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maio de 2004

Um recado aos buro­cra­tas da pós-modernidade.

Publicado em 30 de maio de 2004 por Olegario Schmitt

Buro­cra­tas esqui­zo­frê­ni­cos cheios de para­fer­ná­lias esté­ti­cas pós-modernas, mais retró­gra­dos do que pás de moi­nho girando aos ven­tos solares.

Qui­xote salve suas almas, San­cho pro­teja da alu­ci­na­ção cole­tiva, esses filis­teus ali­e­na­dos na des­crença da rea­li­dade meta­fí­sica e da inal­can­çá­vel liber­ta­ção do sis­tema tec­no­crá­tico que é o estar vivo.

Ceti­cismo con­tem­po­râ­neo como girân­du­las, girassóis-gestalto pra­ti­cando a mas­tur­ba­ção polí­tica, o cinismo retó­rico e a mono­cro­mia hipó­crita do con­trole ilusionário.

Pisando sonhos e poe­sia como for­mi­gas atô­ni­tas no meio do cami­nho des­tru­tivo da engre­na­gem, assis­tindo sua pró­pria ani­qui­la­ção enquanto dan­çam em torno de foguei­ras pré-históricas, roendo o osso de mamute da liber­ta­ção criativa.

Morte aos filis­teus e à morte do sonho! Que a buro­cra­cia entre na fila infi­nita para o outro gui­chê, para o outro gui­chê, para o outro gui­chê, sabendo final­mente estar no setor errado.

E aos tec­no­cra­tas das moder­ni­da­des, coroas de flo­res às estam­pas Hermès.

Há algum sen­tido em se viver na pós-modernidade?

Publicado em 25 de maio de 2004 por Olegario Schmitt

Aque­les que vivem essa cul­tura insana do nada, onde o grande pro­pó­sito são os des­pro­pó­si­tos e o obje­tivo, nem sem­pre incons­ci­ente, é a des­cons­tru­ção para­nóica da rea­li­dade, sai­bam que quando essa com­pleta falta de sen­tido for final­mente alcan­çada, quando esti­ver­mos todos defi­ni­ti­va­mente entre­gues ao vazio exis­ten­cial dessa rea­li­dade intan­gí­vel, tal­vez então con­se­gui­re­mos estar em pro­fundo con­tato com nos­sos ver­da­dei­ros eus.

E den­tro desse caos que alcan­ça­re­mos tal­vez encon­tre­mos um norte rumando a algum objetivo.

Pela oca­sião do aten­tado ao escri­tó­rio da ONU em Bagdá, o qual viti­mou o diplo­mata bra­si­leiro Sér­gio Vieira de Mello.

Publicado em 16 de maio de 2004 por Olegario Schmitt

Cabe­ças cor­ta­das - Série Mat­ches

silên­cio & com­pleta soli­dão para estar em con­tato com minhas entra­nhas.
mas vizi­nhos. vizi­nhos azu­cri­nam o tempo todo.
às vezes sinto von­tade de ani­qui­lar meus vizi­nhos.
todos eles. agora mesmo fazendo baru­lho
nos cor­re­do­res. por­tas batendo, cam­pai­nhas tocando,
tro­lo­lós sobre a vida alheia. morte aos vizi­nhos!
poda­do­res da com­pleta liber­dade do ser humano!

deve­mos todos adaptar-nos à von­tade alheia?
mas qual von­tade den­tre todas deverá pre­do­mi­nar?
devo obe­de­cer à sín­dica fun­ci­o­ná­rios seguindo
os pas­sos do gerente? deve­mos todos ser iguais ao pre­si­dente?
e quem será o pre­si­dente do meu ins­tante, da minha pátria,
do meu mundo e da vida do meu filho que explode?

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Há alguma espe­rança diante do que acon­te­ceu ao redor do mundo nos últi­mos quinze minutos?

Publicado em 16 de maio de 2004 por Olegario Schmitt

nes­ses últi­mos quinze minu­tos que se pas­sa­ram,
mais uma bomba deve ter explo­dido em bagdá,
algum timo­rense deve ter sido caçado
no seu direito de viver livre em timor
e há menos ira­qui­a­nos no mundo

há menos mães ira­qui­a­nas no mundo,
há menos cri­an­ças ira­qui­a­nas no mundo,
há muito menos mundo no mundo.

uma flor nas­ceu em algum lugar,
mas não sei onde por­que não estava olhando,
e em sarai­evo nas­ce­ram tam­bém mui­tas flo­res,
mas eles não viram por­que estão famintos.

nes­ses quinze minu­tos cen­te­nas de meni­nas
esti­ve­ram se pros­ti­tuindo ao redor do mundo
e milha­res de cri­an­ças bra­si­lei­ras
esti­ve­ram pas­sando fome,
tal­vez mais de uma dezena delas haverá mor­rido
da fome ou da desi­dra­ta­ção,
de cra­que ou de bandido.

e nas­ceu mais uma flor na favela,
mas a essa altura ela cer­ta­mente
já terá mur­chado e mor­rido de abandono.

nes­ses quinze minu­tos
tal­vez um sonho tenha sido rea­li­zado,
uns outros milhões foram esquecidos.

nes­ses quinze minu­tos
eu te escrevi esse poema
pois ainda resiste em mim
a cer­teza de que as flo­res valem a pena.

In: O Amor & Outras Coi­sas que Coçam, 2003

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