dezembro de 2007
A serendipidade contada através da maçã
Em busca da luz-em-si
Este trabalho não procura analisar como o volume dos objetos é construído através das inter-relações existentes entre luz e sombra, mas sim conseguir alcançar a própria essência da luz — a luz-em-si —, sem qualquer outro elemento constituindo a imagem além dela mesma.
Sabendo-se que para alcançar a essência de qualquer coisa é necessário abandonar tudo o que é acessório à sua existência — chegando enfim à dita coisa-em-si, onde ela, abstratamente, não é mais nada além de si mesma —, se percebeu que a sombra de uma mão, por exemplo, traria consigo uma série de significados, cada um deles nos distanciando cada vez mais da essência da luz a qual se buscava.
Dessa forma, optou-se pelo abstracionismo —“nenhum signo além da própria luz” não havendo conexão direta com a realidade, libertou-se também do compromisso com qualquer tipo de signo além da própria luz, possibilitando que se alcançasse tanto maior liberdade criativa quanto interpretativa. Continuar lendo »
O que é Realidade... na Imagem?

Escher — Autorretrato
O grande problema na maioria das discussões sobre fotografia — principalmente as mais antigas — é que muitas vezes se toma esse tipo de arte sob o ângulo da “reprodução do real”, não podendo existir estultice maior do que essa. Mesmo que esse approach possa vir de Baudelaire1, por exemplo, não passará disso: estultice. E até mesmo os grandes gênios cometem as suas.
Fotografia é uma representação iconográfica fragmentária da realidade2. Só nesse conceito já se nota o quão distante do real se encontra. Tendo, porém, “valor de real”, é justamente isso o que causa toda a confusão. Como é necessário a existência física de algum objeto e da luz3 — efetivamente eles estiveram lá naquele determinado momento — se pensa que a imagem fotográfica é a cópia fiel de algo que existiu.
Lá Si!
Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Jorge Amado, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, você... e eu.

Quintanimim
drummondaria você
para aquele lugar
bom de estar,
para aquele lugar
entre o passarão,
o passarinho
e a pedra no caminho.
Mas, mais um
mariamado,
nada falo:
apenas carlos-me
em tua pessoa.
Afinal, tenho andrado
poeta menormesmo
nos últimos boitempos...
Como seria o nosso mundo sem imagens fotográficas?

O mundo urbano contemporâneo sem a existência da fotografia é a tal ponto inimaginável, que soa mais sensato grafar “um mundo” em detrimento de “o mundo”: só é possível mensurar sem fotografia um mundo que não este.
Apesar de as más línguas afirmarem que “uma imagem vale por mil palavras”, se assim o fosse, não seria mais necessária a existência da grafia e, conseqüentemente, desse mesmo texto: tudo aquilo sobre o que é aqui discorrido seria representado através de imagens. Não é necessário muita imaginação para“uma imagem vale por mil palavras?” subentender que, dessa forma, não tardaria em existir novo alfabeto, de certa maneira similar ao egípcio, onde em vez de letras existiriam unicamente fotografias.
Se uma imagem não vale por mil palavras, o impacto causado por ela, no entanto, pode sim ser considerado no mínimo mil vezes mais profundo: diferente de ler a descrição da cena onde um menino cata lixo para sobreviver, é ver a sua imagem no ato.
Deixai toda a esperança, vós que entrais no Brasil

Esra Ersen — 27ª Bienal de São Paulo
Não se iluda: no arco da nossa porta verde-amarela, nem Gonçalves Dias, nem Bilac, mas Dante, Canto III do Inferno: “Deixai toda a esperança, vós que entrais”.
O Brasil não tem jeito. A realidade é esta. Aceitemo-na tal qual ela é: dura, fria, amorfa como os corpos do mais novo acidente aéreo.
O que fazemos quando um político investigado por corrupção toma posse? NADA. O que fazemos quando acontece mais um acidente aéreo? Continuamos tomando vôos no mesmo aeroporto e, assim como o presidente, manifestamos comiserações de alcova.
Todos “Deixai toda a esperança, vós que entrais” — Dantesabem que nada acontecerá, porque nada acontece mesmo. E não acontece porque ninguém faz nada: nem você. Não acontece porque ninguém está nem aí: reclamamos e paramos em mão-dupla, devolvemos carteiras perdidas e jogamos lixo no chão. Tudo não passa de uma grande festa! Ôba! Ôba! Rouba! Rouba!
A grande maioria que estufa o peito e diz que o Brasil tem jeito está na verdade confundida: isto que chamam esperança não é nada mais do que ilusão. Portanto, abandonar toda a esperança já é um bom começo — o ceticismo niilista pode ser obscuro, desesperador e tristíssimo, mas certamente não é iludido.
Riscando os erros

by Joe Lee
Ficou a impressão de que o artigo anterior está ali, sujando meu blog. E talvez a morte do gerúndio não valha tanto assim.
As moedas têm dois lados, às vezes têm duas caras (lesando a coroa em dobro).
Na vida contemporânea, anoréxica de heróis, parca de modelos ou exemplos, ser discípulo de Diógenes é tarefa cada vez mais ingrata, a “benevolência” governamental não passando de mera esmola atada a um fio.
Dessa forma, VOU ESTAR RISCANDO o artigo, no gerúndio mesmo, não na tentativa de ocultar um erro, mas na intenção justamente de admití-lo.
E aproveito a oportunidade para riscar também outras palavras:
Brasília
Corrupção
Desonestidade
Mau-Caratismo
Apatia
A questão é: dessa vez, estou riscando o erro de quem?
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