dezembro de 2008

Uma his­tó­ria difí­cil de acreditar

Publicado em 30 de dezembro de 2008 por Olegario Schmitt

R.I.P.

Deu-se que não comia porco. Nem puchero, nem mor­ci­lha, nem cabeça, nem tor­resmo. Em suma, não comia nada daquilo que fazia um gaú­cho ver­da­dei­ra­mente gaú­cho, macho fode­dor de ten­dên­cias zoó­fi­las — e de toda gaú­cha uma fêmea inti­ma­mente resig­nada, sub­missa ao seu provedor.

Mas não era o fato em si de não comer porco que os agre­dia. Antes, era sim­ples­mente a ausên­cia de algum motivo plau­sí­vel: se não pudesse fazê-lo devido a doença gra­vís­sima, vá lá. Transformar-se-ia inclu­sive numa espé­cie de már­tir da tra­di­ção, impe­dido uni­ca­mente pela pró­pria vida em risco — não seria sim­ples­mente por von­tade de não comer:“sem motivo plau­sí­vel” “Que­rer até que que­ria, coi­tado, mas não podia”, diriam eles entre si, mas somente na sua ausên­cia e com aquele ar fal­sa­mente cons­ter­nado de quem vis­lum­bra o doce sofri­mento alheio. Se viesse a mor­rer por into­xi­ca­ção, então, mais do que már­tir seria herói, sua his­tó­ria con­tada e recon­tada ao longo das gera­ções. “Aquilo sim que era gaú­cho”, diriam com olhar sonha­dor e sem dis­far­çar uma pon­ti­nha de inveja...

Se qui­sesse, mas não pudesse, então esse fato inex­pli­cá­vel esta­ria enfim expli­cado. Mas não pos­suía úlcera gás­trica ou tri­gli­ce­rí­dios nas nuvens ou ame­aça imi­nente de infarto nem her­pes que fosse para jus­ti­fi­car sua falta. Nadi­nha de nada.

Dava-se uni­ca­mente o absurdo de não comer porco, e por isso era visto como alguma espé­cie de extra­ter­res­tre ater­ri­sado de algum pla­neta mui lon­gín­quo e exó­tico, do qual a gente só sabe a exis­tên­cia de ouvir falar ou atra­vés da TV. “ali­e­ní­gena homos­se­xual” Um pla­neta habi­tado uni­ca­mente por homos­se­xu­ais não-comedores-de-porco. Um pla­neta de mari­cas não-pujantes e que, pelo andar da car­roça, tudo levava a crer que tam­bém não arro­ta­vam ou pei­da­vam em público, não expe­liam cuspe ao coçar o saco, não segu­ra­vam os ossos com as mãos e não uti­li­za­vam pali­tos de den­tes nem mesmo em privado.

Um gaú­cho que não comia porco, eis aqui uma his­tó­ria digna de se con­tar. Ver esse sujeito mesmo com meus pró­prios olhos, nunca vi. Mas quem viu e me con­tou jura que isso é ver­dade. Um ver­da­deiro absurdo, como se pode perceber.

Retra­tos Por­tu­gue­ses esco­lhi­dos para expo­si­ção no Ins­ti­tuto Camões

Publicado em 17 de dezembro de 2008 por Olegario Schmitt

Retra­tos Por­tu­gue­ses — 50x75cm

16 ima­gens da série Retra­tos Por­tu­gue­ses foram sele­ci­o­na­das para a expo­si­ção cole­tiva Lá e Cá III, cujo tema esse ano é Iden­ti­da­des e, com cura­do­ria de João Kulc­sár, acon­te­cerá no Ins­ti­tuto Camões — Embai­xada de Por­tu­gal (Brasília/DF).

Essa cole­tiva, assim como nas demais edi­ções, busca pro­mo­ver a inte­gra­ção Brasil/Portugal atra­vés da foto­gra­fia, con­tando com ima­gens pro­du­zi­das por fotó­gra­fos por­tu­gue­ses (lá) e bra­si­lei­ros (cá).

Em datas a serem defi­ni­das, a expo­si­ção virá “cá” para São Paulo, depois irá para “lá”, digo, Lis­boa e Porto, Portugal.

Links:
Retra­tos Por­tu­gue­ses
Ins­ti­tuto Camões

Con­sór­cio de cirur­gias plásticas

Publicado em 02 de dezembro de 2008 por Olegario Schmitt

Cher

Ulti­ma­mente as pes­soas têm andado mais esti­ca­das: cirur­gia plás­tica, botox, lipo­es­cul­tura... é um tal de corta, estica e cos­tura sem fim.

Tenho uma velha tia que já foi tão esti­cada, mas tão esti­cada, que quando você acha que ela está sor­rindo está na ver­dade “tudo jói­nha?“com cãi­bra no dedão do pé. E quando ela diz “jóia” com o dedão da mão direita o dedo do meio da mão esquerda faz um gesto obs­ceno. É por isso que ela só faz “jóia” com a mão esquerda no bolso e a ponta do pé esticada.

Se todas as suas ope­ra­ções para levan­ta­mento dos seios tives­sem sido fei­tas de uma única vez, che­ga­ría­mos à alar­mante con­clu­são de que eles aca­ba­riam parando nas omo­pla­tas. A sorte da senhora — de tetas per­fei­tas — é ter idade sufi­ci­ente para ter dis­tri­buído todas essas cirur­gias ao longo dos anos.

E quando você observa o qua­dril escul­tu­ral e a bar­ri­gui­nha per­feita, até esquece que ela man­dou reti­rar qua­tro cos­te­las dali. É nesse ponto que a expres­são “corpo escul­tu­ral” acaba sinis­tra­mente adqui­rindo outro sen­tido e pergunta-se: até que ponto?

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A his­tó­ria de uma vici­ada... em orelhas!

Publicado em 02 de dezembro de 2008 por Olegario Schmitt

Lady Spirro

Meus olhos cin­ti­lan­tes cor-de-telha estão vidra­dos no moni­tor, ao mesmo tempo em que os meus dedos des­tri­pam furi­o­sa­mente o teclado.

São 22 horas e o sol azul se põe no hori­zonte ver­ti­cal da Net-Heart, enquanto Lady Spirro engole “vici­ada... em ore­lhas“mais uma de minhas orelhas.

Pre­ciso fazer com que ela pare com isso, já é a ter­ceira ore­lha minha que ela come só nessa semana e eu acho que ela está ficando vici­ada. Estou preocupado.

Lady Spirro é uma coisa estra­nha. Há alguns anos atrás eu me arris­ca­ria a chamá-la de mulher, mas hoje eu não sei mais de nada. Ainda mais com essa gosma verde que escorre inces­san­te­mente dos seus lábios.

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E de expres­sar esse sentimento

Publicado em 02 de dezembro de 2008 por Olegario Schmitt

Ole­ga­rio Sch­mitt — A Cor do Som de Uma Onda — Acrí­lica sobre vidro

Meu amor, amar é mais sim­ples do que se pode­ria supor, sabias? Amar é mais fácil do que a gente ima­gina e há mui­tas manei­ras, mui­tas inten­si­da­des de se sen­tir essa coisa.

Eu, por exem­plo, quando digo “eu te amo” não quero com isso dizer que tu és o grande amor da minha vida, tam­pouco é uma pro­messa de que o que sinto será eterno.

Por isso, quando digo “eu te amo” não sin­tas medo e não entres em pânico de forma alguma, pois não impo­nho a esse “sem espe­rar nada em troca“sen­ti­mento qual­quer tipo de res­pon­sa­bi­li­dade recí­proca. Não espero por esse sen­ti­mento qual­quer tipo de res­posta ou ati­tude, pois amar é sen­tir sem cobrar, sem que­rer nada em troca. Amar é sim­ples­mente sentir.

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A sen­si­bi­li­dade ISO como pará­bola para a sen­si­bi­li­dade das pessoas

Publicado em 16 de novembro de 2008 por Olegario Schmitt

Auto­re­trato Lendo o Manual — ISO Baixo / ISO Alto

Fil­mes foto­grá­fi­cos pos­suem essa pro­pri­e­dade cha­mada ISO que é fator deter­mi­nante do nível de sen­si­bi­li­dade das pelí­cu­las à luz: quanto maior o ISO, menor a quan­ti­dade de luz neces­sá­ria para impressioná-las e vice-versa. Em situ­a­ções ilu­mi­na­ção idên­tica, quanto maior o ISO, menor o tempo de cap­tura neces­sá­rio para regis­trar a cena (ou “sen­si­bi­li­zar o filme”, no jargão).

Dessa forma, situ­a­ções com grande inten­si­dade de luz (praia em dia de sol, por exem­plo) exi­gem ISO baixo — se você já fez fotos na praia uti­li­zando um filme de ISO 400 é pro­vá­vel que suas fotos tenham ficado esbran­qui­ça­das (ou supe­rex­pos­tas, no jar­gão), pois o mais ade­quado para essa situ­a­ção seria um filme de ISO 100. Se você já ten­tou regis­trar fotos notur­nas com sua câmera sem flash cer­ta­mente a mai­o­ria delas fica­ram ou escu­ras (subex­pos­tas) ou então bor­ra­das. Isso se dá por­que em ambi­en­tes de baixa lumi­no­si­dade ou você aumenta o tempo de expo­si­ção da foto (“deixa a foto batendo por mais tempo”, em expres­são leiga), “algu­mas tec­ni­ci­da­des“ou uti­liza filme de sen­si­bi­li­dade mais alta (maior ISO).

Isso acon­tece por­que nos fil­mes de ISO baixo, o tama­nho dos grãos de sal de prata é bem pequeno, exi­gindo maior número de raios lumi­no­sos até que sejam sen­si­bi­li­za­dos. Já nos fil­mes de ISO alto, esses grãos são bem mai­o­res — mui­tas vezes ficam visí­veis na pró­pria ima­gem, daí o aspecto gra­nu­lado de algu­mas fotos —, per­mi­tindo com que cada mísero raio de luz o acerte com extrema facilidade.

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Antro­po­mor­fi­za­ção dos ani­mais de estimação

Publicado em 03 de novembro de 2008 por Olegario Schmitt

Primo Lucas

Por acaso existe acaso? Após ter escrito o artigo ante­rior (Ani­mais de Esti­ma­ção), eis que este livro vem parar em minhas mãos: Sobre o Olhar, de John Ber­ger, com tra­du­ção de Lya Luft.

Segue um tre­cho do pri­meiro artigo, cha­mado “Por que olhar os animais?”:

No pas­sado, famí­lias de todas as clas­ses man­ti­nham ani­mais domés­ti­cos por­que eles ser­viam a um obje­tivo útil — cães de guarda, cães de caça, gatos para matar ratos, e assim por diante. A prá­tica de man­ter ani­mais inde­pen­dente de sua uti­li­dade, man­ter exa­ta­mente os ani­mais de esti­ma­ção (no século XVI, a pala­vra habi­tu­al­mente se refe­ria a um cor­deiro cri­ado na mama­deira) é uma ino­va­ção moderna e, na escada social em que atu­al­mente existe, é única. É parte daquele afas­ta­mento uni­ver­sal porém pes­soal para den­tro da pequena uni­dade pri­vada da famí­lia, deco­rada ou mobi­li­ada com obje­tos do mundo exte­rior, que é um traço tão dis­tin­tivo das soci­e­da­des de consumo.

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Trá­gi­cas his­tó­rias de qua­tro patas...

Publicado em 13 de outubro de 2008 por Olegario Schmitt

Furi­oso

Quando eu era cri­ança morava num sítio e tinha um por­qui­nho de esti­ma­ção cha­mado Por­qui­nho. Ele era bem roliço por­que mamava no bico, ape­sar “o porco sumiu“dos pro­testo de mamãe em “jogar leite fora com esse porco”. Ia ron­cando atrás de mim o tempo todo e quando eu coçava sua bar­ri­gui­nha ele dor­mia. Até que um dia o tal do porco sumiu, mis­te­ri­o­sa­mente. Ape­nas já muito grande é que fui enten­der que a gente havia comido ele.

Depois tive o Bequi­nho, um bezerro cuja mãe havía­mos jan­tado no ano novo. Mas eu o ensi­nei a cabe­cear e a dar coi­ces e ele come­çou a ficar muito peri­goso con­forme cres­cia. “o bezerro me cabe­ceou“Certa feita, no meio do nada, Bequi­nho me cabe­ceou para den­tro de uma vala funda de barro e minha mãe pegou impli­cân­cia com ele. Na sua última faça­nha, encur­ra­lou dois nego­ci­an­tes no canto do gal­pão de papai e eles fica­ram encan­ta­dos. Foi ven­dido por um bom preço, ape­sar de meus protestos.

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