Arquivo - junho

Arquivos para o mês de junho

junho de 2004

Uma sopa improvável.

Publicado em 28 de junho de 2004 por Olegario Schmitt

Série Ara­nhas e Insetos

Freqüen­te­mente os homens se rela­ci­o­nam com seus prín­ci­pes como fazem com seu deus, o prín­cipe tendo sido mui­tas vezes o repre­sen­tante do deus, seu sumo sacer­dote, pelo menos¹. Mas para algo exis­tir mesmo — um deus, um bicho, um uni­verso, um anjo... — é pre­ciso que alguém tenha cons­ci­ên­cia dele. Ou sim­ples­mente que o tenha inven­tado².

A esse medo dos pode­res invi­sí­veis, inven­ta­dos ou ima­gi­na­dos a par­tir de rela­tos, chama-se reli­gião³, então não des­ças os degraus do sonho para não des­per­tar os mons­tros. Não subas aos sótãos — onde os deu­ses, por trás das suas más­ca­ras, ocul­tam o pró­prio enigma. Não des­ças, não subas, fica. O mis­té­rio está é na tua vida! É um sonho louco este nosso mundo², o homem é o lobo do homem³.

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Homem: ícaro incansável.

Publicado em 23 de junho de 2004 por Olegario Schmitt

O Homem inventa
asas-delta,
aero­pla­nos,
jatos supersô­ni­cos,
fogue­tes de pro­pul­são
de plutônio.

Os pás­sa­ros voam livres
atra­vés do infi­nito,
e nem sabem disso...

In: No Pé da Letra, Ed. Blo­cos, 1999

Esse poema tam­bém está dis­po­ní­vel em mul­ti­mí­dia:
http://www.oleschmitt.com.br/multimidia/ospassaros.html

Como será na Letônia?

Publicado em 22 de junho de 2004 por Olegario Schmitt

Veja o outro pig­gie no Blog de Cécil Braga e Cha­ves: cli­que aqui.

Qual é, afi­nal, a linha de pen­sa­mento desse blog?

Publicado em 22 de junho de 2004 por Olegario Schmitt

Estresse na Fila do Banco — Série Mat­ches

Meu melhor amigo disse-me que esse Blog seguia linha nii­lista, com­pleta des­crença nos seres humanos.

Quanto à des­crença nos seres huma­nos, tudo bem, por­que até aí é ver­dade... mas quanto à linha, não pre­ten­dia que esse Blog seguisse alguma, por­que eu pró­prio não tenho qual­quer tipo de linha: não sou novelo.

Deixo claro, por­tanto, que esse Blog, ofi­ci­al­mente, é tão desa­li­nhado quanto meus cabelos.

Mas por falar em desa­li­nhos, lembrei-me de algo que acon­te­ceu há alguns minu­tos atrás, na fila dos Cor­reios. Uma senho­ri­nha, muito dis­pli­cente, resol­veu furar a fila. Haviam três na frente dela, além de mim, que era o pri­meiro. E quem tirava a muqui­ra­ni­nha do gui­chê? Quem? Irre­du­tí­vel, pés fixos, ata­cada de sur­dez estra­té­gica, per­ma­ne­cia esta­tu­ada no mesmo lugar.

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O que é liber­dade de expres­são, se é que existe tal coisa.

Publicado em 15 de junho de 2004 por Olegario Schmitt

O inciso IX, do Artigo 5º da Cons­ti­tui­ção Fede­ral, esta­be­lece que “é livre a expres­são da ati­vi­dade inte­lec­tual, artís­tica, cien­tí­fica e de comu­ni­ca­ção, inde­pen­den­te­mente de cen­sura ou licença”. O Artigo 220, que “a mani­fes­ta­ção do pen­sa­mento, a cri­a­ção, a expres­são e a infor­ma­ção, sob qual­quer forma, pro­cesso ou veí­culo não sofre­rão qual­quer res­tri­ção”. O seu pará­grafo 1º esta­be­lece que “nenhuma lei con­terá dis­po­si­tivo que possa cons­ti­tuir emba­raço à plena liber­dade de infor­ma­ção jor­na­lís­tica em qual­quer veí­culo de comu­ni­ca­ção” e, em 1948, o Bra­sil subs­cre­veu a Decla­ra­ção Uni­ver­sal dos Direi­tos do Homem, que diz em seu Artigo 19 que “todo homem tem direito à liber­dade de opi­nião e expres­são; este direito inclui a liber­dade de, sem inter­fe­rên­cias, ter opi­niões e de pro­cu­rar, rece­ber e trans­mi­tir infor­ma­ções e idéias por quais­quer meios”.

Embora os auto­res tenham, entre­tanto, amplo apoio legal à Liber­dade de Expres­são, é evi­dente que essa liber­dade não é ili­mi­tada como apre­goa a teo­ria da Lei, pois é bem sabido que “essa liber­dade não é ili­mi­tada como apre­goa a teo­ria da Lei“um autor não pode e não con­se­guirá facil­mente publi­car qual­quer coisa que ele bem enten­der. Sua obra, não obs­tante ter pas­sado pela cen­sura par­ti­cu­lar dele mesmo e pela cen­sura direta dos pro­pri­e­tá­rios ou diri­gen­tes dos meios de comu­ni­ca­ção, ainda deverá con­fron­tar a “cen­sura social”, essa mais forte e mais difí­cil de ser transigida.

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A culpa é do Sis­tema”, disse a fun­ci­o­ná­ria pública à velhi­nha caqué­tica da fila do INSS.

Publicado em 14 de junho de 2004 por Olegario Schmitt

O Sis­tema, que serve para regu­lar a ação das mas­sas, está con­tra os desajustados.

O Sis­tema, con­su­mista por natu­reza, adquire o pro­duto do desa­juste, desde que tra­ves­tido e adap­tado a ele, e o assimila.

Uma vez assi­mi­lado pelo Sis­tema o pro­duto do desa­juste passa a ser Cultura.

A Arte Livre, aquela não-engajada ao Sis­tema, não obe­dece regras ou leis e, por isso, está vol­tada con­tra ele. “A arte livre está vol­tada con­tra ele“Do ponto de vista dele, a Arte Livre é Contra-Cultura. Contra-Cultura será então toda Arte que não pode ser assi­mi­lada por ele por­que não ajus­tada e deverá ser ani­qui­lada atra­vés da opressão.

Como sou artista, entendo que a Cul­tura inserta no Regime é a ver­da­deira Contra-Cultura e que, anu­lá­vel, não tem nenhum valor.

Mas como tento, mesmo que incons­ci­en­te­mente, me tra­ves­tir e me adap­tar ao Sis­tema, isso faz de mim um hipó­crita, não tendo eu tam­bém nenhum valor senão aos olhos do Sistema.

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O cida­dão médio sente-se pequeno diante de coi­sas mai­o­res que ele.

Publicado em 14 de junho de 2004 por Olegario Schmitt

© by Eric Ras­chke — rageous.us

Vejo uma menina mal­tra­pi­lha pedindo tro­ca­dos, um menino gor­du­cho catando lati­nhas no lixo e um louco que passa ridi­cu­la­mente feliz na sua con­di­ção, com uma eti­queta gru­dada na ore­lha e o sor­riso doente e quebrado.

Vejo tam­bém pes­soas comuns da minha cidade, pes­soas comuns como as de uma cidade qual­quer, tão feli­zes na ali­e­na­ção da sua igno­rân­cia que me fazem ques­ti­o­nar sobre os con­cei­tos de feli­ci­dade e conhe­ci­mento, sem no entanto obter res­pos­tas conclusivas.

Mas é somente quando o menina volta, visi­vel­mente feliz por ter encon­trado tan­tas lati­nhas de coca-cola, que me sinto imen­sa­mente cul­pado por, mesmo per­ce­bendo essas coi­sas e fazendo parte do mesmo mundo que ele, ainda con­se­guir sentir-me pro­fun­da­mente em paz.

Poe­mi­nho do tempo em que fui ati­vista estudantil.

Publicado em 08 de junho de 2004 por Olegario Schmitt

Foto: Cen­tro de Medios Inde­pen­di­en­tes — Gua­da­la­jara — Mexico

Hoje o dia pro­mete
tem pas­se­ata às sete
cor­rida da polí­cia às oito
e como um bicho
me escon­der afoito.

Hoje o dia pro­mete
tem pas­se­ata às sete
pelos milhões sem nome
que pas­sam fome,
para depois, às oito,
fugir de parte deles
que se dis­farça
sob os uniformes.

(1993)

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