março de 2010

Conto funesto, sur­re­a­lista e alucinado

Publicado em 15 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Mesmo o sol tendo aca­bado de se por, a tem­pe­ra­tura ainda deve estar em torno de 35 graus. O ven­ti­la­dor de teto, de modelo anti­quado e pás muito lar­gas, gira vaga­ro­sa­mente sobre sua cabeça, mal e mal insi­nu­ando uma leve brisa. A noite vai caindo enquanto as luzes mati­za­das da rua vão tin­gindo len­ta­mente a sala. Ele arrasta-se sem ânimo até o toca-discos e põe para tocar sua inse­pa­rá­vel Suíte para Solo de Violoncelo.

A música pre­en­che o ambi­ente com os tim­bres angus­ti­an­tes daquele ins­tru­mento, cujo som ele acre­dita se asse­me­lhar ao choro incon­so­lá­vel que brota do fundo da gar­ganta de uma viúva. É com­ple­ta­mente tomado por mal de vivre um estado de tor­por, parte cau­sado pela pró­pria tem­pe­ra­tura, parte pelo mal de vivre que lhe acom­pa­nha desde sem­pre, mons­tri­nho de esti­ma­ção esse ao qual ali­menta inces­san­te­mente com novos deses­tí­mu­los, seja calor, música, ou pen­sa­men­tos obscuros.

Afunda-se na pol­trona da sala a qual, com uma perna frouxa, balança sob seu peso. A modorra que brota vigo­ro­sa­mente do fundo de suas entra­nhas vai cres­cendo cada vez mais con­forme se deixa inva­dir pelos acor­des gra­ves do violoncelo.

Com uma mão, seca o suor pas­toso que lhe escorre da testa e coça a sua barba de há dias, enquanto a outra lhe for­nece um dedo ávido o qual vai intro­du­zindo com deses­pero e sofre­gui­dão bem fundo“lim­pando o salão” no seu nariz. Em ges­tos cir­cu­la­res, cavouca o inte­rior de seu septo bus­cando lá den­tro alguma coisa, uma idéia escon­dida, uma lágrima soli­di­fi­cada, um pedaço do pró­prio cére­bro que tenha escor­rido pelas nari­nas, qual­quer coisa que torne sua vida pior.

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