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agosto de 2007

Pero no mucho...

Publicado em 07 de agosto de 2007 por Olegario Schmitt

Inês de Cas­tro (1325–1355)

Agora é tarde: Inês é morta.

Aca­bada, ces­sada, dece­dida, defun­ci­o­nada, desa­pa­re­cida, esti­cada, exi­cida, extinta, fale­cida, fene­cida, finda, finada, par­tida, pas­sada, per­dida, pere­cida, tran­si­tada, transpassada.

Às favas o gali­cismo pro­ven­çal: game over para Inês! Se “morte” sig­ni­fica ces­sar de exis­tir, Inês não mais É, dei­xou de ser.

Porém, não obs­tante o fato, Inês con­ti­nua sendo (“Inês é”) e logo se nota que o acon­te­ci­mento pode ser trá­gico, mas jamais definitivo.

Ao revés, se fosse dito “Inês ESTÁ morta”, have­ria aí espaço para uma pos­si­bi­li­dade, mesmo que remota, de que ela pudesse dei­xar de estar assim, como se dormisse.

Por isso, toda vez que Ham­let indaga à caveira “Ser ou não ser — eis a ques­tão”, tenho von­tade de excla­mar indig­nado: “Ser E não ser — eis a res­posta!”. Pois que outra expli­ca­ção plau­sí­vel have­ria senão a de que Inês, ao dei­xar de ser, pas­sou a ser novamente?

A morte é um para­doxo, defi­ni­ti­va­mente há pes­soas que não mor­rem nunca. “Ah, ces­sar, mas que delí­cia!” — teria dito Jorge Luis Bor­ges quando inda­gado sobre o assunto...

A morte é vida vivida,
A vida é morte que vem.
A vida não é outra coisa
Que a morte se exibindo.

Jorge Luis Bor­ges (1899–1986)

Tra­du­ção: Ole­ga­rio Schmitt

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