
Lugar Mágico — São Pedro do Sul/RS
Os poetas tem por hábito olhar um riacho buliçoso, por exemplo, e pensar “ó, que poético o som da água bolinando as pedras”... mas, convenhamos, o som da água sobre as pedras, em si, não contém poesia alguma!
Não há poesia nas coisas ou na natureza, pois as coisas simplesmente existem, de forma abstrata. “as coisas simplesmente são, sem definições“A própria essência das coisas é neutra: o riacho simplesmente corre por força da gravidade, faz barulho nas pedras por força do atrito físico, o que, por natureza, não é belo ou poético — as coisas SIMPLESMENTE SÃO, sem definições.
Por termos esse velho hábito de sempre procurar as coisas fora de nós mesmos é que pensamos que a poesia está nas coisas, na natureza, ou que D’us está lá fora... mas isso não passa de projeção.
projeção, s. f. Ato ou efeito de projetar; (Psiq.) transferência de culpa: mecanismo psicológico compensador que consiste em atribuir a outros os próprios sentimentos, livrando-se o indivíduo de responsabilidades e de conflitos entre o desejo e o dever.
Portanto, não há tonteira maior do que dizer que “há poesia no riacho” ou que “não há poesia no concreto” “a poesia não está na natureza, não há poesia no riacho”(não confundir aqui “poesia no concreto” com “poesia concreta”): o correto seria dizer “VEJO poesia no riacho” ou “NÃO VEJO poesia no concreto”.
A poesia não está na natureza: está no homem, ou seja, ela pode estar em todos os lugares ou em lugar nenhum, dependendo não do que se vê, mas dos olhos — e da sensibilidade — para vê-la.