novembro de 2009

Deixe de macaquices!

Publicado em 03 de novembro de 2009 por Olegario Schmitt

Ele­men­tar: foto-grafia, escrita da luz.

Aque­les que “batem” fotos uti­li­zam muito a expres­são foto­gra­fia ana­ló­gica... As pes­soas inven­tam cada coisa, não é?! Pri­meiro, não entendo o porquê de tanto ódio, dessa neces­si­dade de ficar batendo na foto como se ela tivesse feito alguma coisa de ruim. Segundo... o que exa­ta­mente quer dizer “analógico”?

Ana­ló­gico vem de ana­lo­gia, ou seja, é algo que apre­senta rela­ção ou seme­lhança entre coi­sas ou fatos. Con­si­de­rar uma foto­gra­fia como sendo ana­ló­gica, por­tanto, é retro­ce­der ao pen­sa­mento“ana­ló­gico: seme­lhança” posi­ti­vista dis­se­mi­nado no século XIX que con­si­de­rava a foto­gra­fia como “cópia exata, repro­du­ção fiel da rea­li­dade”. Ou seja, quem diz “foto­gra­fia ana­ló­gica” está dizendo de maneira implí­cita que a foto­gra­fia é algo mera­mente cien­tí­fico, jamais sendo fruto de cri­a­ção e/ou inter­pre­ta­ção por parte do agente por trás da câmera.

Dessa forma, dizer “foto­gra­fia ana­ló­gica” é o mesmo que cha­mar o fotó­grafo de macaco, ou seja, de mero aper­ta­dor de botões. Não que estes não exis­tam, mas na parte que me toca, acre­dito (ou pre­firo acre­di­tar) que faço bas­tante pro­veito dos 3% de carga gené­tica que me dife­ren­ciam de um chim­panzé. Por­tanto, se você diz “foto­gra­fia ana­ló­gica” saiba que o macaco, na ver­dade, é você.

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E não con­vi­dei nin­guém pro Kisuco de groselha!

Publicado em 25 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

Noivo insone ofi­ci­a­liza casa­mento com noiva neurótica

Deu-se nessa semana na cidade de São Paulo a ofi­ci­a­li­za­ção do matrimô­nio entre o autor desse blog e a citada metró­pole. Uma vez já fato con­su­mado há mais de 5 anos, os noi­vos comu­ni­cam que não haverá celebrações.

Outros­sim, infor­mam que a pai­xão do nubente con­ti­nua inal­te­rada, ape­sar da indi­fe­rença da pro­me­tida. Tes­te­mu­nhas teriam-no ouvido dizer “o amor é mesmo cego, pena não ser tam­bém surdo: a des­po­sada não se cala um minuto que seja”.

A feliz união foi regis­trada no car­tó­rio da 2ª Zona Elei­to­ral dessa cidade.

Você não gosta de mim? Ainda bem. Obrigado.

Publicado em 23 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

Não há coisa que inti­ma­mente mais me cause pra­zer no mundo do que saber ou perceber-me odiado.

Isso se dá por­que aque­les que me amam pos­suem em rela­ção a mim certa pro­por­ção de simi­la­ri­dade: amam-me somente por­que até certo ponto sou simi­liar a elas mes­mas e é pro­vá­vel que pes­soa alguma ame a alguém que não seja si própria.

De minha parte, amo-as pelos mes­mos moti­vos: amá-las é uni­ca­mente amar o tanto de mim que vejo nelas, já que ao res­tante desprezo.

Igual­mente, saber-me amado por deter­mi­na­das pes­soas me seria um cas­tigo tão insu­por­tá­vel que gosto quando elas me odeiam pois assim tenho cer­teza de que não somos iguais em nada.

Sobre “A pro­du­ção social da iden­ti­dade e da dife­rença” de Tomaz Tadeu da Silva

Publicado em 23 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

O autor dis­corre nesse ensaio como se dá o pro­cesso social de cons­tru­ção da iden­ti­dade e da dife­rença. Isso que ele chama de “peda­go­gia da dife­rença”, é fun­da­men­tal para a estru­tu­ra­ção do seu pen­sa­mento uma vez que todo nosso pro­cesso cog­ni­tivo comu­mente é cons­truído sobre a “peda­go­gia da igual­dade” (ou, com outras pala­vras, da “peda­go­gia da identidade”).

Como a cons­tru­ção cul­tu­ral de sen­tido cons­ci­en­te­mente se dá por ana­lo­gia e não por anti­no­mia1, por isso se mos­tra impres­cin­dí­vel toda a parte ini­cial do ensaio, jus­ta­mente para des­cons­truir esse “lin­gua­gem: sis­tema de dife­ren­ças“vício lingüís­tico: citando Sau­surre, Da Silva aponta o incons­ci­ente desse pro­cesso: “a lin­gua­gem é, fun­da­men­tal­mente, um sis­tema de dife­ren­ças”. Ao mos­trar que ao dizer “vaca”, ao mesmo tempo se diz “não-porco”, “não-cavalo”, etc., nos apre­senta o cami­nho con­trá­rio daquilo que con­si­de­ra­mos a cons­tru­ção do conhe­ci­mento: ao dizer­mos os sinô­ni­mos esta­mos dizendo igual­mente todos os antô­ni­mos. Isso obvi­a­mente faz todo o sen­tido, mas nunca pen­sa­mos nisso.

Todo o dis­curso sobre a cons­tru­ção dos sig­nos é uma espé­cie de enge­nha­ria reversa da atri­bui­ção da iden­ti­dade e da dife­rença e, afi­nal, é ape­nas com­pre­en­dendo intrin­se­ca­mente a dinâ­mica de um deter­mi­nado pro­cesso que se torna pos­sí­vel desconstruí-lo.

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Nas ruas de São Paulo

Publicado em 22 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

#1 do díp­tico “Amor em Pedaços”

— Tem cora­ção?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior.
— Ah, tem não.
— Não tem hoje ou não tem nunca?
— A gente não vende isso não.
— Que coisa... e se eu enco­men­dar, aí tem?
— Tem não.
— E onde será que eu encon­tro cora­ção aqui em São Paulo?
— Lá na Lapa tem...
— Nossa, na Lapa?! Que longe... na Lapa de Cima ou na Lapa de Baixo?
— No Mer­cado da Lapa tem. Se tiver cora­ção, é lá.

— Tem cora­ção?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior...
— Ô, Antô­nho, tem cora­ção aí?
— Tê, tem, mais cabô!
— Ó, moço, cora­ção só na semana que vem, viu? Isso se tiver!
— A gente tá mesmo fodido nessa cidade...
— ...
— Você sabe se tem outro açou­gue aqui perto?

É “fogo que arde sem se ver”, mas não é amor

Publicado em 17 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

Série Ins­tan­tâ­neos Con­cei­tu­ais ou Non-Sense Sobre o Des­tino de Uma Cabeça de Fósforo

Erra muito menos quem, com olhar som­brio, con­si­dera esse mundo como uma espé­cie de inferno e, por­tanto, só se pre­o­cupa em con­se­guir um recanto à prova de fogo.
Scho­pe­nhauer In: Afo­ris­mos Para a Sabe­do­ria de Vida

De peca­dor metido em tal ori­fí­cio ficava de fora dos pés à bar­riga da perna, ficando oculto o resto do corpo. Ardiam-lhes as plan­tas dos pés, ace­sas por inteiro, e nesse sofrer tanto se estor­ciam que teriam podido rom­per laços e cor­das. Do cal­ca­nhar aos dedos cor­riam cha­mas, infla­ma­das como se fla­me­jas­sem sobre corpo untado com gor­dura.
Dante In: A Divina Comé­dia, Canto XIX do Inferno

A lín­gua tam­bém é um fogo; sim, a lín­gua, qual mundo de iniqüi­dade, colo­cada entre os nos­sos mem­bros, con­ta­mina todo o corpo, e inflama o curso da natu­reza, sendo por sua vez infla­mada pelo inferno.
Evan­ge­lho de Tiago, 3,6

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Sobre o “Ensaio teó­rico sobre as rela­ções estabelecidos-outsiders” de NOR­BERT, E. e SCOT­SON, J. L.

Publicado em 04 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

Durante toda a minha vida sem­pre tive imensa difi­cul­dade de per­ten­cer a algum grupo (ou tribo, como se diz con­tem­po­ra­ne­a­mente) espe­cí­fico — aca­bando por tran­si­tar entre diver­sos meios hete­ro­gê­neos entre si sem me sen­tir real­mente per­ten­cendo a nenhum deles. Minha aná­lise até então era de que a não-aceitação acon­te­cia devido a dife­ren­ças iden­ti­fi­ca­ti­vas — de gos­tos, ide­o­lo­gias ou méti­ers. Por exem­plo, na ado­les­cên­cia nunca fui aceito no grupo que gos­tava de heavy-metal por gos­tar igual­mente de música clás­sica e bossa-nova; estes, por sua vez, tam­bém não me acei­ta­vam jus­ta­mente pelo motivo inverso. Nunca fui muito bem aceito entre os artis­tas plás­ti­cos por ser tam­bém escri­tor, e entre os escri­to­res por ser tam­bém fotó­grafo, e entre os fotó­gra­fos, embora em menor escala, pelos dois moti­vos anteriores.

A soci­e­dade exige — e cobra isso de maneira nem sem­pre tácita — que se per­tença1 por inteiro “a soci­e­dade exige que se per­tença“a esse ou àquele grupo: ou você é escri­tor, ou é fotó­grafo, ou é artista plás­tico. E se gos­tar de Bel­lini então que não ouse ouvir AC/DC. Se gos­tar de coi­sas que os outros não gos­tam, os outros não gos­ta­rão de você — a acei­ta­ção se dá na medida em que não são expos­tas tais coi­sas que o fazem dife­rente dos demais. Quanto mais igual, maior a chance de pertencer.

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Essa poeta é uma seren­di­pi­dade ambulante

Publicado em 12 de agosto de 2009 por Olegario Schmitt

Seren­di­pi­dade é a apti­dão, facul­dade ou dom de atrair o acon­te­ci­mento de coi­sas feli­zes ou úteis, ou de descobri-las por acaso. Em deri­va­ção por meto­ní­mia, é cada uma des­sas coi­sas feli­zes ou úteis. (Hou­aiss)

Seren­di­pi­dade I

Há diver­sos anos — nin­guém sabe exa­ta­mente quan­tos, mas tal­vez seja uns 10 — Nalú Nogueira e eu nos encon­tra­mos em algum recanto vir­tual de poe­tas. Foi uma coisa esqui­sita: nos gos­ta­mos de pronto, para todo o sem­pre amém. Escre­vía­mos jun­tos, díade: cada um fazendo um verso como uma valsa. Por vezes ter­mi­ná­va­mos os escri­tos um do outro. Virá­va­mos dias e noi­tes em fre­ne­sis lite­rá­rios infindáveis.

Nunca nos vimos pes­so­al­mente. Porém, ao con­trá­rio do que pode pen­sar os incau­tos — ou não ini­ci­a­dos —, os bits, bytes e Kby­tes eram ape­nas o meio de mate­ri­a­li­za­ção de algo deve­ras real.

Dico­to­mia: os tem­pos foram pas­sando con­forme aban­do­ná­va­mos len­ta­mente esse único meio de con­ví­vio. Per­de­mos o con­tato, cada um foi para um canto, isso acon­tece com todo mundo.

Seren­di­pi­dade II

Mui­tos anos depois, nos reen­con­tra­mos no Twit­ter, atra­vés de uma amiga em comum. Foi meio por acaso, óbvio!

Esta­mos deve­ras dife­ren­tes, pra­ti­ca­mente não escre­ve­mos mais poe­sia. Mas ainda somos feli­zes — nem mais nem menos, ape­nas diferente.

Seren­di­pi­dade III

Revi­rando minhas velhas cai­xas à pro­cura de um manual, encon­trei um impresso enca­der­nado com a capa azul trans­pa­rente. Claro, tinha de ser azul. Claro, tinha de ser trans­pa­rente. Claro, tinha de ser uma vez mais atra­vés da serendipidade.

Na capa, em letras gar­ra­fais: Nalú Nogueira — trata-se de uma sele­ção de poe­mas dessa poe­ta­miga a quem admiro tanto.

Fui atro­pe­lado por um jorro de emo­ções esque­ci­das e a sau­dade bateu. Como não poeto mais com tanta faci­li­dade, resolvi fazer essa série de três arti­gos para Nalú Nogueira. Não cabia tudo num só, assim como às vezes aquilo que sen­ti­mos não cabe tudo num poema.

Não sei ao certo se é na ten­ta­tiva de que algo não morra ou de que res­sus­cite, mas tenho cer­teza de que a Pala­vra deve se man­ter sem­pre viva den­tro de nós.

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