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março de 2010

As simi­la­ri­da­des entre escri­to­res e serial-killers

Publicado em 24 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Escre­ver é uma forma de crime e, por isso, todo escri­tor cul­tiva den­tro de si carac­te­rís­ti­cas pecu­li­a­res a um serial-killer. Como este, con­se­gue igno­rar sole­ne­mente aquela vozi­nha do ego que diz “você não deve­ria fazer escre­ver isso, vão aca­bar pen­sando que você está falando é de você mesmo”. O assas­sino em série, como o escri­tor, na ver­dade sabe muito bem dife­ren­ciar o certo do errado, mas sim­ples­mente não se importa. “É como se uma força, mais forte do que eu, me impe­lisse a matar escre­ver”. “Quando vol­tei a mim, já havia come­tido o crime conto”.

Todo escri­tor é um sór­dido. Nas cenas finais de Ham­let, os per­so­na­gens inva­ri­a­vel­mente matando-se uns aos outros, Sha­kes­pe­are nada faz para impedi-los. Ele pode­ria trans­for­mar, subi­ta­mente, as espa­das em len­ços de seda e os vene­nos em pur­gan­tes, evi­tando assim o trá­gico des­fe­cho. Mas Sha­kes­pe­are não faz nada. E se não faz nada é por­que na ver­dade ele gosta.

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Conto funesto, sur­re­a­lista e alucinado

Publicado em 15 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Mesmo o sol tendo aca­bado de se por, a tem­pe­ra­tura ainda deve estar em torno de 35 graus. O ven­ti­la­dor de teto, de modelo anti­quado e pás muito lar­gas, gira vaga­ro­sa­mente sobre sua cabeça, mal e mal insi­nu­ando uma leve brisa. A noite vai caindo enquanto as luzes mati­za­das da rua vão tin­gindo len­ta­mente a sala. Ele arrasta-se sem ânimo até o toca-discos e põe para tocar sua inse­pa­rá­vel Suíte para Solo de Violoncelo.

A música pre­en­che o ambi­ente com os tim­bres angus­ti­an­tes daquele ins­tru­mento, cujo som ele acre­dita se asse­me­lhar ao choro incon­so­lá­vel que brota do fundo da gar­ganta de uma viúva. É com­ple­ta­mente tomado por mal de vivre um estado de tor­por, parte cau­sado pela pró­pria tem­pe­ra­tura, parte pelo mal de vivre que lhe acom­pa­nha desde sem­pre, mons­tri­nho de esti­ma­ção esse ao qual ali­menta inces­san­te­mente com novos deses­tí­mu­los, seja calor, música, ou pen­sa­men­tos obscuros.

Afunda-se na pol­trona da sala a qual, com uma perna frouxa, balança sob seu peso. A modorra que brota vigo­ro­sa­mente do fundo de suas entra­nhas vai cres­cendo cada vez mais con­forme se deixa inva­dir pelos acor­des gra­ves do violoncelo.

Com uma mão, seca o suor pas­toso que lhe escorre da testa e coça a sua barba de há dias, enquanto a outra lhe for­nece um dedo ávido o qual vai intro­du­zindo com deses­pero e sofre­gui­dão bem fundo“lim­pando o salão” no seu nariz. Em ges­tos cir­cu­la­res, cavouca o inte­rior de seu septo bus­cando lá den­tro alguma coisa, uma idéia escon­dida, uma lágrima soli­di­fi­cada, um pedaço do pró­prio cére­bro que tenha escor­rido pelas nari­nas, qual­quer coisa que torne sua vida pior.

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Como rea­gem as per­so­na­li­da­des da polí­tica latri­no­a­me­ri­cana nos momen­tos de crise?

Publicado em 11 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Hoje, apro­xi­ma­da­mente 20 minu­tos antes da posse do novo pre­si­dente eleito do Chile, Sebas­tián Piñera, aquele país foi atin­gido por mais um ter­re­moto, alcan­çando 6,9 graus na Escala Rich­ter e ter­ri­fi­cando os pre­si­den­tes da Amé­rica Latrina pre­sen­tes no evento.

Não esque­ça­mos que o fato se deu nesse mesmo nosso con­ti­nente onde a falta de memó­ria parece ser um mal gene­ra­li­zado e onde cenas que deve­riam ser uni­ca­mente trá­gi­cas fre­quen­te­mente se trans­for­mam em cenas tra­gicô­mi­cas. Nós apren­de­mos a rir de nos­sas pró­prias tra­gé­dias. Aliás, apren­de­mos tão bem que agora não leva­mos quase nada a sério.

Como sabe­mos, é nos momen­tos de fra­queza que todos mos­tram quem ver­da­dei­ra­mente são. A terra tre­meu, as más­ca­ras caí­ram e, obvi­a­mente, aca­bou por revelar-se uma das cenas mais pân­de­gas do ano.

Leo La Valle/EFE

Rafael — A Bên­ção de Cristo (c. 1506)

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