novembro de 2010

Alerta: a lei­tura desse artigo pode cau­sar náu­sea e cefa­léia. Havendo a pre­sença dos sin­to­mas, pro­cu­rar ori­en­ta­ção dos inte­le­cu­tais indicados.

Publicado em 27 de novembro de 2010 por Olegario Schmitt

Há no nosso país certo tipo de pen­sa­mento, com carac­te­rís­ti­cas inte­lec­tu­a­lói­des e pseudo-doutas auto-atribuídas e pro­ve­ni­ente daquela que é comu­mente cha­mada de “Esquerda Fes­tiva”, o qual é grande expo­ente da classe pen­sante brasileira.

Esse termo originou-se a par­tir do golpe mili­tar de 1964, quando alguns estu­dan­tes, artis­tas e inte­lec­tu­ais, não tomando parte da AÇÃO con­tra o regime mili­tar, ten­ta­vam derrubá-lo dis­cu­tindo suas idéias como­da­mente em bares e fes­tas. De acordo com Cruz (2005), o termo foi

des­crito por Zue­nir Ven­tura em 1968: o ano que não ter­mi­nou como uma expres­são inven­tada pelo colu­nista Car­los Leo­nam em 1963, após o minis­tro San Thi­ago Dan­tas dizer que havia duas esquer­das no Bra­sil: “a esquerda posi­tiva e a esquerda nega­tiva”. Leo­nam, um atento cro­nista do com­por­ta­mento cari­oca lan­çou a idéia: “tem outra esquerda, é a esquerda fes­tiva”. Con­ti­nuar lendo »

Argu­men­tos rasos, tra­ba­lhos rasteiros...

Publicado em 05 de outubro de 2010 por Olegario Schmitt

Freqüen­te­mente são uti­li­za­das expres­sões como “esse tra­ba­lho é muito ras­teiro” ou “esse é um argu­mento raso”. Mas ras­teiro é perto do chão e chão já é quase pro­fundo. Do raso para o pro­fundo, igual­mente, basta um passo, a des­peito do grande risco de se cair num abismo.

Tal­vez fosse mais apro­pri­ado dizer “esse tra­ba­lho atin­giu as nuvens” ou “esse argu­mento é estra­tos­fé­rico”, da mesma forma que se fala de obje­tos voa­do­res não identificados.

Sim, por­que cer­tas obras e deter­mi­na­dos argu­men­tos pare­cem ter sido cri­a­dos por ver­da­dei­ros ali­e­ní­ge­nas, os quais falam uma“con­ver­sa­ção ali­e­ní­gena” lín­gua que ape­nas eles com­pre­en­dem. Some-se a isso os habi­tan­tes de outros pla­ne­tas, que não têm nada a ver com o pla­neta em ques­tão, mas unem-se aos pri­mei­ros seguindo a dinâ­mica out­si­der, não sig­ni­fi­cando que os segun­dos neces­sa­ri­a­mente com­pre­en­dam a lín­gua dos pri­mei­ros, mas sabem fin­gir muito bem.

Con­ti­nuar lendo »

Sabe D’us do que...

Publicado em 07 de setembro de 2010 por Olegario Schmitt

Gau­den­zio Mar­coni (1841–1885), Le tireur d’épine (“O Espi­ná­rio”), c. 1870

A arte con­tem­po­râ­nea na mai­o­ria das vezes, como diria Millôr, é “um não sei quê pra não sei como” e isso me deixa sim­ples­mente nauseado.

Mas, afi­nal, é disso mesmo que se trata a arte con­tem­po­râ­nea, não é? De pro­vo­car uma rea­ção no espectador?

Por­tanto, como espec­ta­dor, me sinto no direito de ter a rea­ção que eu achar ade­quada, como naquela vez em que fui ver uma obra do Nuno Ramos onde tinha de tirar os sapa­tos e ficar cami­nhando em cima dela só de meias. Fiquei pen­sando “eis aí o meu chulé. o meu chulé é o que eu penso da sua obra. toma, toma chulé na sua obra de merda, toma”.

Con­fesso que impreg­nar a obra de Nuno Ramos com meu chulé foi uma sen­sa­ção liber­ta­dora. E a arte existe pra isso mesmo, né? Pra liber­tar... nem que seja o chulé.

Sobre isso pen­sar você vai?

Publicado em 31 de agosto de 2010 por Olegario Schmitt

Look, Mamma, I went blue and cubist at the same time

Uma vez eu conheci um poeta que escre­via tudo de trás pra frente. Em vez de dizer “o céu é azul e bonito” ele dizia algo como “céu, bonito e azul, é”. Aí você per­dia horas mon­tando o verso na seqüên­cia cor­reta só pra des­co­brir enfim que ele que­ria dizer ape­nas e sim­ples­mente “o céu é azul e bonito”.

Como sem­pre gos­tei muito do Mario Quin­tana e quando este que­ria dizer que o céu era bonito e azul sim­ples­mente pegava e dizia, per­gun­tei pro poeta esse qual era o sen­tido de escre­ver tudo de trás pra frente.

Ele não gos­tou — dis­s­que ele era um douto que tinha estu­dado mui­tos anos pra apren­der a escre­ver de trás pra frente e dis­s­que isso era muito chi­que, sobre­tudo pra quem tinha estu­dado mui­tos anos.

Quin­tana e eu não havía­mos estu­dado mui­tos anos, a gente não tinha vindo de escola nenhuma. Aca­ba­mos per­dendo o amigo e mais uns outros que gos­ta­vam de coi­sas de trás pra frente assim como ele.

Ainda agora, tan­tos anos pas­sa­dos, essa his­tó­ria me con­some, por­que até hoje não des­co­bri se ele era um poeta cubista ou algum tipo de Mes­tre Yoda da metalinguística.

Você é daquele tipo que não julga? Para­béns, você é um cretino!

Publicado em 28 de agosto de 2010 por Olegario Schmitt

Lago Argen­tino, El Calafate

Todo con­ceito é ou será um pre­con­ceito. Isso se dá a par­tir do momento em deter­mi­nada pes­soa pense dife­rente de você. O que acon­tece então é que o con­ceito DELA é que será o con­ceito, e o seu será o pré-conceito.

Taxar algo de pre­con­ceito é algo que não chega real­mente a ser um argu­mento, mas sim um golpe baixo, tão baixo a ponto de fazer A Arte de Insul­tar de Scho­pe­nhauer um livro para cri­an­ças em fase pré-cognitiva.

Trata-se de uma argu­men­ta­ção vazia em si mesma: por ser pre­con­ceito, não tem sen­tido, mas “argu­mento vazio“não tem sen­tido UNI­CA­MENTE por ser pre­con­ceito. Atente-se tam­bém para o fato de que o acu­sa­dor não con­si­dera sua pró­pria defi­ni­ção ela mesma um pre­con­ceito: pre­con­ceito é uni­ca­mente o con­ceito do outro.

Con­ti­nuar lendo »

Ono­ma­to­péias, metá­fo­ras, hipér­bo­les e catacreses...

Publicado em 21 de maio de 2010 por Olegario Schmitt

Ima­gem tosca, por­que eu estava com preguiça

Hoje é Dia da Lín­gua Naci­o­nal, essa mesma que a nova reforma orto­grá­fica ten­tou destruir.

Então faça­mos todos um clap-clap para as ono­ma­to­péias e nos per­mi­ta­mos afun­dar no poço das metá­fo­ras enquanto der­ra­ma­mos rios hiper­bó­li­cos de lágri­mas e, cata­cré­si­cos, fri­ta­mos o coco da cabeça pela morte do trema e do acento da ideia.

As simi­la­ri­da­des entre escri­to­res e serial-killers

Publicado em 24 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Escre­ver é uma forma de crime e, por isso, todo escri­tor cul­tiva den­tro de si carac­te­rís­ti­cas pecu­li­a­res a um serial-killer. Como estes, con­se­gue igno­rar sole­ne­mente aquela vozi­nha do ego que diz “você não deve­ria fazer escre­ver isso, vão aca­bar pen­sando que você está falando é de você mesmo”. O assas­sino em série, como o escri­tor, na ver­dade sabe muito bem dife­ren­ciar o certo do errado, mas sim­ples­mente não se importa. “É como se uma força, mais forte do que eu, me impe­lisse a matar escre­ver”. “Quando vol­tei a mim, já havia come­tido o crime conto”.

Todo escri­tor é um sór­dido. Nas cenas finais de Ham­let, os per­so­na­gens inva­ri­a­vel­mente matando-se uns aos outros, Sha­kes­pe­are nada faz para impedi-los. Ele pode­ria trans­for­mar, subi­ta­mente, as espa­das em len­ços de seda e os vene­nos em pur­gan­tes, evi­tando assim o trá­gico des­fe­cho. Mas Sha­kes­pe­are não faz nada. E se não faz nada é por­que na ver­dade ele gosta.

Con­ti­nuar lendo »

Conto funesto, sur­re­a­lista e alucinado

Publicado em 15 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Mesmo o sol tendo aca­bado de se por, a tem­pe­ra­tura ainda deve estar em torno de 35 graus. O ven­ti­la­dor de teto, de modelo anti­quado e pás muito lar­gas, gira vaga­ro­sa­mente sobre sua cabeça, mal e mal insi­nu­ando uma leve brisa. A noite vai caindo enquanto as luzes mati­za­das da rua vão tin­gindo len­ta­mente a sala. Ele arrasta-se sem ânimo até o toca-discos e põe para tocar sua inse­pa­rá­vel Suíte para Solo de Violoncelo.

A música pre­en­che o ambi­ente com os tim­bres angus­ti­an­tes daquele ins­tru­mento, cujo som ele acre­dita se asse­me­lhar ao choro incon­so­lá­vel que brota do fundo da gar­ganta de uma viúva. É com­ple­ta­mente tomado por mal de vivre um estado de tor­por, parte cau­sado pela pró­pria tem­pe­ra­tura, parte pelo mal de vivre que lhe acom­pa­nha desde sem­pre, mons­tri­nho de esti­ma­ção esse ao qual ali­menta inces­san­te­mente com novos deses­tí­mu­los, seja calor, música, ou pen­sa­men­tos obscuros.

Afunda-se na pol­trona da sala a qual, com uma perna frouxa, balança sob seu peso. A modorra que brota vigo­ro­sa­mente do fundo de suas entra­nhas vai cres­cendo cada vez mais con­forme se deixa inva­dir pelos acor­des gra­ves do violoncelo.

Com uma mão, seca o suor pas­toso que lhe escorre da testa e coça a sua barba de há dias, enquanto a outra lhe for­nece um dedo ávido o qual vai intro­du­zindo com deses­pero e sofre­gui­dão bem fundo“lim­pando o salão” no seu nariz. Em ges­tos cir­cu­la­res, cavouca o inte­rior de seu septo bus­cando lá den­tro alguma coisa, uma idéia escon­dida, uma lágrima soli­di­fi­cada, um pedaço do pró­prio cére­bro que tenha escor­rido pelas nari­nas, qual­quer coisa que torne sua vida pior.

Con­ti­nuar lendo »

Designed by