin­zas, revis­tas velhas, lixo, brin­que­dos pro­du­zi­dos em massa. VM encon­tra sua arte em luga­res impro­vá­veis. É quase um esban­jar talento, como quem diz, arro­gan­te­mente, “eu faço arte com tudo”. É irô­nico, icô­nico e, à sua maneira, pop.

Sua busca cons­tante, obses­siva e infa­ti­gá­vel pela arte em tudo me lem­brou muito a busca de Mario Quin­tana por sua poe­sia: “Sub­nu­trido de beleza, meu cachorro-poema vai fare­jando poe­sia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará des­per­di­çado por aí... Quanto filho­ti­nho de estrela ati­rado no lixo!”

Comentários

  1. Caro­lina, 15
    27 de julho de 2009

    Muito boa a espo­si­ção de Vuk Muniz. Visita téc­nica foi uma das melhores.

  2. rita soa­res dzirba cunha
    10 de agosto de 2010

    ado­rei todas as obras do artista em questao

  3. leo­nardo
    12 de maio de 2011

    as obras de Vik são todas ótimas e ten­tam nos mos­trar a vida de uma outra maneira

  4. leo­nardo
    12 de maio de 2011

    umas das melho­res obras de Vik munis foi o mar vermelho

  5. anô­nimo
    12 de maio de 2011

    vik munis pre­cisa da opi­nião de alguns especialistas.......................................eu

  6. anô­nimo
    12 de maio de 2011

    não sei se pode­mos cha­mar o que ele faz de arte

  7. wes­lei
    12 de maio de 2011

    é ver­dade isso não é arte
    é o talento
    que ele tem

  8. leo­nan
    19 de maio de 2011

    pre­ciso falar com vik que­ria dizer que suas“obras“são todas litral­mente um lixo kkkkkkk!!!

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